"Não somos uma Igreja para os puros. A nossa regra é o amor." Entrevista com Donald Wuerl

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20 Outubro 2015

"Nós não somos uma pequena Igreja apenas para os puros, a regra da comunidade cristã é o amor." A afirmação, às vésperas da última semana do Sínodo dos bispos sobre a família, é o cardeal estadunidense Donald Wuerl, arcebispo de Washington e membro da comissão de dez Padres sinodais encarregados de redigir o relatório final que será submetido à votação no sábado, 24 de outubro.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 18-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nascido em Pittsburgh, Pensilvânia, em 1940, padre em 1966, foi nomeado bispo em 1986 por João Paulo II. Depois de dois anos em Seattle, foi transferido para a sua cidade natal, e, em 2006, o Papa Ratzinger o escolheu como chefe da diocese de Washington, criando-o cardeal em 2010.

Encontramos Wuerl no Pontifício Colégio Norte-Americano, na tarde de domingo, enquanto o céu de Roma se cobria de nuvens escuras, carregadas de chuva. Nesta entrevista com o Vatican Insider, ele conta a sua experiência de Padre sinodal; rejeita as suspeitas levantadas por alguns purpurados sobre a condução do Sínodo e conta como Francisco conseguiu falar ao coração dos norte-americanos durante a sua recente visita.

Eis a entrevista.

Como o senhor descreve a sua experiência de Padre sinodal com os novos procedimentos?

O primeiro Sínodo de que eu participei foi... o primeiro Sínodo, em 1967. Eu era então o secretário de um dos bispos participantes. Depois, fui membro, como bispo, de sete sínodos, e, com base na minha experiência, posso dizer que este Sínodo permite que os bispos tenham mais tempo para falar entre si. Essa mudança foi a resposta do papa a um pedido dos bispos ao longo dos anos: o de passar menos tempo ouvindo as intervenções na assembleia e de ter mais tempo para a livre discussão nos grupos linguísticos. Francisco fez isso, seguindo as recomendações do Conselho do Sínodo.

Por que essas mudanças eram importantes?

Agora, não se passa a maior parte do tempo simplesmente ouvindo, mas também discutindo entre nós. Depois, há outra coisa que representa um passo a mais: a ideia de ter desejado dois Sínodos sobre o mesmo assunto, à distância de um ano um do outro, permitiu a continuação do trabalho, o envolvimento e a participação de toda a Igreja. Assim, na base desta assembleia, tivemos o Instrumentum laboris, que representa toda a discussão interna à Igreja. E nos "circuli minores", os grupos linguísticos, são preparados os relatórios comuns. Quero enfatizar que os moderadores e os relatores de cada grupo foram eleitos por nós. No nosso círculo linguístico, o relator, depois de preparar o texto de resumo, fez com que ele circulasse para que o controlássemos uma última vez. Parece-me democrático. Depois, os relatores dos 13 "circuli minores" devem buscar entre si um consenso sobre os elementos comuns que surgiram nos vários grupos. E, depois, há a comissão de dez pessoas para o relatório final. Não é realmente possível que a ideia de uma pessoa possa manipular todos os outros.

O que o senhor acha da carta, assinada também por três cardeais, colaboradores estreitos do papa na Cúria Romana, na qual se colocava em dúvida a honestidade e a transparência do processo sinodal, da forma como o próprio pontífice estabeleceu?

Vou responder com uma piada que me foi contada por uma pessoa do governo do meu país. Ela me disse: "Se isso acontecesse na administração dos Estados Unidos, com um ministro que se opusesse ao presidente e dissesse que o presidente está manipulando o país, eu não acredito que obteria a mesma resposta gentil". Eu não vi essa carta, eu li a versão que foi publicada. Eu só sei que a acusação de manipulação é absurda: com o processo que eu descrevi, como é possível manipular 270 participantes, que elegem relatores e moderadores, e que votam? Aqueles que afirmam isso têm uma visão bastante nebulosa. É como aqueles que sofrem de icterícia e veem tudo amarelo.

Vou lhe contar uma história: quando eu trabalhava aqui em Roma, há muitos anos, em uma esquina da Via della Conciliazione, havia um sorveteiro que se chamava Cesare e era muito anticlerical. Todas as vezes que eu passava por ele, eu lhe dizia: "Bom dia", e ele nunca me respondia. Uma vez, eu parei e lhe disse bom dia. Ele me perguntou: "Por que você sempre me cumprimenta?". Eu respondi: "Cesare, se eu não fizesse isso, você diria à sua esposa: 'Olha só esse padre que passa por aqui todos os dias e nunca me cumprimenta!'". Como no caso de que estamos falando: parece não haver nada capaz de mudar aquilo de que se convenceram.

