Jesus ressuscitou depois de três dias, para aquele judeu foram necessários 2 mil anos. Artigo de Enzo Bianchi

(Foto: Didgeman | Pixabay)

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27 Junho 2023

"Ágnes Heller identifica uma última circunstância que permite a ressurreição do Jesus judeu depois de dois mil anos, o nascimento do ecumenismo, a possibilidade do reconhecimento mútuo entre cristianismo e judaísmo, do diálogo, da busca do que une, da convivência pacífica. Do texto de Heller emerge fortemente como a redescoberta do Jesus judeu transforma o conceito filosófico de verdade totalizante e caminha para um processo ecumênico de conciliação e enriquecimento mútuo entre judaísmo e cristianismo, bem como entre as outras religiões", escreve Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Stampa - Tuttolibri, 24-06-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

“O Jesus cristão ressuscitou no terceiro dia. Demorou dois mil anos para fazer ressuscitar o Jesus judeu." Essa é a ideia principal do ensaio de Ágnes Heller, Gesù l’ebreo (Jesus o judeu, em tradução livre), editado pela Castelvecchi, publicado em húngaro em 2000. Segundo Ágnes Heller, foram necessários dois mil anos e uma quantidade imensurável de ódio de ambos os lados antes que cristãos e judeus começassem a recordar o fato de que Jesus era na realidade um judeu: “Essa consciência caiu no esquecimento ao longo de dois mil anos: não no sentido de que se tenha esquecido que Jesus, como costuma se dizer hoje, era ‘de descendência judaica’, mas se esqueceu que era um bom judeu. Não ocorreu a ninguém que Jesus não era cristão – por que ele deveria ser? – que nem mesmo conhecia o cristianismo".

O novo livro de Ágnes Heller: Gesù l’ebreo (Foto: Divulgação)

Graças à escrita intensa e leve da grande filósofa húngara de origem judaica confrontam-se e enfrentam-se, identificam-se e distinguem-se o Jesus judeu e o Jesus cristão: o Jesus Redentor que ressuscitou ao terceiro dia e o Rabi de Nazaré que vive como judeu entre os judeus e que "não pretendia fundar uma nova religião". O Jesus ressuscitado no terceiro dia pertence à história da salvação, o Jesus ressuscitado depois de dois mil anos pertence à história. Sim, a história da salvação é atemporal, flui na perspectiva da eternidade, ao contrário, a história é temporal, portanto a ressurreição do Jesus judeu não apaga o Jesus da história da salvação cristã: “A ressurreição do Jesus judeu depois de dois mil anos é uma questão que interessa à história, a ressurreição de Cristo no terceiro dia diz respeito à história da salvação. História e história da salvação não estão em conflito nem se contradizem, já que fluem em níveis diferentes”.

Heller não pesquisa as razões, mas discerne as circunstâncias e as condições da ressurreição de Jesus judaico e ao mesmo tempo o grande significado e a evidente atualidade da questão que implica diretamente a relação entre cristãos e judeus. Mas para nos aproximarmos do significado da ressurreição do Jesus judeu é preciso considerar que tanto no caso do Judaísmo como do Cristianismo, antes de tudo, falar do esquecimento. O judaísmo tinha que esquecer o Jesus judeu, que os apóstolos eram judeus, "tinha-se que esquecer que no princípio a religião de Jesus era uma variedade da religião judaica, ou seja, que tanto Jesus de Nazaré quanto o cristianismo judaico tinham que ser apagados da história do judaísmo". Jesus de Nazaré “é aquele de quem os judeus não devem se lembrar, que aparece diante deles como o Deus dos inimigos odiados, como aquele em cujo nome foram assassinados".

Por seu lado, o cristianismo tentou esquecer o Jesus judeu criando um mito “segundo o qual com a aliança do Novo Testamento dissolvia-se aquela do Antigo, Deus se afastou do judaísmo e o povo escolhido, de agora em diante, teria sido a Igreja Católica no lugar da cega sinagoga: ao fazê-lo, o judaísmo tornou-se pior do que o paganismo".

