Ivone Gebara debruça-se sobre sua grande trajetória acadêmica de ecofeminista, freira católica, teóloga e filósofa de formação e ação. Por mais de duas décadas, Ivone foi professora do Instituto de Teologia do Recife (ITER), experiência que oportunizou sua inserção nas periferias urbanas da região metropolitana do Recife, em particular em Camaragibe, onde residiu, e a cidade se tornou matéria-prima de sua reflexão acadêmica. Nascida em São Paulo, em 1944, é doutora em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e doutora em Ciências Religiosas pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica.
Sua obra articula feminismo, teologia da libertação, ecologia e critica às estruturas patriarcais das religiões, propondo uma espiritualidade enraizada na vida cotidiana das mulheres pobres e na experiência corporal e urbana do sagrado. Conceitos como interdependência entre os corpos humanos e os corpos da natureza, crítica ao dualismo hierárquico masculino nas representações do divino e a inseparabilidade entre lutas feministas e lutas ecológicas atravessam sua produção.
Provocada nesta entrevista sobre temas recentes no mundo intelectual e acadêmico e refletindo questões de circulação nos meios de comunicação, ela revisita seu acervo, do qual resulta uma reflexão que, no lugar de dar respostas diretas, elenca elementos-chave para a apreciação da questão e das possibilidades de resposta.
Como professora de filosofia e teologia, do alto de seus 81 anos de vida, intermedeia a pergunta e a resposta possível, sem abandonar o compromisso ético-político de indicar os elementos que podem favorecer a quebra do continuum da história (Benjamin, apud Löwy, 2005) e se compromete com a libertação na opção pelos pobres, esses derrotados e incansáveis revolucionários.
Para tanto, Gebara aponta um feminismo e um ecofeminismo fundados em muitas tradições e, ao mesmo tempo, enraizados no solo em que vive e atua, sem idealizações e num abandono do colonialismo, tendo em vista a diversidade e as diferenças culturais no Brasil.
Ao lado das mulheres, os homens são convidados a rever seu papel na sociedade. Para o ecofeminismo de Gebara, o corpo é elemento da realidade vivida. Por isso, será necessário rever as noções de mulher e de homem para além da definição biológica pela genitalidade. Será preciso aprender das sexualidades dissidentes e escutar os corpos e as mentes transgêneros. A perspectiva religiosa de Ivone abarca uma compreensão de divindade que não é apenas pessoa nem apenas masculino, mas integra o humano à natureza, posto que o humano também é natureza, é terra.
Com isso, abandona-se o papel de mulher submissa e sempre disposta a servir, cuidadora, mas nota-se que as súplicas dos fiéis se dirigem a uma mulher, quando se refere a Maria, mãe de Jesus, no cristianismo, especialmente ao católico, apesar da complexidade que o tema mariológico requer. Por fim, temos uma autora que conquistou o direito de falar, mesmo quando tentaram lhe impor o silêncio.
A entrevista é de João Melo e Marco Aurélio Corrêa Martins, publicada por Revista Teias, volume 27, número 85, de abril/junho de 2026, sobre "História da educação, religião e cidades".
O que é ecofeminismo e o que ele tem a ver com religião e educação? Como você se tornou ecofeminista? Quais foram as principais instituições, experiências e pessoas que influenciaram seu pensamento?
Ivone Gebara – A partir do final da década de 1980 e início de 1990, grupos de mulheres feministas da América Latina, em especial do Brasil, Chile, México, Argentina e Uruguai, abriram-se para a problemática da ecologia ligada ao feminismo, visto que, depois do desastre de Chernobyl, a sobrecarga nos ombros das mulheres aumentou de maneira contundente.
Dados os problemas de irradiação, as mulheres da Ucrânia não sabiam mais como alimentar seus filhos e suas famílias, visto que a contaminação mortal era imensa. Essa problemática provocou-nos a perceber a relação estreita entre a dominação das mulheres e a dominação da natureza, que, inevitavelmente, incide na dominação e exploração maior da mão de obra feminina.
Fiz parte do grupo Con-spirando, sediado em Santiago do Chile. Tínhamos uma revista bimensal com o nome Con-spirando Revista, de ecofeminista, na qual, quase que, unicamente, mulheres escreviam. Tínhamos a influência, especialmente, de teólogas norte-americanas e europeias, como Mary Daly, Rosemary Radford Ruether, Elisabeth Fiorenza, Delores Williams, Mary Hunt, Sallie McFague, assim como os livros de Thomas Berry e Brian Swimme e do velho Teilhard de Chardin.
