Secas e enchentes: dois sintomas da perda de 70% das áreas úmidas na Bacia do Rio dos Sinos. Entrevista especial com Rafael Gomes de Moura

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Por: Patricia Fachin | 31 Agosto 2016

Nos últimos 30 anos, a Bacia hidrográfica do Rio dos Sinos perdeu 70% dos seus banhados, e os impactos dessa redução de áreas úmidas são visíveis nos municípios da região, especialmente nos períodos de seca e enchentes, diz Rafael Gomes de Moura em entrevista por telefone à IHU On-Line. “No verão passado, por exemplo, Novo Hamburgo e São Leopoldo tiveram dificuldades muito grandes no tratamento da água justamente por conta do baixo nível do rio e da falta de áreas úmidas na Bacia. Já nos períodos de cheias, como ocorreu neste ano e no ano passado, acontece o processo inverso, de inundação nas cidades”, relata.

A diminuição dos banhados também afeta a flora e a fauna no entorno da Bacia, especialmente a reprodução dos peixes. “As áreas de banhado servem como criadouros de peixes, além de serem um habitat que concentra uma biodiversidade biológica muito grande. (...) À medida que se reduzem essas áreas de alimentação, se reduz também o habitat de alimentação e reprodução dos peixes. Não vemos o impacto disso de modo mais visível porque na Bacia do Rio dos Sinos não existem tantos pescadores, mas quem pesquisa a área de peixes percebe que houve uma redução de peixes na Bacia”, afirma.

De acordo com ele, o processo de redução das áreas úmidas da Bacia está em curso desde a década de 80, quando houve a expansão das cidades na região, e os banhados que já “foram suprimidos não serão recuperados”. O que se pode fazer, frisa, é preservar os 30% de áreas úmidas existentes através dos Planos Diretores das Cidades.

Rafael Gomes de Moura é graduado em Biologia pela Unisinos, onde também cursou o doutorado na mesma área, com a tese intitulada Análise espacial da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como você chegou à conclusão de que 70% dos banhados da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos foram perdidos?

Rafael Gomes de Moura – Eu fiz doutorado em Biologia na Unisinos, com a orientação do professor Uwe Schulz. Minha pesquisa consistiu em fazer um mapeamento da distribuição dos peixes na Bacia do Rio dos Sinos, e para isso precisei investigar qual era a situação dos banhados e da mata ciliar dentro da Bacia. O mapeamento dos banhados foi feito através da análise de imagens históricas da Bacia, disponibilizadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas EspaciaisINPE.

Então, analisei imagens das décadas de 1970 e 1980, e consegui classificar os banhados da Bacia a partir da análise das imagens do ano de 1985. Posteriormente, para identificar quais foram os anos em que houve maior impacto nos banhados, fiz uma classificação em períodos de 10 em 10 anos, analisando, portanto, as imagens dos anos de 1995 e 2005. O resultado desse mapeamento nos surpreendeu bastante.

IHU On-Line - Quais são as implicações ambientais dessa conclusão para a Bacia do Rio dos Sinos?

Rafael Gomes de Moura – A perda das áreas de banhados acarreta outros impactos, alguns dos quais a Bacia já vem sofrendo atualmente. As áreas de banhado servem como criadouros de peixes, além de serem um habitat que concentra uma biodiversidade biológica muito grande. Nessas áreas se desenvolve uma cadeia alimentar que fornece nutrientes para todo o sistema biológico do rio ao longo da Bacia; além disso, os banhados servem como filtros de toxinas e contribuem com os ciclos biológicos dentro de um sistema aquático.

Assim, a perda dessas áreas, além de causar um impacto em toda a biodiversidade da Bacia, causa um impacto direto principalmente na qualidade da água, pois em rios sem banhados a qualidade da água é muito ruim. Entre os principais problemas que já se evidencia na Bacia do Rio dos Sinos, destaca-se a baixa reprodução dos peixes e problemas de oxigenação da água. Isso porque no verão a água esquenta muito e o nível de oxigênio diminui, provocando a mortandade dos peixes. Esse é um sintoma claro de um rio sem banhado.

