Machosfera e cultura pop: da agressividade algorítmica ao desafio de construir antídotos aos discursos extremistas

Instituto Humanitas Unisinos promove palestra sobre as disputas da machosfera na cultura pop contemporânea nesta quinta-feira, 30-07-2026, às 17h30min

Foto: Wil Stewart | Unsplash

30 Julho 2026

“Estamos cada vez mais dentro da machosfera. E sair dessa depende de nós.” Essa é a mensagem central para a qual o documentarista britânico Louis Theroux chamou a atenção na produção audiovisual Louis Theroux: Por dentro da machosfera, lançado em março deste ano na Netflix. O documentário apresenta a visão de mundo dos coaches da masculinidade e do movimento red pill, que se define como “antídoto necessário e contraponto ao feminismo”. 

A machosfera é uma rede de comunidades online que tem despertado interesse por publicações misóginas. Os conteúdos publicados fomentam a hostilidade e a discriminação contra as mulheres ao mesmo tempo que defendem a construção da figura do homem e da mulher ideais. Apesar de as publicações reforçarem visões preconceituosas contra o público feminino, pesquisadores alertam para os riscos na forma como os meninos constroem suas percepções sobre gênero e relacionamentos no ambiente digital. 

Segundo a jornalista e escritora Nina Lemos, “não são só as meninas que estão em risco diante da disseminação dos conteúdos de red pills e similares. Os meninos também são prejudicados e correm riscos. Combater a proliferação de conteúdos da machosfera é, portanto, dever de todos nós. Só quem lucra com isso são os influenciadores e as big techs onde eles exibem esse tipo de conteúdo. O resto da sociedade só perde”. 

A cultura pop disputada pela machosfera 

A machosfera não está restrita a comunidades online pouco conhecidas. Nas redes sociais, cresce o número de influenciadores digitais que se transformam em novas referências para jovens e passam a exercer influência sobre seus comportamentos e visões de mundo. O mesmo fenômeno tem sido observado na cultura pop

Christian Gonzatti, docente dos cursos de Comunicação da Unisinos, analisa como a cultura pop contemporânea está sendo atravessada e disputada pelos discursos oriundos da machosfera. Em sua tese de doutorado, defendida em 2022 no PPG em Comunicação da Unisinos, o pesquisador analisou como grupos masculinistas se apropriam de personagens, metáforas e comunidades nerds e gamers para sustentar a fantasia de que esse universo pertenceria aos homens brancos, cisgêneros e heterossexuais e estaria sendo invadido por mulheres, feminismos e pessoas LGBTQIA+. “Não se trata de afirmar que a cultura nerd, como um todo, é conservadora, porque ela é plural”, afirma, mas mostrar como “está em disputa”. 

Nesta quinta-feira, 30-07-2026, Gonzatti participa do IHU ideias, evento promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU para debater temas de fronteira. Na palestra intitulada “Heróis e machosfera: quem pode aparecer?”, o pesquisador vai refletir sobre cultura pop, apagamento digital LGBTQIA+ e masculinidades. Ele explicará como se constroem os ciberacontecimentos na cultura pop, de que forma se desenvolvem as disputas de significados em torno de gênero e sexualidade na cultura nerd e como as plataformas digitais hospedam essa disputa e ajudam a organizá-la. “Suas lógicas de recomendação, engajamento e moderação podem favorecer a circulação do discurso de ódio e percursos de radicalização e, ao mesmo tempo, reduzir a visibilidade de conteúdos LGBTQIA+, produzindo discriminação e apagamento algorítmico”, adiantou ao IHU. O evento será transmitido ao vivo na página eletrônica do IHU, nas redes sociais e no YouTube às 17h30min. 

Na palestra, Gonzatti também retomará alguns aspectos da sua tese de doutorado e apresentará as pesquisas mais recentes sobre como as redes da cultura nerd estão se articulando politicamente à machosfera. A pergunta central que norteará a exposição é: “Quem pode aparecer nas histórias, nas plataformas e na vida pública, e quais forças tentam controlar essa aparição?”. 

Cultura pop: da naturalização do patriarcado ao combate da machosfera

No mês passado, Christian Gonzatti comentou a relação entre cultura pop e machosfera, em entrevista concedida ao IHU. Nas produções culturais clássicas, exemplificou, o patriarcado é naturalizado de forma silenciosa por meio do “masculino que age” e da “mulher como prêmio ou objeto a ser conquistado”. Em contrapartida, séries de animação são um contraponto aos discursos presentes na machosfera. “Steven Universo”, criada por Rebecca Sugar, resume o pesquisador, “coloca no centro um protagonista masculino cuja força é o cuidado, a vulnerabilidade e a negociação emocional, o oposto exato da masculinidade de dominação e ressentimento vendida pela manosfera”. A “Hora de Aventura”, uma criação do animador norte-americano Pendleton Ward, sublinha, “normaliza afetos sem alarde”. 

Na avaliação de Gonzatti, essas produções culturais são um antídoto aos extremismos propagados nos ambientes digitais. “A machosfera oferece a meninos muito jovens uma masculinidade de escassez, ressentida e hierárquica. Essas animações oferecem, cedo e por via afetiva, um repertório alternativo, no qual sentir, cuidar, chorar e errar fazem parte de ser homem e de ser pessoa. Não é doutrinação, e sim ampliação do leque do possível antes que o algoritmo o estreite. O desafio é que a machosfera, hoje, é algoritmicamente agressiva e alcança crianças muito cedo”, adverte.

Segundo ele, a cultura pop tem o potencial de colaborar com o desenvolvimento das crianças. Ao oferecer um vocabulário emocional para aqueles que estão em formação, afirma, o universo do entretenimento “exercita empatia, dá repertório simbólico, senso de pertencimento e primeiras noções de justiça e de diversidade”. Na avaliação do pesquisador, a cultura pop não pode ser reduzida um “entretenimento vazio”. Ao contrário, explica, “ela funciona como pedagogia cultural” ao cumprir a função de mediadora na educação. “As crianças nutrem coisas boas a partir da cultura pop quando há um adulto que conversa, contextualiza e dá sentido, e quando elas têm acesso a uma diversidade de narrativas, em vez de serem entregues a um funil algorítmico que só devolve mais do mesmo”, conclui. A entrevista completa está disponível aqui. 

Quem é Christian Gonzatti?

Christian Gonzatti (Foto: Arquivo pessoal)

Graduado em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda, pela Unisinos, e doutor e mestre em Ciências da Comunicação, com ênfase em Processos Midiáticos, pela mesma instituição. Leciona nos cursos de Comunicação da universidade. É membro do Laboratório de Investigação do Ciberacontecimento (LIC) e do Instituto de Cultura Digital (ICD), da Unisinos. É autor de "Pode um LGBTQIA+ Ser Super-Herói no Brasil?" (DEVIRES, 2022) e criador das histórias em quadrinhos do super-herói Boy Magya. 

Programação

Palestra online: “Heróis e machosfera: quem pode aparecer?”
Palestrante: Christian Gonzatti.
Data: 30-07-2026.
Horário: 17h30min.
Transmissão: Página eletrônica do IHU, redes sociais e YouTube. 
Certificação: A atividade é gratuita. Será fornecido certificado a quem matricular-se em cada conferência e, no dia do evento, preencher o formulário de presença disponibilizado somente durante a transmissão. O evento ficará gravado e pode ser acessado a qualquer momento no Canal do IHU no YouTube, IHU Comunica. A programação do ciclo de eventos IHU ideias está disponível aqui. 

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