Uma mudança radical na vida da Igreja. Artigo de Enzo Bianchi

Imagem original: Aurélio Fred | Ateliê 15 - Edição: IHU

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05 Fevereiro 2020

Eu gosto de falar da “diferença cristã”, que é uma diferença não contra ou sem os outros, mas uma diferença que nasce da convicção de que Jesus Cristo é verdadeiramente aquele que uniu humanidade e Deus. Depois dele, não se pode falar da humanidade sem falar de Deus, e não se pode dizer Deus sem dizer a humanidade.

A opinião é do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado na revista Vita Pastorale, de fevereiro de 2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nos últimos tempos, há uma pergunta que muitos me fazem e que eu mesmo me faço com frequência: a Igreja ainda é capaz de ser missionária, de tornar eloquente a fé que professa?

Os meios da missão mudam cada vez mais rapidamente, mas a missão será sempre inevitável, porque faz parte do ser cristão: não se segue o Senhor sem ser enviado por ele.

Estamos diante de uma mudança radical, que diz respeito a toda a vida cristã, a vida da Igreja, mas em particular diz respeito precisamente à missão ad gentes. Deixamos a orla e navegamos para outra terra que ainda não conhecemos. Os desafios se apresentam com uma novidade inédita e, portanto, é necessária uma operação de discernimento para toda a Igreja, a fim de cumprir o mandato de Jesus ressuscitado, sempre atual: “Ide, evangelizai em todo o mundo, levai a Boa Nova a toda criatura” (cf. Mc 16,15).

Devemos confessar hoje uma astenia das Igrejas locais, especialmente no hemisfério Norte do mundo: uma astenia em relação à missão, uma falta de coragem em deixar a própria terra marcada pelo bem-estar rumo a terras que ainda são tocadas pela fome, pela miséria e muitas vezes também pela violência e pela guerra.

Basta constatar a falta de vocações para a missão ad gentes; é suficiente ver como os institutos missionários, que deram um testemunho heroico de evangelização, conhecem, pelo menos nas nossas terras de antiga cristandade, esterilidade e envelhecimento, o que torna alguns deles até mesmo precários.

Desde que assumiu o ministério de Pedro, o papa Francisco pede com frequência às Igrejas que se ponham “em saída”, voltando-se para a missão em condições dinâmicas, abertas, livres, a fim de levar a Boa Notícia do Evangelho. Mas, por trás dessas expressões, que correm o risco de ser repetidas simplesmente como um slogan, existe, na realidade, o pedido de uma mudança radical da vida da Igreja, muito antes da vida da missão que lhe é inerente.

Em primeiro lugar, requer-se que todo batizado e batizada e toda comunidade cristã se sintam responsáveis pela evangelização. As expressões que se usam para falar disso são menos importantes, mas, na minha opinião, é necessária uma verdadeira conversão da vida cristã.

É preciso que a vida cristã eclesial se comprometa com um exercício, com uma atenção real à sinodalidade, para que povo de Deus e pastores caminhem juntos. Todos os cristãos são chamados a assumir a responsabilidade de serem enviados a homens e mulheres que não conhecem Jesus Cristo; devem, portanto, ser sujeitos capazes de expressar a fé cristã e, consequentemente, de edificar a Igreja com a sua contribuição cultural, religiosa e humana específica.

É a dinâmica à qual Francisco frequentemente retorna nos seus discursos missionários, recordando palavras como escuta, encontro, diálogo, testemunho, anúncio.

Além disso, acredito que é importante lembrar que hoje a missão não se dirige apenas aos gentios, mas também diz respeito às nossas Igrejas. Se, no fim da Segunda Guerra Mundial o cardeal de Paris falava da França como uma terra de missão, hoje estamos todos convencidos de que a Europa é terra de missão, como escreve o teólogo Christoph Theobald.

Vivemos em uma época que não é apenas secularizada: estamos em uma época pós-cristã, e nas nossas terras de antiga cristandade há situações que fazem com que a missão seja mais urgente do que nunca.

Especialmente as novas gerações, as dos millennials, são marcadas por uma profunda indiferença em relação à religião, à busca de Deus, ao pertencimento à Igreja. Está ocorrendo uma revolução silenciosa que muda profundamente o rosto das nossas comunidades, nas quais as novas gerações e as mulheres são a “Igreja que falta”, segundo a eficaz expressão do Pe. Armando Matteo.

Sim, está ocorrendo uma revolução silenciosa, que muda e mudará profundamente o rosto das nossas comunidades.

Sonhamos com uma Igreja evangelizante e, em vez disso, encontramo-nos diante de uma Igreja não evangelizada e com gerações sem mais qualquer contato com a fé cristã. Nessa situação inédita, seria preciso, de nossa parte, uma capacidade de leitura, um exercício de discernimento para assumir a responsabilidade pela falta de transmissão da fé às novas gerações.

Não basta falar dos millennials, é preciso se referir aos seus pais e às suas mães, isto é, a primeira geração que realmente traiu a transmissão da fé, a partir da família e dos vários contextos educativos. É evidente que, em uma Igreja tão frágil, já se deve reconhecer uma crise de fé: devemos ter a coragem de dizer isso, o problema é a fraqueza da fé!

Mas então qual missão e qual evangelização, não nos meios, mas na raiz? É necessário tomar consciência da indiferença reinante em relação a Deus e da busca por ele. Há anos já eu repito que a Igreja deve tomar conhecimento de tal indiferença, mas parece que, na realidade, ninguém quer acreditar nela, e assim se continuam estudando as estratégias para o anúncio, da mesma maneira que antes.

Para as novas gerações – mas também para alguns das gerações pós-1968 – Deus não é mais interessante, não é mais necessário para viver bem, em felicidade. Continua-se repetindo alguns slogans, mas, se escutarmos realmente os jovens, compreenderemos que eles estão bem sem buscar a Deus.

O problema é eventualmente o da “gratuidade” de Deus, o que requer novas atitudes para anunciá-lo: Deus não está mais no espaço da necessidade! Deus é até uma palavra ambígua, rejeitada pelas novas gerações, porque muitas vezes está ligada ao fanatismo religioso, à intolerância, à violência.

O que é decisivo hoje na fé cristã é a meta de um percurso realizado no seguimento de Jesus Cristo, “o iniciador da nossa fé” (Hb 12,2). Isso requer que, na nossa missão e evangelização, o anúncio seja verdadeiramente Jesus Cristo, o homem Jesus Cristo que viveu na carne: o homem como nós, totalmente homem em uma vida mortal, na história, desde o nascimento até a morte, com todos os nossos limites humanos, exceto o pecado, porque é com a vida humana que ele nos revelou Deus e nos leva à comunhão com ele. E Cristo não só nos revela Deus: ele se faz conhecer como Deus, Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Aqui está a especificidade do cristianismo, mesmo em um tempo de confronto com os outros monoteísmos e com outros caminhos religiosos. Eu gosto de falar da “diferença cristã”, que é uma diferença não contra ou sem os outros, mas uma diferença que nasce da convicção de que Jesus Cristo é verdadeiramente aquele que uniu humanidade e Deus. Depois dele, não se pode falar da humanidade sem falar de Deus, e não se pode dizer Deus sem dizer a humanidade.

Esta é a nossa fé: confessamos que Jesus Cristo é homem e Deus, Deus feito carne, Deus sempre vivo nos séculos dos séculos. Na evangelização, somos chamados a colocar Jesus Cristo e a sua humanidade no centro, revelação do Deus vivo.

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