As áreas de banhados fazem o papel de uma “esponja”, concentrando e acumulando água. Portanto, sem essas áreas, os rios ficam mais retilíneos. Hoje, a água produzida na Bacia do Rio dos Sinos é escoada diretamente para o Guaíba, ou seja, não se acumula mais água na Bacia, porque as áreas de infiltração, que são as áreas de várzea, viraram cidades. O problema disso é que nas épocas de seca não se tem água filtrada na Bacia e, portanto, quando a água do rio baixa, as regiões de agricultura sofrem com a falta de água e, com isso, a produção agrícola diminui. Além disso, a qualidade da água fica muito ruim. No verão passado, por exemplo, Novo Hamburgo e São Leopoldo tiveram dificuldades muito grandes no tratamento da água justamente por conta do baixo nível do rio e da falta de áreas úmidas na Bacia.

Já nos períodos de cheias, como ocorreu neste ano e no ano passado, se dá o processo inverso, de inundação das cidades. Isso acontece porque o excesso de água deixa de ir para as áreas de várzea - porque elas não existem mais - e passa a ir para as cidades. Antes, as áreas de banhados concentravam esse excesso de água.

IHU On-Line - Em que regiões da Bacia houve mais perda de banhados e, de outro lado, em que regiões os banhados ainda estão conservados?

Rafael Gomes de Moura – É possível verificar quais são essas áreas através da análise das imagens de satélite do Google, mas eu não fiz diretamente esse estudo. Mas em geral os municípios de Novo Hamburgo, São Leopoldo, Esteio e Sapucaia do Sul são os que mais cresceram nas regiões de várzea. Além desses, os municípios de Parobé e Igrejinha também carecem de áreas de banhados, porque cresceram muito.


Mapa disponível no portal do projeto Comitêsinos

IHU On-Line - De que modo a redução dos banhados tem impactado a reprodução dos peixes na Bacia do Rio dos Sinos?

Rafael Gomes de Moura – O impacto se dá principalmente na reprodução dos peixes. Essas áreas de banhado, além de servirem como área de reprodução, produzem macroinvertebrados — insetos aquáticos muito grandes —, os quais se reproduzem por conta da quantidade de plantas que servem de alimentos para eles. Então, à medida que se reduzem essas áreas de alimentação, se reduz também o habitat de alimentação e reprodução dos peixes. Não vemos o impacto disso de modo mais visível porque na Bacia do Rio dos Sinos não existem tantos pescadores, mas quem pesquisa a área de peixes percebe que houve uma redução de peixes na Bacia.

IHU On-Line - Diante desse diagnóstico, o que é possível fazer?

Rafael Gomes de Moura – Os banhados que foram suprimidos não serão recuperados porque, nas áreas onde havia esses banhados, hoje existem cidades. Houve um processo de aterro nessas áreas, o fluxo do rio já foi alterado e a dinâmica topográfica também. Portanto, o processo é irreversível. O que se pode fazer hoje — e é isso que o Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos - Comitesinos está fazendo — é conservar os aproximadamente 30% de áreas úmidas que ainda temos dentro da Bacia do Rio dos Sinos.

IHU On-Line – É possível conciliar a preservação dessas áreas com a contínua expansão das cidades?

Rafael Gomes de Moura – Acredito que há uma forma de conservar essas áreas úmidas através dos Planos Diretores dos Municípios, os quais podem ser mais focados para garantir essa conservação. Se nos anos 80 tivéssemos Planos Diretores que informassem e delimitassem as regiões de banhado, teríamos tido condições de preservar essas áreas e certamente hoje teríamos uma gestão ambiental da Bacia completamente diferente.

Precisamos pensar daqui para frente, porque os banhados são fundamentais para preservar a água da Bacia. A Bacia do Rio dos Sinos é uma área completamente atípica em relação a outras bacias hidrográficas, pois ela ainda produz água nas suas nascentes, que estão na região da serra.

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