Nas hostes africanas, há trabalhos e grupos que se denominam mulherisma, em contraposição ao feminismo ocidental e burguês. Com centralidade na família, e a partir de elementos endógenos ao continente africano, buscam recuperar a forma complementar existente entre homens e mulheres (Oliveira, 2018). Como o homem poderia ver, aprender e participar das lutas contra a dominação patriarcal (Gebara, 2017, p. 16-17), pelo fim do dualismo masculino/feminino, e também combater discursos que simplificam o pensamento feminista ou manipulam o corpo feminino para usos comerciais e político-eleitorais?
Ivone Gebara – Creio que, cada vez mais, o que chamamos de ecofeminismo deve assumir as cores dos lugares onde é vivido e produzido. Não devemos mais repetir os pensamentos do ocidente europeu que, por séculos, dominou as análises conjunturais dos países do Sul e determinou formas idealizadas de existir. Sem dúvida, esse processo não é simples. O respeito à natureza vivido pelas mulheres africanas temsua história própria e há que respeitar.
Aqui, no Brasil, estamos enfatizando o ecofeminismo a partir da diversidade de culturas, embora tenhamos consciência dos limites e das manipulações que ocorrem com frequência. Nessa linha, os homens também de África e de outros lugares, assim como os dos povos indígenas, são convidados a rever a noção de poder e ter que caracterizaro mundo patriarcal e suas identidades desde mais de 7 mil anos. As hierarquias patriarcais tocaram todos os povos.
Sem dúvida, isso não é tarefa fácil, mas, dessa revisão, depende também a vida do planeta. Basta ver como o capitalismo, na sua forma atual, é bélico, destruidor da vida e, em especial, das crianças e das mulheres. Destruidor igualmente da vida no planeta. Não se trata apenas do mundo doméstico, mas das relações mplas econômicas, sociais e de organização do mundo,submissas a um modelo único de dominação de minorias.
Como o feminismo no Brasil responde à diversidade contida nos diferentes povos que constituíram aquilo que se convencionou chamar de povo brasileiro? A teologia feminista cristã e o ecofeminismo não são burgueses. Como eles se aproximam das questões próprias do Brasil, seja na Igreja, nas periferias e nas regiões brasileiras?
Ivone Gebara – Os problemas maiores de sobrevivência não são da burguesia, embora a elaboração teórica seja burguesa, no sentido de ser uma tarefa de intelectuais. Isso vale igualmente para o feminismo e o ecofeminismo. O grande desafio que nos é colocado é simplificar a linguagem analítica a partir de um compromisso de proximidade com a vida dos mais pobres: observar a vida nua, informar-se de suas relações e das dores e das alegrias que produz.
E, a partir daí, compreender e explicar, através de uma observação atenta da vida e dos fenômenos da natureza, utilizando uma linguagem acessível, capaz de ser reconhecida por quem sofre as dores da exclusão e da fome.
Há uma alfabetização de informações analíticas que é negada ao povo, embora, com os atuais meios de comunicação, há algo que se poderia fazer na linha da educação efetiva para além das propagandas consumistas e das linguagens eruditas e científicas acessíveis a uma elite.
Você disse em uma entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU (Gebara, 2016a), criticando um documento da Igreja sobre a família, a Exortação Apostólica Amoris Laetitia, que o texto se dirigia a uma ordem hierárquica, masculina e solteira, e não às famílias católicas, à rua, aos pobres. Como a corporeidade feminina desafia a segregação e a lógica de “menoridade” imposta às mulheres na cidade, na família e nas instituições educacionais?
Ivone Gebara – A questão é que as teorias teológicas ainda vigentes são de um mundo impregnado pelo Império Romano e por sua continuidade até os dias de hoje. Elas mantêm uma visão dualista do mundo e uma noção da pessoalidade de Deus que favorece hierarquias e a dominação, sobretudo das mulheres. E isto porque Deus aparece com cara histórica masculina e outorga o poder de organizar a Igreja e o mundo aos homens.
Os homens são a primeira imagem de Deus, e as mulheres são a segunda, embora não se incluam na representatividade de Deus. Não se fala da natureza e dos animais como imagens de Deus, como se também a vida nas suas múltiplas manifestações tivesse que se submeter ao princípio criador masculino.
