O chamado humanismo renovado – a propósito do discurso do Papa Francisco em Atenas

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09 Dezembro 2021

 

“E o que é esse humanismo renovado do Papa Francisco, como ele disse em Atenas no dia 4 de dezembro perante as autoridades gregas? Ele mesmo tentou explicar: 'Democracia, cuidado do outro, dos pobres e da criação', o que, 'dentro do Vaticano', na prática – não na teoria metafísica que tudo admite, se necessário – soa como as perigosas extravagâncias que gostava João Paulo I. Pois é verdade: o humanismo e o papado parecem ter uma história complicada; e é como se cada Papa tivesse o seu humanismo, e isso que não usam cartolas”, escreve Ángel Aznárez, ex-magistrado espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 06-12-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Em Roma não escuto todos os discursos papais, mas em Atenas e em Jerusalém escuto e releio todos. À hora prevista, em Atenas, a partir das 12h45min do dia 04 de dezembro de 2021, pronunciaram-se no Palácio da Presidência da República Helênica – antes Palácio Real, muito conhecido pelo rei emérito Juan Carlos, da Espanha – os discursos da presidente da República, a jurista Keterina Sakellaropulos e do Papa Francisco, dentro do denominado “encontro com as Autoridades, a Sociedade Civil e o Corpo Diplomático” da Grécia.

 

Na primeira fila da direita, olhando para o Papa, situaram-se os três cardeais que o acompanham na viagem, as Eminências Reverendíssimas Parolin, Sandri e Koch, os arcebispos Peña e Gallagher da Secretaria de Estado da Cidade do Vaticano, assim como o arcebispo presidente da Conferência Episcopal da Grécia, dom Rossolatos, e o arcebispo católico de Atenas, nomeada há poucos meses, dom Theodoros Kontidis, jesuíta. E na primeira fila da esquerda sentaram-se o primeiro-ministro, sua esposa e depois os ministros; um primeiro-ministro muito conservador, do “Nova Democracia”, que sucedeu em 2019 ao radical de esquerdas, Alexis Tsipras, que, como costuma ser habitual nos políticos muito de esquerdas, fez, no Governo, tudo ao contrário do prometido.

 

Naquele mesmo local, em 4 de maio de 2001, por ocasião da “Peregrinação Jubilar à Grécia, Síria e Malta”, perante o então Presidente da República Helênica, Konstantinus Stephanopoulos, também fez um importante discurso o Papa João Paulo II. Os leitores interessados podem fazer um estudo comparativo entre os dois documentos papais, de João Paulo e de Francisco, e podem tomar como base, do discurso de Francisco, a excelente crônica, aqui publicada na Religión Digital, datada do mesmo dia 4 de dezembro e assinada por Jesús Bastante; e para conhecer o discurso de João Paulo II, você pode acessar o magnífico site da Santa Sé (Viagem de João Paulo II, em 2001).

 

Em ambos os discursos foi citado o Pai da Igreja, São Gregório de Nazianzo, a respeito do qual Francisco recordou sua notável frase: “Atenas, cidade de ouro, na qual, buscando a eloquência, encontrei a felicidade”, e isto dentro de alguns mais amplos reflexões papais sobre a sabedoria e a beleza alcançadas na Grécia clássica. No que diz respeito à língua grega, de tanta precisão e modulação, Francisco a chamou de língua do “logos”, imortal, da sabedoria humana e divina (“Evangelhos escritos em grego”, segundo Francisco, e “textos do Novo Testamento, publicados em grego, o que permitiu a sua rápida difusão”, segundo João Paulo II).

 

Os dois papas estavam certos em não “exagerar” em uma suposta identificação entre o pensamento grego e judaico-cristão, uma vez que uma coisa é admirar e reconhecer a excelência e profundidade do pensamento helênico, e outra é não ver as profundas diferenças entre um e o outro, pensou. Isso acontece com o quão essencialmente cristã é a ressurreição em geral e de Cristo em particular, que foi radicalmente rejeitada pelo mundo grego, sendo os conceitos de morte díspares na Grécia e na Judeia. Alguns atenienses que, como recordou o Papa, chamavam de insensatos (dementia) os cristãos que acreditavam na ressurreição, e por isso mesmo descreviam São Paulo como um “charlatão” (Atos dos Apóstolos 17, 18). A propósito, recomendo o interessante livro de Geza Vermes, intitulado “La resurrección” (Ed. Ares y Mares, 2008).

 

Uma novidade no texto de Francisco em relação ao de João Paulo II foi o seu conteúdo social e político, sobre política e democracia, sobre mudanças climáticas, migrações e vacinas, com alusões às oliveiras mediterrânicas e com memória importante, muito breve, ao juramento de Hipócrates sobre o respeito pela vida humana, pelos nascituros e pelos idosos, nunca é um motivo para descartar. E Francisco concluiu seu discurso da seguinte forma:

 

Que às seduções do autoritarismo responda com a democracia; que à indiferença individualista oponha a solicitude pelo outro, pelo pobre e pela criação, colunas essenciais para um humanismo renovado, de que precisam os nossos tempos e a nossa Europa”.

