50 anos de teologias da libertação memória, revisão, perspectivas e desafios

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25 Junho 2022

 

"Os diversos textos que compõe esta unidade assume a tarefa de apresentar um balanço crítico-autocrítico da caminhada da Teologia da Libertação, com a devida tomada de distância necessária para revisões-ressignificações-correções, bem como para o discernimento de novas perspectivas", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ao comentar o livro 50 anos de Teologias da Libertação: memória, revisão, perspectivas e desafios.

 

Eis o artigo.

 

A Teologia da Libertação sempre foi uma realidade plural e uma diversidade de posturas proféticas e libertadoras, de reflexões simultâneas que aos poucos foram se encontrando e reconhecendo traços comuns. Enfrentou barreiras, resistências, críticas, criou raízes, se afirmou e adquiriu cidadania eclesial. Assim sendo, no contexto da celebração de seu jubileu de ouro convém apresentá-la desde as suas origens, diante dos desafios do nosso tempo e com a necessária perspectiva capaz de descortinar horizontes de esperança para o compromisso coletivo de construção de outro amanhã possível. Dito de outra forma, passados os 50 anos, é importante reconhecer o caminho percorrido, distinguir quais fora os pontos de acerto e que outros passos ainda necessita ser dados em vista do horizonte último que nos chama, que é o Reino de Deus.

 

Esta é a proposta da obra: 50 anos de Teologias da Libertação: memória, revisão, perspectivas e desafios (Editora Recriar, 2022), organizada por Edward Guimarães, Emerson Sbardelotti e Marcelo Barros. A obra feita em mutirão está estruturada em dois volumes divididos em três partes distintas:

 

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Na primeira parte: Memória da caminhada da Teologia da Libertação (p. 13-199), José Oscar Beozzo no texto: A caminhada da Teologia da Libertação: o êxito das teologias da libertação e as teologias americanas contemporâneas (p. 15-87), Cláudio de Oliveira Ribeiro e Paulo Agostinho N. Baptista em Leitura das origens ecumênicas da teologia da libertação (p. 89-111), Carlos Mesters e Francisco Orofino no texto: A opção pelos pobres e a leitura popular da Bíblia na dinâmica da Teologia da Libertação (p. 113-128), o doutor em Teologia Mathias Grenzer em Econarratividades exodais: a praga das rãs em Ex 7,26-8-11 (p. 129-142), Pedro A. Riberio de Oliveira no texto: O método ver, julgar e agir na Teologia da Libertação: memória e considerações teóricas (p. 143-153), Ney de Souza em Igreja pobre, Igreja dos pobres. Vaticano II e sua influência na gestação da Teologia da Libertação (p. 155-167), Silvia Scatena no texto Medellín e a gênese da Teologia da Libertação (p. 169-181), Solange Maria do Carmo e Francisco Cornélio Freire Rodrigues em Teologia da Libertação: um sopro do Espírito na América Latina (p. 183-199) apresentam as origens e os traços históricos característicos da Teologia da Libertação.

 

Na segunda parte: Balanços críticos e autocríticos (p. 201-354), Agenor Brighenti traz à luz algumas contribuições e crises da Teologia da Libertação (p. 203-220), Benedito Ferraro tece reflexões sobre as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e a Teologia da Libertação (p. 221-238), Élio Gasda mostra a relação entre direitos humanos, movimentos sociais e Teologia da Libertação (p. 239-256), Afonso Murad e Sinivaldo S. Tavares relacionam a Teologia da Llibertação com as outras teologias contextuais libertadoras como a teologia feminista, a ecoteologia, a teologia gay e queer, a teologia índia, a teologia intercultural (p. 257-275), Francisco de Aquino Júnior examina a problemática do método teológico (p. 277-287), Edward Guimarães apresenta um balanço da pedagogia, educação popular e Teologia da Libertação (p. 289-300), Emerson Sbardelotti mostra como a arte e a espiritualidade acompanharam a trajetória da Teologia da Llibertação (p. 301-322), Jung Mo Sung apresenta uma crítica teológica ao capitalismo neoliberal – a libertação dos pobres versus a libertação do mercado: uma luta espiritual (p. 323-338), Ivo Lesbaupin expõe os desafios dos processos políticos na América Latina e Caribe e a Teologia da Libertação (p. 339-354).

 

Os diversos textos que compõe esta unidade assume a tarefa de apresentar um balanço crítico-autocrítico da caminhada da Teologia da Libertação, com a devida tomada de distância necessária para revisões-ressignificações-correções, bem como para o discernimento de novas perspectivas.