Há aqui uma clara exclusão das mulheres e uma acentuação apenas na sua capacidade reprodutiva e de cuidados, considerados coisas menores. É nessa linha que há que reformular essas representações do divino hierárquico masculino e nos inspirarmos, por exemplo, em Teilhard de Chardin, quando ele advoga o fato de sermos todas e todos, assim como tudo o que existe, provenientes de um “meio divino”. Isto significa que não temos, como seres humanos, a posse total nem o conhecimento integral desse Mistério Maior no qual estamos vivendo.
Sua obra tem influenciado profundamente uma geração de feministas. Mas, no passado, também recebeu críticas, como as de Marcella Althaus-Reid, que questionou os limites da Teologia da Libertação [1] em relação às sexualidades dissidentes. Como você avalia esse diálogo e essas tensões?
Ivone Gebara – Avalio o trabalho de Marcella Althaus-Reid (2000) como extremamente positivo. Pena que a morte prematura a levou. Ela não só criticou as sexualidades apenas binárias como criticou a teologia e, em especial, a mariologia católica. Ela fez até uma crítica, a meu ver, extremamente importante a um livro que escrevi com Maria Clara Bingemer para a Coleção Teologia e Libertação sobre a figura de Maria. Eu concordei com ela e lhe agradeci.
A superação do binarismo teológico como vontade de Deus ainda está nos seus primeiros passos, porque ainda vivemos sob o domínio das leis pré-estabelecidas por homens que se julgam infalíveis quanto à determinação das leis sobre os corpos. Há uma metafísica estabelecida que não se sustenta mais.
Em março de 2026, a eleição da deputada Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher foi recebida com ataques que contestavam sua legitimidade, baseando-se no sexo biológico de seu nascimento. Estamos diante de um cenário em que o corpo trans é usado como “causa de escândalo” para fins político-eleitorais. É sobre o ódio? (Gebara, 2016b). Como podemos pensar a corporeidade feminina para além dos órgãos sexuais?
Ivone Gebara – Os órgãos sexuais são de ordem biológica e são um critério “não escolhido” por cada pessoa para determinar seu sexo. A biologia não escolhe o sexo e tem alguns padrões mais ou menos estruturais. A ordem dos cromossomos é que determina a biologia. Entretanto, no que toca à sexualidade, para além da biologia, existem as emoções, os sentimentos, as tendências pessoais e suas escolhas, condicionamentos múltiplos que determinam a realidade dos corpos para além do biológico.
A questão é extremamente complexa e diversa. A biologia feminina também de um/uma trans ainda é determinada por sua biologia: menstruação, menopausa, esperma etc. Essas realidades fazem parte da condição biológica, que não pode ser simplesmente apagada. Não podemos pensar na negação dos órgãos sexuais, mas em uma psicologia emocional para além deles. Estamos ainda nessa complexa discussão.
Entretanto, acho que Erika Hilton, assim como outras pessoas trans, abrem-se para uma problemática mais ampla de direitos, uma problemática para além de sua condição biológica. E há que ouvir o que nos dizem, porque é muito importante.
Como a teologia feminista no Brasil, realizada por mulheres engajadas nas lutas sociais populares, relaciona-se com as bases fixadas do território habitado? Temas como o controle da sexualidade feminina, os direitos reprodutivos, a luta contra a violência e o feminicídio e o lugar das mulheres nas igrejas perpassam toda a sua obra. Como essas temáticas se relacionam com a perspectiva ecofeminista para pensar a cidade?
Ivone Gebara – A questão é que nossos corpos não vivem sem o ar, a água, as florestas, os legumes e as frutas que se plantam, a limpeza da cidade, os animais e os insetos. Tudo isso é também nosso corpo e a vida do nosso corpo. Com frequência, nos habituamos a nos pensar de forma separada e excludente. É como se fôssemos separados do conjunto dos elementos vivos da natureza que mantêm nossos corpos vivos.
Trata-se de uma nova percepção da mistura da vida. Precisamos, por isso, de um trabalho educativo enorme para fazer face a esse novo momento perceptivo que nos leva a nos descobrirmos nessa complexa rede de interdependências.
Os territórios nos quais atuam as teólogas femininas fazem mediação do pensamento e da ação. Como se dá essa mediação interpretativa quando se toca o solo, o chão, talvez possamos chamar de “práxis”. Isso é uma pedagogia ou isso vem de uma pedagogia? Haveria uma pedagogia ecofeminista? Como aprende e como ensina uma intelectual ecofeminista?