Para além das diversidades sobre possíveis soluções para os vários problemas, a partir das diversas intervenções, parece emergir uma abordagem pastoral que não se limita à enunciação da doutrina. É isso mesmo?

Sempre dissemos: apresente o ensino da Igreja com clareza e, depois, como pastor de almas, trabalhe com a pessoa na situação em que essa pessoa se encontra. É preciso estar perto das pessoas e entender o que a pessoa consegue ouvir. Se alguém não entende, você se oferece para ajudá-lo a entender. Os pais tentam falar de modo simples e claro para os seus filhos, mas, se alguém não entende, eles não lhe dizem que está fora da família. Você não pode começar dizendo que não faz parte da família.

O cerne da discussão no Sínodo é este: verdade e amor são dimensões da mesma realidade divina. A Palavra, a Verdade se fez carne. Não se pode dizer a alguém: saia! É preciso ir encontrá-lo, ouvi-lo, para saber como dizer o que você quer lhe dizer para poder ser ouvido. E, assim, tentar trazê-lo para perto de Jesus. Isso faz um pastor. É a mensagem do Evangelho de hoje: Jesus veio para servir e deu a sua vida por nós, que não somos perfeitos. Muitas pessoas respondem positivamente ao Papa Francisco e mostram muito afeto por ele, mesmo que estejam longe da Igreja Católica, porque percebem a mesma atitude de Jesus. Esse é o objetivo do nosso serviço.

Acredito que vamos entender cada vez mais que o Papa Francisco é um dom de Deus para o tempo que estamos vivendo. Os fiéis veem no papa um convite para se aproximarem de Deus. Quando eu era reitor do seminário, eu explicava que nós só podíamos dar todas as indicações aos seminaristas depois de fazê-los entender que nós cuidamos deles, que queremos o seu bem. O amor, não a lei, é a arquitetura da comunidade cristã. Jesus nos testemunhou isso sobre a cruz. Não somos uma Igrejinha para os puros.

Sobre a questão mais polêmica, relacionada com possíveis aberturas, sob determinadas condições, acerca da concessão dos sacramentos para os divorciados em segunda união, como o senhor acha que o Sínodo vai terminar?

Não sei qual será o resultado. Mas nós já obtivemos um, um passo realmente positivo: é claro que o Papa Francisco quer uma Igreja na qual as preocupações de todos sejam ouvidas. Eu não sei o que vai acontecer no fim desta semana. Parece-me que o resultado do Sínodo é dizer a todo o mundo que se pode discutir na Igreja Católica, e que o princípio do amor de Deus é a norma. Devemos entender como aproximar as pessoas a Deus.

A 34 anos da Familiaris consortio, muita coisa mudou na sociedade e no modo de viver a família...

Passamos todo o tempo do Sínodo de 2012 para compreender como o mundo mudou: secularismo, relativismo, materialismo, individualismo. Falamos do tsunami da secularização que mudou totalmente o rosto da cultura ocidental. O papa nos convida a nos interrogar. Embora haja um pequeno grupo que diz: não podemos nem sequer falar disso.

O senhor acaba de hospedar o papa em Washington. O que chamou a sua atenção nas suas mensagens?

Francisco chamou os norte-americanos aos seus próprios valores, não veio para nos dizer: vocês devem fazer isso ou aquilo. Ele nos disse: vocês são uma nação que diz que estes são os valores a seguir. Isso tocou a todos. Ele não veio para nos apontar o dedo, não condenou, mas veio para nos lembrar o que nós dizemos que queremos ser como norte-americanos. Foi bonito que, diretamente do Capitol Hill, depois do discurso ao Congresso, isto é, o lugar do poder do nosso país, ele foi ao encontro dos sem-teto e das pessoas que os ajudam, apenas a seis ruas de distância. Francisco nos lembrou o que devemos ser.

Depois da realidade da viagem, na semana seguinte, voltou ao centro do debate justamente aquela polarização que Francisco pedia para se superar, com as polêmicas midiáticas pelas duas saudações que ocorreram na nunciatura em Washington.

Francisco falou, as pessoas responderam. Depois, houve essas polêmicas, que refletiam outra mentalidade, a tentativa de nos dividir, de nos condenar mutuamente. Viu-se o contraste entre a mensagem do papa e a mensagem polarizada.

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