"O perdão antecede o pecado". A superação de uma visão moralista e chantagista. Entrevista especial com James Alison

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09 Setembro 2012

A narrativa de “chantagem emocional” é predominante quando pensamos no pecado original. Contudo, a doutrina central da fé diz que somos perdoados antes mesmo de sermos criados, afirma o teólogo inglês.

Pensar na doutrina do pecado original “sem tomar parte da visão moralista e chantagista do Evangelho”. Assim o teólogo James Alison nos aconselha a refletirmos a respeito de um dos temas do Cristianismo. Para ele, é preciso compreender a doutrina do pecado original numa visão retrospectiva a partir da ressurreição. “Nesse sentido, a noção de uma visão retrospectiva é muito importante, pois ela nos exime de considerar tudo de maneira moralista, como se Jesus tivesse vindo para pagar uma dívida. Ao invés disso, Ele nos traz uma visão mais primigênia do Novo Testamento, que é a irrupção em nosso meio da plenitude da criação, o que São Paulo chama de nova criação”, disse na entrevista concedida por telefone à IHU On-Line.

Em seu ponto de vista, a doutrina do pecado original é “a instalação da possibilidade de uma vivência autocrítica”. E completa: “A doutrina do pecado original é secundária à presença de Jesus Cristo. Porque se aquilo que Jesus Cristo nos traz é a possibilidade de viver como se a morte não fosse, é precisamente só a partir dele que tem qualquer sentido falar de um passado quando as pessoas viviam presas ao pecado original”. Alison enfatiza que “o perdão antecede o pecado”, e que “só ao aprendermos e recebermos o perdão que chegamos a ser capazes de nos arrepender, e por isso de ascender à criação”.

 

James Alison é teólogo católico, sacerdote e escritor. Com estudos em Oxford, é doutor pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, de Belo Horizonte. Atualmente é Fellow, da Fundação Imitatio, instituição que apoia a divulgação da teoria mimética. Há mais de 15 anos é um dos raros padres e teólogos católicos assumidamente gays. Seus sete livros já foram traduzidos para o espanhol, italiano, francês, holandês e russo. Em português podem ser lidos Uma fé além do ressentimento: fragmentos católicos numa chave gay (São Paulo: É Realizações, 2010) e O pecado original à luz da ressurreição (São Paulo: É Realizações, 2011). Seu trabalho mais recente é A vítima que perdoa – uma introdução para a fe cristá para adultos em doze sessões (www.forgivingvictim.com). James Alison reside em São Paulo, onde está iniciando uma pastoral católica gay e viaja pelo mundo dando conferências, palestras e retiros. Textos seus podem ser encontrados no site www.jamesalison.co.uk. Mais detalhes sobre a Fundação Imitatio encontram-se disponíveis no link endereço www.imitatio.org.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em entrevista à IHU On-Line sobre Girard , você menciona que a doutrina do pecado original é a visão retrospectiva a partir da ressurreição. Poderia dar-nos mais detalhes sobre o que isso significa?

James Alison - As pessoas tendem a imaginar a visão cristã como se fosse uma narração de criação seguida de queda, salvação e, ao final desse processo, o que deveríamos fazer é viver uma vida moral. Tudo acontece entre bastidores e deixa-nos com a necessidade de bom comportamento. Isso não é esperançoso e não há nada de graça no sentido teológico. Esta é simplesmente uma maneira de controlar as pessoas e obriga-las a comportarem-se segundo regras que, seriam, segundo essa visão, ditadas por Deus há muito tempo, e este próprio pagou o preço pelas “travessuras” das pessoas. Agora que Ele pagou o preço, como uma espécie de chantagem emocional, devemos nos comportar. As pessoas tendem a pensar isso. Mas isso não foi originalmente a compreensão do Evangelho.

