Transição e novos cenários de contrapoder

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Por: Por: Jonas Jorge da Silva | 16 Agosto 2016

É emergente repensar as novas estratégias de luta e resistência frente ao atual cenário econômico, político, social e cultural vivido mundialmente. Fala-se muito em crise do capitalismo, mas a crise é mais profunda. A crise é civilizacional e, nesta ótica, capitalismo é muito mais do que uma economia, trata-se de um sistema complexo, que precisa ser compreendido e enfrentado. É neste sentido que no último dia 13 de agosto, com o debate “Século XXI. A crise do capitalismo e os novos cenários de contrapoder”, deu-se início ao ciclo de debates “Movimentos Sociais e Políticos Contemporâneos: novas leituras”. A atividade é promovida pelo CJCIAS/CEPAT, em parceria com o Núcleo de Direitos Humanos da PUCPR e apoio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU. Para a abertura, contamos com a assessoria de Lucas Henrique da Luz (IHU). 

Foto: CJCIAS/CEPAT

A sociedade atual vive uma profunda transição epocal, que a tem marcado indelevelmente. Mais do que meras mudanças, vive-se uma grande transformação socioeconômica (revolução tecnocientífica) e ético-cultural. Neste sentido, Lucas Henrique da Luz fez uma exposição geral do curso de muitas destas transformações, começando pelo que significou a irrupção da modernidade até se chegar ao estágio atual, considerado por muitos intelectuais como pós-moderno ou, então, para se evitar rótulos, simplesmente categorizado como contemporaneidade.

Na atualidade, a crescente convergência e mobilidade de tecnologias de rede digital e os desdobramentos da nova tecnociência, com a intersecção da computação, da tecnologia de comunicações, da biotecnologia e da nanotecnologia, colocam em questão as rotas e práticas sociais até então em profundo diálogo com o que significou a modernidade, fortemente marcada pela crença na razão e na autonomia.

Entre as continuidades e descontinuidades, a atual virtualização e financeirização são elementos que imprimem novos enfoques para o agir humano. No momento atual, é visível o aumento da capacidade humana de interação social e intervenção na realidade, ao mesmo tempo, depara-se com relações sociais efêmeras e fragmentadas. Apesar da total interligação entre os diversos campos (político, econômico, social, etc.), vive-se a experiência da fragmentação. O capitalismo se apropria das possibilidades humanas no interior das atuais transformações sociais, capturando a força do que emerge nas novas metrópoles mundiais.

Diante de tal contexto, como pensar os novos cenários de contrapoder? Para Lucas Henrique da Luz, a força dos novos movimentos sociais e políticos está no modo como são capazes de compreender e atuar a partir da potência das recentes transformações vivenciadas e que, em parte, foram explicitadas acima.

As grandes corporações e toda a parafernália do sistema capitalista parecem ter compreendido muito bem as formas como capturar (biopolítica) tal potência humana, contudo, infelizmente, muitos movimentos sociais e partidos políticos insistem em atuar a partir dos paradigmas da modernidade, ignorando suas próprias fragilidades e seu distanciamento dos atuais processos em instituição. Hoje, é crucial compreender as mudanças do processo de subjetivação do capitalismo industrial para o cognitivo, para que os movimentos de luta e resistência a esse sistema possa ganhar vigor.

Em uma fase de transformações emergentes, muitos movimentos sociais continuam submetendo as singularidades às normas e formas (disciplina moderna), sem discutir e produzir novas institucionalidades, a partir de mecanismos múltiplos de participação. Os novos movimentos sociais e políticos só serão capazes de apresentar vitalidade se forem capazes de adentrar as novas dinâmicas dessas constantes transformações. Para Lucas Henrique da Luz, entre as possibilidades de tais movimentos se opor ao capitalismo como uma expressão de contrapoder estão presentes algumas características:

- Ser “uno” pelo múltiplo;
- Ser emergente, apresentando o outro possível;
- Priorizar a Governança como abertura;
- Legitimar-se em um processo espiral;
- Manter-se como poder constituinte;
- Operar em rede de redes (rizomas);
- Não primar por uma identidade coletiva “única”, ao contrário, constituir-se a partir de redes de afetos;
- Possuir uma inteligência de enxame.

Neste sentido, é necessário operar por dentro da própria lógica do capitalismo cognitivo, enxergando as possíveis rotas de fuga. Como exemplos de forças potentes, temos vários movimentos, não isentos de contradições, mas que emergem a partir de outros paradigmas, que sinalizam para novas formas de atuar e se constituir: Occupy Wall Street, Movimento 15-M, Jornadas de Junho, Movimento Secundarista deste ano, etc., bem como as microações: hospedagem solidária, carona solidária, campanhas de boicote, atos do cotidiano como atos políticos, ação reflexiva, etc. É preciso continuar tateando, buscando e acreditando, apesar do pessimismo, que muita coisa precisa ser superada para que o novo venha como grata surpresa e não tragédia anunciada.

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