 

Parece que o substantivo “humanismo” se ajusta bem aos adjetivos, e isso é surpreendente, porque pareceria que o substantivo, em uma palavra tão importante, é tudo – há substantivos que rejeitam o adjetivo, que não o especificam-; infelizmente, humanismo também é referido como um adjetivo. Os chamados políticos católicos, na sua vanglória da Religião, como antes dos apelos da Democracia Cristã, não param de repetir que são os do Humanismo Cristão; eles têm seus quase exclusivos, ao que parece, pela graça de Deus, que está com eles.

 

Eles são de um humanismo muito confortável, na cor azul como um vestido brilhante da Imaculada. Eles administram muito dinheiro de outras pessoas de graça, dizem. São de muitos ritos visíveis, para ter uma boa aparência e buscar garantir o “paraíso” no caso talvez, e todos com ornamentos de jardins, madeiras luxuosas e tapetes para pisar, lembrando o ladrão, o homem rico do Evangelho e a viúva pobre, generosa de verdade (Evangelho de 7 de novembro). E com o afã para se estar nos livros de registro de adeptos e de ajuda mútua. Quem é desse humanismo, pelo que dizem e escrevem, parecem muito direitistas.

 

E o que é esse humanismo renovado do Papa Francisco, como ele disse em Atenas no dia 4 de dezembro perante as autoridades gregas? Ele mesmo tentou explicar: “Democracia, cuidado do outro, dos pobres e da Criação”, o que, “dentro do Vaticano”, na prática – não na teoria metafísica que tudo admite, se necessário – soa como as perigosas extravagâncias que gostava João Paulo I. Pois é verdade: o humanismo e o papado parecem ter uma história complicada; e é como se cada Papa tivesse o seu humanismo, e isso que não usam cartolas.

 

Muitos ainda se lembrarão do humanismo de Pio XII, da Ação Católica, dos roupeiros e das visitas aos barracos dos pobres nas manhãs de domingo; o atordoado Papa Pacelli, que morreu de soluços, entre guizos e sinos, da Segunda Guerra Mundial, como Bento XV durante a Primeira Guerra Mundial. Que “papelão” do Vaticano nas duas Guerras Mundiais! No Concílio Vaticano II houve tanto humanismo que até se evitou, dizem que por medo do Kremlim, a mínima referência e condenação ao humanismo materialista dos comunistas, tendo que esperar a chegada do humanismo, como o de Hollywood, de João Paulo II para isso. O humanismo de Paulo VI foi vermelho, e o de Bento XVI foi elucubrante sobre eros, ágapes e cáritas.

 

É sabido que as localidades políticas, como as da direita e da esquerda, não se adaptam facilmente a uma questão tão delicada e complexa como uma religião, em particular a católica, cujo fundador foi um forasteiro. Mas tudo o que é institucionalizado, inevitavelmente, adquire um caráter conservador, passa a ser de direita; e à Igreja, como instituição e com pessoas singulares a seu serviço, clérigos obedientes (que devem zelar para que o Evangelho seja perene e não temporário), o conservador é essencial, sendo os clérigos, por seu afã de poder, muito conservadores, assim como os clérigos muçulmanos xiitas, como Khomeini, ou clérigos cristãos ortodoxos como o arcebispo cipriota Macarios.

 

Parece que não há dúvida: Francisco gosta de democracia e não de autoritarismo ou populismo; que os mais fracos sejam prioridade, os realmente pobres e que não servem apenas para enfeitar discursos, como as invocações à Virgem Maria; e ainda numa encíclica, a Laudato Si', denuncia os atentados à Criação e ao meio ambiente, com os quais alguns, fiéis deles e da comunhão cotidiana, ganham muito com companhias elétricas e de outros tipos, financiando obras em catedrais, como na de Santiago de Compostela. Tudo isso causa uma grande comoção ou um conflito entre uma Igreja muito conservadora e um Papa que é o chefe do Colégio dos Bispos, Vigário de Cristo e Pastor da Igreja universal na terra, que dizem ser muito pouco conservador. O problema é que o Papa parece acreditar no que diz.

 

E ele repete continuamente: que é preciso descer do pedestal para servir como Jesus, que a busca do prestígio pessoal é uma doença do espírito; que o abuso de autoridade é a causa do nefasto clericalismo ou pessoas de almas duplas. É muito difícil para um Papa deixar de fazer o que é recomendado pelo provérbio indiano: adular elefantes e pisar em formigas.

 

Muitos documentos de Francisco poderiam ser trazidos, mas as frases retiradas da pregação do Angelus, recente, de 17 de outubro e 7 de novembro de 2021, são suficientes para nós, cuja nova escuta é recomendada. O próprio Papa consolou a si mesmo e a nós durante a Missa do Segundo Domingo do Advento, celebrada no Megaron Center Hall de Atenas, proclamando que “a esperança nunca decepciona e que com Deus as coisas mudam”. Que assim seja.

 

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