O espírito do anticristo no Brasil

Foto: Gustavo Minas/Flickr CC

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24 Junho 2020

"O que temos experimentado nos últimos anos? Por que nossa sociedade se encontra tão fraturada a despeito de tantos homens e mulheres supostamente de Deus ocuparem os espaços públicos? Nas rádios e nas emissoras de televisão não há ausência de pregadores e pregadoras falando em nome do Cristo. Ainda assim, o espírito de morte parece pairar em nosso meio, o rancor se difundiu e famílias inteiras vêm sendo divididas pois se tornou insustentável a convivência", escreve Humberto R. Oliveira Jr., membro do Núcleo de Estudos de Religião, Economia e Política (NEREP/UFSCar), coordenador do Grupo de Estudios Multidisciplinarios sobre Religião e Incidência Pública no Brasil (GEMRIP) e doutorando em sociologia pela UFSCar.

Eis o artigo.

No imaginário popular, a figura bíblica do anticristo tende a ser relacionada a uma pessoa. Os relatos apocalípticos acerca das bestas percorrem a cultura ocidental como uma espécie de ameaça vindoura com a qual a humanidade um dia se defrontará. O cinema tem sua cota de responsabilidade nesse fato. Os filmes refletem e contribuem para a construção cultural, solidificando mitos e lendas.

A boa teologia, por outro lado, ensina-nos que o anticristo não deve ser visto como uma pessoa, um indivíduo específico, mas sim como um espírito, um animus operandi. Isto é, um conjunto de ideias, valores e afetos que tomam conta de pessoas e grupos de tempos em tempos. Trata-se de um zeitgeist. Ao olhar para a história, podemos identificar esse espírito do tempo. As cruzadas, a inquisição, as perseguições por motivações religiosas encarnaram plenamente este animus.

Assim sendo, a negação da existência divina, a flexibilização da moral ou mesmo a profanação corriqueira daqueles que insultam a Deus não poderia ser enquadrada no animus operandi que se denomina o anticristo. Ao contrário, este espírito (o do anticristo) não rivaliza abertamente com os valores do Cristo. Ele procura usurpar a figura do Cristo, deturpando seus ensinamentos e valores como se, curiosamente, não o fizesse, de tal modo que se passa a viver e propagar um anti-evangelho em nome do Evangelho e do próprio Jesus.

Se Jesus, o Cristo, anuncia as boas novas (tradução literal do grego evangelion), o falso cristo anuncia condenação. Se o Messias (Cristo, em grego) anuncia o perdão, o falso Messias propaga a vingança. Se o verdadeiro Cristo apregoa o amor, o anticristo difunde o ódio e a ira. O Cristo ressurreto concede o dom da fraternidade entre as pessoas, o seu adversário oferece espadas para o fratricídio (irmão matando irmão). Se Jesus exige igualdade, o falso Messias manifesta a discriminação entre pessoas e grupos. Se o Cristo de Nazaré liberta, o seu antagonista escraviza.

O que temos experimentado nos últimos anos? Por que nossa sociedade se encontra tão fraturada a despeito de tantos homens e mulheres supostamente de Deus ocuparem os espaços públicos? Nas rádios e nas emissoras de televisão não há ausência de pregadores e pregadoras falando em nome do Cristo. Ainda assim, o espírito de morte parece pairar em nosso meio, o rancor se difundiu e famílias inteiras vêm sendo divididas pois se tornou insustentável a convivência. O afeto converteu-se em desafeto. O perdão em sentença. A palavra que deveria gerar luz e vida hoje sentencia penalidades sem fim, convoca a escuridão e lança o medo sobre as ruas das cidades.

Acerca do anticristo, a segunda carta de Paulo aos Tessalonicenses (capítulo 2, verso 4), diz “O qual se opõe, e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus”. Podemos nos perguntar, quando este animus passou ocupar as nossas igrejas? Quando passou a conseguir de nós a sua adoração e a manifestação de tudo aquilo que se opõe a Deus? Quando foi que os púlpitos das igrejas passaram a ser apossados pelo anti-evangelho? Quando foi que permitimos ser profanado o santo lugar (o íntimo, o coração) com as sentenças de morte e condenação? Quando foi que se passou a adorar nos templos e nas casas de oração o “espírito da abominação”?

A ética do anti-evangelho parece percorrer nossas ruas, sai por aí agredindo pessoas, violentando corações, ferindo corpos e mentes. Ele se opõe a tudo aquilo que se chama Deus, portanto ele se opõe ao próprio amor. Desumaniza, pois não vê no outro a semelhança divina; ataca, fere e mata pois é herdeiro de Caim; julga e sentencia pois roga pra si mesmo os atributos do próprio Deus. Do jardim terreno pretende que não sobre nada, pois ama mais a aridez dos desertos que o colorido das flores.

Quem tem olhos, que veja; quem tem ouvidos, ouça enquanto há tempo para se afastar de tudo aquilo que encarna o anticristo. Veja e ouça enquanto há tempo para a restauração.

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