É importante resgatar a doutrina do pecado original sem tomar parte da visão moralista e chantagista do Evangelho. Isso, desde os primórdios, percebe-se em São Paulo, o Apóstolo, uma vez que ele considera o primeiro Adão somente à luz de Cristo. Ele considera Adão cronologicamente primeiro somente como aquele que prefigurava o Adão definitivo, que é Cristo. Para Paulo, a criação mesma aconteceu em nosso meio e utiliza a palavra Adão apenas para se referir àquilo que é universal, aquilo que Jesus estava trazendo. Então, São Paulo não está preocupado com que as pessoas façam estudos paleontológicos para saber quem era “o tal de Adão” e o que foi que ele fez. Para São Paulo, o assunto de quem era e o que ele fez é totalmente secundário, se é que é de qualquer importância, porque no mundo Antigo não se pensava daquele jeito.

A questão interessante para ele é aquilo que fez Jesus ao inaugurar a plenitude da criação e, evidentemente, mostra que aquilo que nós estávamos vivendo até lá era, de alguma maneira, uma vivência ainda fútil, não chegada à sua plenitude, e que isso diz respeito a toda a humanidade, desde que começou. Para se referir a toda humanidade desde que começou, utiliza a palavra Adão. O central na visão é entender que já chegaram os inícios da plenitude da criação, que é aquilo que traz Jesus. Então, a vivência fútil é olhar para trás, é como se dissessem “e pensar que nós achávamos isso normal... Agora vemos que aquilo era um estado de ser, uma condição muito menor daquilo para o que deveríamos aspirar”. Então, podemos começar a viver como se a morte não nos dominasse. A partir disso, podemos ousar a criar coisas sem medo da morte, porque ela não tem direito de dominar nossa vida. Isso é o que foi trazido por Jesus mostrando a abundância de vida de Deus, que não tem nada a ver com a morte. Para isso que fomos criados.

Nesse sentido, a noção de uma visão retrospectiva é muito importante, pois ela nos exime de considerar tudo de maneira moralista, como se Jesus tivesse vindo para pagar uma dívida. Ao invés disso, Ele nos traz uma visão mais primigênia do Novo Testamento, que é a irrupção em nosso meio da plenitude da criação, o que São Paulo chama de nova criação.

IHU On-Line - Qual é o sentido e a validade da doutrina do pecado original em nossos dias?

James Alison - Esta é uma doutrina muito sutil. Há duas maneiras de se esquivar daquilo que a doutrina nos mostra e sugere. A primeira é considerar que somos seres, por natureza, violentos, assassinos e que só chegamos a sermos humanos devido a nossa maior capacidade de matar do que os outros bichos. Há maneiras de entender a paleontologia humana que demonstra isso. Qual é diferença entre nós e nossos seres mais próximos, como os símios? É que somos mais capazes de matar. É lamentável dizê-lo, mas é verdade. Essas são questões que os paleontólogos vão estudando na medida em que descobrem mais ossos e evidências arqueológicas. A noção de que somos, à diferença de outros animais, melhores “matadores”, não é totalmente desprezível. Essa ideia serve para a pessoa que quer evidências de nossa natureza violenta.

O segundo ponto de vista é que os seres humanos são basicamente bons e que nos agrupamos por acordos razoáveis e, basicamente, somos amáveis, e só por incidências fora de nós, de clima, invasão, etc, é que nos tornamos violentos e perigosos. Assim, temos os pontos de vista do ser humano violento por natureza, e o ser humano como essencialmente bom. O problema é que nenhum dos pontos de vista parece corresponder à realidade. É aqui onde a doutrina do pecado original é interessante, pois é sutil, sugerindo que o ser humano não é intrinsecamente violento, mesmo que se dê o caso de que desde nossos primórdios assim tenhamos sido. Em princípio, somente, somos capazes de aprender a conviver de maneira não violenta em que construímos nossas mútuas edificações. Porém, em todos nossos casos, isso não é uma coisa que nos vem facilmente. Começamos “pré-bagunçados”, mas isso não é a mesma coisa que sermos intrinsecamente violentos. Se o fôssemos, só seríamos isso. Se somos intrinsecamente bons, então a “culpa” é sempre dos outros. O difícil, para nós, é começando como “pré bagunçados” aprendermos que sermos bons passa sempre pela autocrítica, o que é muito difícil de se fazer. Então, a doutrina do pecado original é, ainda, a instalação da possibilidade de uma vivência autocrítica. Normalmente somos bastante binários no pensamento, então sutilezas como essa são mais difíceis de pensar.