Ivone Gebara – Creio que a lei básica é a interdependência de tudo com tudo. O ecofeminismo se baseia nessa percepção do mundo. As lutas feministas existem porque existe a violência contra as mulheres; uma violência não apenas física, mas emocional, política, religiosa, corroborada por leis etc.
As lutas ecológicas existem porque háuma agressão sistemática, uma destruição de florestas, mares e rios que se tornaram depósitos do “progresso” humano capitalista. Isso não significa que essa metodologia seja facilmente aceita e integrada em nossas relações cotidianas. Ela ainda está em estado de aprendizagem, de convite a observar o mundo e a perceber nossa semelhança e diferença com toda a diversidade da vida.
Hoje, as igrejas neopentecostais redefinem a paisagem urbana com seus templos instalados em antigos cinemas e galpões, enquanto bancadas religiosas ocupam o centro do debate político. Como você avalia esse retorno intenso do religioso ao espaço público das cidades? E o que ele revela sobre os projetos de educação e de sujeito que essas presenças constroem?
Ivone Gebara – Nestes tempos, talvez diferentemente do que no passado, as igrejas, especialmente as neopentecostais, são cada vez mais plurais e penetram na cidade, nos bairros populares e nas políticas de Estado com imensa facilidade. Infelizmente, estamos usando a religião, aliás, quase sempre se fez isso, para fortalecer projetos políticos e econômicos das mais diferentes tendências.
Repetimos, de diferentes formas, o passado colonialista que nos caracterizou. É preciso também deixar claro que as igrejas tradicionais também se expressam, salvo raras exceções, a partir de teologias hierárquicas e dualistas que levam a uma moralidade limitada pelos mesmos preceitos dualistas.
Nós, que trabalhamos com história da educação, olhamos para a escola católica e sua presença em pontos distintos e estratégicos da cidade, com vistas a uma ocupação que passa, sobretudo, por prédios históricos, muitas vezes suntuosos. Quase todos marcam os santos e, especialmente, a imagem de Nossa Senhora. Pensando nessa ocupação simbólica, mas também na presença territorial e temporal, como você avalia essa marcação do feminino a partir da imagem da mãe de Jesus?
Ivone Gebara – A questão da imagem de Nossa Senhora é bastante complexa. Predomina ainda a ideia da Virgem submissa, sempre disposta a ajudar. Uma versão diferente, que acentua a força ética de Maria e a força ética do Movimento de Jesus, ainda não está suficientemente desenvolvida. Trabalha-se no regime dos exemplos e dos pedidos de ajuda à Virgem.
É interessante notar que a maioria dos pedidos de ajuda no universo católico se fazem a uma figura feminina. Tudo indica que o feminino é mais sensível às dores dos humanos, mais acolhedor das súplicas, mais terno e colaborativo.
Em 1994, você foi silenciada pelo Vaticano. O que esse episódio revelou sobre os limites do que as instituições religiosas permitem que se aprenda e se ensine nas cidades? E, olhando para trás, o que esse silenciamento ensinou à própria Ivone Gebara?
Ivone Gebara – Me ensinou que “apesar de você, amanhã há de ser um novo dia”. O silenciamento foi um alerta da dominação do mundo patriarcal, uma preparação de algo parecido com a experiência da liberdade buscada pelas mulheres e por tantos oprimidos da Terra.
[1] Corrente teológica cristã da América Latina que busca articular a fécom a luta pela justiça social. “Se tivéssemos de resumir em uma única fórmula a ideia central da Teologia da Libertação, poderíamos nos referir à expressão consagrada pela Conferência dos Bispos Latino-Americanos de Puebla (1979): ‘a opção preferencial pelos pobres’. Mas é preciso acrescentar imediatamente que, para a nova teologia, esses pobres são os agentes de sua própria libertação, e o sujeito de sua própria história –e não simplesmente, como na doutrina tradicional da Igreja, objeto da atenção caridosa” (Löwy, 2016, p.76)
ALTHAUS-REID, Marcella. Indecent theology: theological perversions in sex, gender and politics. London: Routledge, 2000.
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LÖWY, Michael. O que é cristianismo da libertação: religião e política na América Latina. 2. ed. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo; Expressão Popular, 2016.
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