 

A terceira parte (concentra no segundo volume desta obra) vem intitulada: Perspectivas e desafios novos (p. 11-278), na qual os autores e autores apresentam as seguintes perspectivas e desafios: Marcelo Barros chama a atenção para a pluralidade da Teologia da Libertação – da Teologia da Libertação às teologias da libertação (p. 13-34), Ivone Gebara destaca a importância de se fazer o resgate feminista da libertação (p. 35-52), Tereza Maria Pompéia Cavalcanti destacando o papel de insurreição das mulheres - chama a atenção para duas marchas: a das Madalenas – entendidas como profetisas que denunciam toda forma de injustiça e arrogância e a das Margaridas – que marcham a partir da terra e dos saberes do campo (p. 53-66), Marcelo Barros, Gildo Aquino Xucuru e João Irineu Potiguara destacam quais são os alicerces teológicos e as bases teóricas com os quais têm sido pensadas as teologias índias e xamânicas cristãs (67-80), Cleusa Caldeira apresenta os desafios da teologia negra da libertação (p. 81-98), Faustino Teixeira e Roberlei Panasiewicz destacando as tendências das teologias da libertação e do pluralismo religioso pontualizam quais são os novos desafios do diálogo inter-religioso (p. 99-116), Maria Cristina S. Furtado mostra quais são os desafios das teologias da libertação inclusiva LGBTQIA (p. 117-133), Cesar Kuzma apresenta tendências para o laicato e os desafios prospectivos de uma teologia libertadora (p. 135-149), Verônica Michelle Gonçalves pergunta se é possível falar de teologias da libertação juvenil e elenca quais são os desafios da libertação das juventudes (p. 151-161), Maria Clara Bingemer examina como a mística esteve na raiz das teologias da libertação e destacando que a mística da libertação como uma experiência fruitiva e eficaz do amor, destaca quais são os desafios espirituais para o presente e futuro (p. 167-181), Leonardo Boff chama a atenção para a ecologia integral e a teologia da libertação (p. 183-188), Rosemary Fernandes da Costa e Eduardo Brasileiro tecem considerações sobre o Bem-Viver (p. 189-205), Étel Teixeira de Jesus diante do preconceito linguístico mostra que contribuições a sociolinguística tem dado na busca da justiça social (p. 207- 221), Diego Irarrazaval delineia problematizações sobre exigências narrativas: que povo e que libertação na atividade teológica? (p. 223-237), Juan José Tamayo salienta a relação bidirecional entre pensamento decolonial e Teologia da Libertação (p. 239-251), Jon Sobrino recorda a teologia feita em El Salvador apresentando a razão para estudar e fazer teologia em El Salvador, como a emergência dos pobres foi fundamental para o seu quefazer teológico e, como D. Romero foi um canal de graça para o povo salvadorenho (p. 253-270), Victor Codina destaca qual é a presença atual da Teologia da Libertação na América Latina (p. 271-278).

 

Portanto, nesta terceira unidade, composta por dezessete reflexões, os autores e autoras visam concretizar, diante dos desafios e urgências, o olhar esperançado das Teologias da Libertação.

 

Um balanço... uma revisão com capacidade de análise e autocrítica... Em tão breve tempo de existência, nenhuma outra teologia se submeteu a tantas avaliações e balanços críticos como a Teologia da Libertação (J. B. Libanio). Nesta perspectiva, as contribuições desta substanciosa obra, respeitando as perspectivas particulares de cada autor/a foi escrita numa linguagem viva e atraente - trazendo um autoexame crítico da Teologia da Libertação e lançando um olhar prospectivo sobre esse singular modo de fazer teologia: “sempre se tratou de ser intellectus amoris” (p. 180). A estruturação da obra descreve a “história de suas origens e seu desenvolvimento, assim também como seus pontos de ruptura e entrelaçamento com novas questões, novos desafios e ramificações que se deram ao longo dos últimos anos” (p. 167).

 

 

Esta publicação com a colaboração de diferentes autores confirma que a Teologia da Libertação / teologias da libertação “tem desempenhado um papel profético nos últimos 50 anos” (p. 277), e, por assim ser ela continua relevante para a Igreja e para a sociedade inspirando suas buscas, ampliando sua agenda e desafiando as novas gerações – “o que é importante não é a Teologia da Libertação, mas a salvação e libertação do povo” (p. 277).

 

A leitura desta obra em seu conjunto ou num passeio pelas temáticas se faz importante pela quantidade de informações sobre a Teologia da Libertação bem como por seu alcance pastoral – abre inúmeras janelas tanto para iniciantes aproximando-os do perfil, do enfoque e tarefas deste modo de fazer teologia bem como para a atualização e aprofundamento de quem já está com ela habituada. “Incumbe continuar a tocha olímpica da Teologia da Libertação acesa para iluminar a noite dos pobres com a esperança de Deus” (J. B. Libanio).

 

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