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30 Abril 2015

"As centrais sindicais governistas perderam o poder de bater duro, abstiveram da capacidade de organizar a reivindicação social de base classista. Isto se dá mesmo estando diante do que pode ser a maior derrota histórica da classe trabalhadora desde o golpe de  1° de abril de 1964. Para culminar o festival de absurdos, tal derrota pode vir em plena crise de modelo de crescimento através de política anti-cíclica e incentivo ao consumo e ao crédito, e com isso, a crise de legitimidade da ex-esquerda, levando a decadência do PT como legenda de centro-esquerda", constata Bruno Lima Rocha, professor de ciência política e de relações internacionais.

Segundo ele, "este 1° de Maio será realmente único, em todos os planos".

Eis o artigo.

Na semana de 1º de maio de 2015, vivemos um momento ímpar. A classe trabalhadora pode estar diante da pior derrota na história recente do país desde a traição de João Goulart (quando este optou por não resistir) quando do golpe de 1º de abril de 1964.

O absurdo é estarmos vivendo esta circunstância em função de um governo frágil, que fez campanha por esquerda (em especial no 2º turno), ganhou raspando – acertadamente polarizando o país – e já entregara quase tudo ainda no ano de 2014.

A conjuntura é tensa porque esta mudança vinda do Projeto Lei 4330 na prática altera – e para o bem da acumulação dos patrões e empregadores, além de rentistas que se beneficiam dos recursos coletivos da União – a estrutura das relações de trabalho no Brasil. Logo, quando uma conjuntura pode influir de modo estrutural e desestruturante, esta se torna estratégica. Eis a arena onde as maiorias brasileiras hoje se encontram.

O 1o de maio nunca foi tão importante e, ao mesmo tempo, tão frágil  

A data de 1o de Maio é o marco do classismo. Os mártires de Chicago enforcados em 1886 eram operários e anarquistas, e caíram durante o combate pela jornada de 8 horas de trabalho diário. Se fossem vivos hoje, a geração pioneira nas Américas peleando em busca das jornadas de trabalho ficaria desesperada. Estamos diante de um momento ímpar. Em 2008 a farsa chamada de crise da bolha imobiliária fez cair por terra os mitos do neoliberalismo. Atiraram o planeta em uma perigosa dimensão onde o capital fictício e suas condições políticas de existência fizeram valor-trabalho como algo secundário para a acumulação de poder na sociedade de massas.

As obrigações dos Estados de capitalismo central jogaram o planeta na vala-comum do "austericídio", e a soma de desamparo social com desemprego estrutural modificaram as relações de força na Europa. Lá, a velha social-democracia (de fato social-liberal) foi e é cúmplice da quebra de Bem-Estar Social; afundando junto com a burocracia dirigente suas respectivas bases sindicais.

A incapacidade da extrema-esquerda europeia em organizar socialmente a resistência contra as medidas da Troika (e aí temos de cortar na carne ao incluirmos a esquerda libertária) aumentou o vazio de poder de modo a criar o espaço de uma social-democracia de fato revivida com instrumentos políticos derivados de um trotsquismo oxigenado. Tais exemplos seriam o do Podemos espanhol e o Syriza grego. A crise nestas legendas é questão de tempo.

No Brasil, podemos observar algo semelhante. As centrais sindicais governistas perderam o poder de bater duro, abstiveram da capacidade de organizar a reivindicação social de base classista. Isto se dá mesmo estando diante do que pode ser a maior derrota histórica da classe trabalhadora desde o golpe de 1o de abril de 1964. Para culminar o festival de absurdos, tal derrota pode vir em plena crise de modelo de crescimento através de política anti-cíclica e incentivo ao consumo e ao crédito, e com isso, a crise de legitimidade da ex-esquerda, levando a decadência do PT como legenda de centro-esquerda.

Também aqui cabe uma auto-crítica. A esquerda restante, eleitoral ou não, passara os últimos dez anos se engalfinhando pelas migalhas de base social não-atrelada ao lulismo ou aos pelegos históricos e hoje se mostra incapaz de uma unidade de médio prazo. Se no plano eleitoral, a lógica seria uma frente de esquerda, com alianças verticalizadas e repetindo a fórmula para poder ter crescimento na urna. Para aqueles setores não-eleitorais (onde me incluo), a lógica seria ao menos compartilhar com os setores reformistas radicais tanto uma central sindical como uma razoável coordenação de lutas. Tal espaço seria o Conlutas ou a Intersindical ou a fusão dos dois, o que jamais ocorreu. Agora o prejuízo é grande, enorme.

O momento atual é mais do que grave

Eis que a direita ideológica anda de braços dados com os oligarcas governistas e, também atrelada com a oposição da direita que não apoia o governo. Durante a gestão de Eduardo Cunha, as pautas reacionárias estão sendo desengavetadas e as maiorias do Brasil foram pegas de calças na mão.

Ainda na ressaca do 3o turno, entre atos lacerdistas pós-modernos e viúvas do golpe, a linha chilena avança com a acumulação flexível e o retrocesso de direitos marcado pelo pós-fordismo. Os anos `60 nos EUA terminaram com a ressaca conservadora de Nixon e o início da quebra do pacto do New Deal keynesiano.

Aqui, parecia que jamais teríamos um retrocesso do Bismarckismo tropical, pois 2013 aparentava indicar uma nova ascensão de luta direta, marcada à esquerda do lulismo e arrancando vitórias históricas pelo Direito à Cidade. O final de junho de 2013 assistiu ao sequestro da pauta pelos grupos empresariais de mídia e o Gramsci tão proclamado pelos ex-militantes, encarnara sua tese de hegemonia de novo tipo através do twitter dos conglomerados midiáticos.

Hoje vemos o efeito perverso daquela pauta sequestrada e a tentativa de manter os direitos adquiridos apesar do 3o turno e das traições sem fim de quem já compôs com o demônio em nome sabe-se lá de que incluindo a tal da governabilidade. Este 1o de Maio será realmente único, em todos os planos.  

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