IHU On-Line - Por que a partir do pecado original Adão e Eva, e portanto todas as pessoas posteriormente, romperam sua relação com Deus? Como compreender esse paradoxo se as pessoas se extinguiriam caso não tivesse pecado?

James Alison – Você volta ao âmago da questão. Somos intrinsecamente ou acidentalmente violentos? Retornemos ao início da entrevista. Falamos, nesse caso, de uma visão unicamente retrospectiva, e por definição não podemos ter nenhum acesso imediato àquilo que foi o primeiro ato humano. Somos o produto desse ato. Assim, só podemos pensar a partir de um ato de compreensão contemporânea que iremos descrever aquilo que nos fez ser aquilo que somos. Não temos nenhuma capacidade de nos colocarmos fora de nós mesmos. Como se houvesse uma câmara de circuito fechado  e os macacos, os pré-humanos, tivessem sido pegos “no ato”. Mas isso é impossível, porque somos o fruto desse processo de hominização, e só a partir de dentro da capacidade moderna de olhar para trás é que podemos fazê-lo.

Quando se fala do ato primordial que teria sido uma separação de Deus, isso é muito complicado. Aquela maneira de pensar imagina a possibilidade de uma história linear na qual todas as pessoas eram humanas e já era possível pecar e havia uma possibilidade de olhar “de fora”. Mas não é o caso. Para nós, é difícil imaginar o que seria um cenário original no qual como parte do processo de hominização nossos antepassados alcançaram a humanidade. No momento em que alcançaram a humanidade, o fizeram de forma “torta”, porque é disso que se trata: de manter ao mesmo tempo a intrínseca bondade daquilo que nos faz seres humanos, e a constante presença em nosso meio da violência como coisa nossa.

Penso que entre as possíveis maneiras de manter juntas essas duas coisas, o pensamento de Girard nos dá recursos para uma interpretação interessante quanto à questão do desejo, pois quando falamos de seres humanos se trata da possibilidade do desejo.

IHU On-Line - “Não somos seres fadados à morte, mas à vida”, você afirmou nessa entrevista sobre Girard. Nesse sentido, como a hipótese do desejo mimético de Girard nos ajuda a compreender e explicar esse dogma?

James Alison - Estamos falando daquilo que nos faz seres humanos e diferentes dos nossos primos mais próximos entre os outros símios e entre os outros pré-humanos, pois pelo visto havia vários tipos de pré-humanos, que não eram os homo sapiens, e que nunca chegaram a ser tão eficazes como nós na sobrevivência. Como estamos falando de hominídeos diversos, que não somente o sapiens, aquilo que parece ser interessante é o que produziu e permitiu que ao longo de milênios a capacidade imitativa deste tipo de macaco crescesse de forma a permitir que aquilo que fosse instinto nos outros chegasse a ser mais do que instinto, e passasse a ser desejo, ou seja, quando começa a haver uma vivência coletiva, uma inteligência coletiva que agita os membros do grupo a partir de um centro que eles podem identificar.

Trata-se do começo de uma cultura propriamente humana, e isso é um momento que todo paleontólogo ou arqueólogo quer descrever num processo de algum modo. Meu assunto, contudo, é o desenvolvimento do desejo, da capacidade simbólica e da cultura da violência, porque é a partir do momento em que a morte tem sentido que as pessoas começam a sepultar.