Do esquecimento à memória, já que nenhuma descoberta particular contribuiu para a transformação da imagem de Jesus, a figura do Jesus judeu ressurge a partir da leitura dos Evangelhos Sinópticos que para Heller são interpretados de maneira nova pelos próprios cristãos: “A ressurreição de Jesus judeu baseia-se quase exclusivamente, e às vezes inteiramente, nos textos sagrados da história da salvação que eram conhecidas nas comunidades cristãs e que agora começam a ser lidos de maneira diferente".

Mas a descoberta do Jesus judeu não se esgota unicamente com o que descobriram nestas últimas décadas os cristãos, ou seja, que “os ensinamentos de Jesus não infringiam a lei judaica, e Jesus não era o fundador de uma nova religião, o Cristianismo". Também os judeus realizaram um caminho, reconhecendo que “na figura de Jesus Israel tinha um novo profeta, cuja mensagem – que seus ancestrais não ouviram – de alguma forma se espalhou por todo o mundo. Foi incompreendida, como todos os profetas são incompreendidos, foi estropiada até quase torná-la irreconhecível, mas apenas quase: hoje temos a possibilidade de compreender a sua mensagem original”.

Heller cita uma passagem de Géza Vermes, segundo o qual “Os primeiros passos, ainda incertos, já foram dados nessa direção, para recolocar Jesus na comunidade do antigo hassidismo e cumprir assim a profecia de Martin Buber: "Ele tem um lugar de destaque na história da fé de Israel".

A filósofa húngara, Ágnes Heller, falecida em 2019 (Foto: Reprodução | Wikimedia Commons)

Para a filósofa húngara, Auschwitz e Jerusalém encarnam a devastação, representam dois símbolos religiosos de situações radicalmente opostas. “Auschwitz não é apenas o um nome de lugar, mas é o oposto de Jerusalém”, de modo que a catástrofe irracional de Auschwitz tem algo a ver com a ressurreição de Jesus. Se Jesus chorou a destruição de Jerusalém, em Auschwitz o povo judeu devia ser exterminado e ali os cristãos se tornaram Caim para seu povo irmão, o povo do inocente Abel, o Abel coletivo: “Alguns fiéis cristãos começaram a sentir que em Auschwitz Jesus era simbolicamente colocado de volta na cruz e morto (…) o cristianismo deve se lembrar de seus pecados em relação ao judaísmo e esquecer as interpretações difamatórias que o antijudaísmo transmitiu de geração em geração. Não há outra escolha a não ser ressuscitar o Jesus judeu”.

Ágnes Heller identifica uma última circunstância que permite a ressurreição do Jesus judeu depois de dois mil anos, o nascimento do ecumenismo, a possibilidade do reconhecimento mútuo entre cristianismo e judaísmo, do diálogo, da busca do que une, da convivência pacífica. Do texto de Heller emerge fortemente como a redescoberta do Jesus judeu transforma o conceito filosófico de verdade totalizante e caminha para um processo ecumênico de conciliação e enriquecimento mútuo entre judaísmo e cristianismo, bem como entre as outras religiões. Mas Heller deve ser lembrada que, embora seja certamente verdade que ao lado dos cristãos existe um irmão, o povo de Deus, Israel "a quem pertencem as promessas, as bênçãos, a glória, as alianças... e dos quais é Cristo" (Rm 9,4 ss.), continua igualmente verdadeiro o que não podemos negar: Cristo Jesus une Israel e a Igreja e ao mesmo tempo separa Israel e a Igreja. Ele nos une como judeu, filho de judeus, crente judeu, profeta em obras e palavras; mas nos separa como Messias, filho de Deus, único mediador da nossa salvação. Portanto, por enquanto, não há uma única missão de Israel e da Igreja para com o mundo: permanecem duas e diferentes, esperando que se cumpram os "tempos dos pagãos", os tempos da evangelização, e que Deus leve à unidade o que por causa do pecado foi dividido.

Ágnes Heller sem dúvida deve ter conhecido a famosa afirmação com que o rabino reformado alemão Schalom Ben Chorin (1913-1999) resumiu a relação entre judeus e cristãos: "A fé de Jesus nos une, a fé em Jesus nos divide". Ressuscitado depois de dois mil anos, o Jesus judeu ainda une e divide.

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