Só quero indicar que aquilo que nos oferece Girard é um modelo para entender o relacionamento do desejo, a chegada da cultura e da violência. É um modelo que entende que se trata não só de um ato específico de um momento X, que foi um pouco aquilo que pensou Freud na explicação que deu para a hominização. Contudo, é algo bem mais extenso no tempo que chegou à capacidade dos seres humanos se unirem em contraste com o outro tido como ruim. Trata-se do mecanismo vitimário, do bode expiatório. Essa é a hipótese girardiana, que vejo como muito rica porque nos permite acompanhar os estudos dos paleontólogos e arqueólogos para entender melhor o que teria sido o processo pelo qual o homo sapiens emergiu.
IHU On-Line - Qual é a importância de Jesus Cristo e do batismo para a Igreja Católica como figuras que eliminam o pecado original?
James Alison - A doutrina do pecado original é secundária à presença de Jesus Cristo. Se não houvesse a presença de Jesus Cristo não haveria a presença da doutrina do pecado original. Porque se aquilo que Jesus Cristo nos traz é a possibilidade de viver como se a morte não fosse, é precisamente só a partir dele que tem qualquer sentido falar de um passado quando as pessoas viviam presas ao pecado original. Então, qual é o sentido do batismo? É a introdução desde já neste começo de vivência da vida eterna a partir de agora. E precisamente o rito consiste em certo passar de antemão por uma espécie de pré-morte. Até o Apóstolo Paulo se refere ao batismo como “aqueles que foram batizados na morte de Cristo”. A noção é antecipar a morte sendo batizado para poder viver dali para frente como se a morte não fosse. Você começa a viver a vida eterna a partir de agora. Esse é o sentido do batismo. Todo sentido da vida da igreja, da liturgia depende disso: da presença sacramental dos sinais da eternidade em nosso meio.

IHU On-Line - Em que aspectos essa doutrina não é o “complô cínico de um clero ávido de poder, nem o absurdo de um pensamento balbuciante”?

James Alison - Realmente há pessoas que usam o pecado original como forma de justificar qualquer maldade. Por um lado, dizer para as pessoas que elas não podem ser boas porque o pecado original sempre irá atrapalha-las é algo errado. Se têm pessoas que o fazem dessa forma, não se trata de doutrina cristã. A doutrina do pecado original tem tudo a ver com a presença do perdão como já presente em nosso meio. O perdão antecede o pecado. Tipicamente pensamos na narrativa da chantagem emocional. Por exemplo: alguém se comporta mal e por isso precisa ser perdoado. Para ser perdoado é preciso pedi-lo, e para ser atendido é necessário estar muito arrependido. O mau uso do pecado original é um pretexto para que alguém fique insistindo em aterrorizar os outros pelos pecados que fez, sugerindo que se a pessoa consegue demonstrar arrependimento suficiente pelos pecados que cometeu será perdoada.

Esse é um modelo atroz. Qualquer pai ou mãe que valham a pena sabem que nenhum filho humano deveria ser tratado com uma mentalidade assim. Isso é pura chantagem. Conseguimos ser melhores que isso.

O interessante da doutrina é que ela sugere o contrário: que o perdão chegou antes que conhecêssemos o tamanho do nosso problema, e que só a partir do dom é que nós nos conhecemos perdoados, amados, recebidos tal e qual somos que somos capazes de sermos desatados e de olhar para trás. O perdão antecede a nossa criação, o que é contra intuitivo.

Curiosamente, a doutrina central da fé é que somos perdoados antes de sermos criados, e que só ao aprendermos e recebermos o perdão que chegamos a ser capazes de nos arrepender, e por isso de ascender à criação. Porque Aquele que nos criou não quer nos humilhar, mas abrir-nos para mais. O problema com o pecado é a diminuição do nosso ser. E quem nos ama quer que sejamos mais, e que não fiquemos fechados em nós mesmos. O perdão não provem daquele que está de fora de nós olhando e falando com olhar orgulhoso. Ao contrário, provem dAquele que nos olha com igualdade de coração e quer apaixonadamente que cheguemos a ser bem mais.

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