A dupla revolução do século XXI: geopolítica e Inteligência Artificial. Artigo de Javier Torret

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29 Mai 2026

"Não basta anunciar o colapso do velho mundo ocidental, nem sequer imaginar o fim do capitalismo. Trata-se de impulsionar e radicalizar o novo mundo multipolar que já está em curso, para que a Dupla Revolução do século XXI possa se desdobrar com toda a sua força emancipadora".

O artigo é de Javier Torret, publicado por El Salto, 26-05-2026.

Javier Toret é pesquisador e ativista com vasta experiência em estratégia digital e comunicação política. É membro da unidade de Tecnopolítica do grupo Redes de Comunicação e Mudança Social da Universidade Aberta da Catalunha (UOC) desde a sua criação. É doutorando em Ciência Política na Universidade de Girona.

Eis o artigo. 

A desordem global e as forças tectônicas que atualmente moldam o futuro do planeta exigem novas estruturas analíticas capazes de capturar a singularidade desta era histórica. Não estamos diante de fenômenos políticos isolados (como a visita de Trump a Pequim, a proliferação de conflitos internacionais ou a disputa sobre elementos de terras raras), nem estamos simplesmente diante de avanços tecnológicos (sejam eles provenientes do DeepSeek, do Manus ou do Claude), mas sim de uma mutação estrutural mais profunda. Para caracterizar essa mutação, é crucial analisar a convergência histórica entre uma revolução geopolítica marcada pela transição sistêmica rumo à multipolaridade (representada pela ascensão e protagonismo da China, dos BRICS e do Sul Global) e uma revolução tecnológico-produtiva, impulsionada pela inteligência artificial e pela robótica. Para descrever essa convergência, proponho o conceito de "Dupla Revolução". Essa Dupla Revolução constitui o vetor-chave de transformação para as próximas décadas.

Podemos datar o início da Revolução Dual entre 2022 e 2023, quando uma série de eventos marcou um ponto de virada e uma aceleração sistêmica. Na frente tecnológica, o lançamento do ChatGPT e a popularização dos modelos de IA generativa — a tecnologia de disseminação mais rápida da história — coincidiram com a ofensiva de Washington contra Pequim, caracterizada por restrições ao acesso a semicondutores avançados. Na frente geopolítica, a guerra na Ucrânia acelerou a fragmentação da ordem euro-atlântica. Os levantes no Sahel culminaram na ascensão ao poder de Ibrahim Traoré e na expulsão das forças militares francesas. O genocídio em Gaza, perpetrado por Israel com o apoio dos EUA e a cumplicidade europeia, revelou a violência estrutural do novo projeto imperial do Grande Israel. Longe de serem episódios isolados, esses marcos representam erupções simultâneas nas placas tectônicas do sistema mundial.

Para compreender a magnitude e a natureza deste momento histórico, podemos recorrer à obra do historiador marxista Eric Hobsbawm. Em seu livro A Era das Revoluções, 1789-1848, Hobsbawm cunhou o termo "Dupla Revolução" para conceituar o processo histórico que transformou o mundo moderno. A "Dupla Revolução" do século XIX foi caracterizada pela convergência estrutural de duas revoluções simultâneas e interligadas: a Revolução Francesa — política e ideológica — e a Revolução Industrial Inglesa — tecnológica e econômica. Ambas forneceram a base material (ferrovias, fábricas, proletariado) e a base superestrutural (liberalismo, nacionalismo, soberania popular) para o que foi, nas palavras de Hobsbawm, "a maior transformação da história da humanidade desde os primórdios, quando o homem inventou a agricultura e a metalurgia, a escrita, a cidade e o Estado".

Embora tenham surgido em contextos nacionais distintos, essas transformações constituíram "a dupla cratera de um vasto vulcão regional". Juntas, varreram o antigo regime feudal, lançando as bases da ordem liberal capitalista burguesa e consolidando a lógica da dominação colonial. Esse vasto e tumultuoso processo gerou contradições e forte resistência interna — como o surgimento do movimento operário e das correntes socialistas — que moldaram os conflitos e as alternativas sociopolíticas, tecnológicas e econômicas dos séculos XIX e XX.

Assim como a Revolução Dual do século XIX consolidou a ordem capitalista ocidental e sua expansão imperialista — deixando o Sul Global em posição subordinada —, dois séculos depois, a emergência de potências periféricas desafia ativamente a hegemonia em declínio, um Norte Global liderado com mão de ferro pelos Estados Unidos. O enfraquecimento progressivo e relativo do bloco geopolítico ocidental acarreta uma transição conflituosa para um mundo multipolar e policêntrico. O pesquisador geopolítico Gabriel Merino considera que esse processo "significa uma transformação estrutural e revolucionária e, inversamente, implica a obsolescência da velha ordem política mundial e das instituições que cristalizaram as hierarquias de poder anteriores".

A hipótese da Revolução Dual do Século XXI pressupõe que estamos testemunhando o início de uma erupção de magnitude comparável à ocorrida entre 1789 e 1848. Por um lado, a revolução geopolítica poderia até mesmo levar a uma terceira guerra mundial ou ao fim de séculos de domínio ocidental sobre o planeta. Por outro lado, a revolução da inteligência artificial e da robótica está transformando — e o fará de forma muito mais radical na próxima década — os fundamentos materiais da ciência, da produção, do trabalho e do valor.

As revoluções têm uma geografia situada e desigual, e tendem a ter múltiplos epicentros a partir dos quais se espalham por meio da dominação ou do contágio, gerando fenômenos complexos de poder e resistência. Hobsbawm mostrou como a Europa foi o núcleo da dupla revolução do século XIX, seguida pela Revolução Americana, após o período bipolar da Guerra Fria. Hoje, como Giovanni Arrighi antecipou em seu livro Adam Smith em Pequim, o século XXI testemunha "a mudança contínua do centro da economia política global da América do Norte para o Leste Asiático". Nessa mesma linha, em sua obra China e Capitalismo Global, a teórica marxista Lin Chun argumenta que essa reconfiguração não replica a lógica imperialista, mas sim articula um caminho de desenvolvimento soberano no qual o Estado chinês, com suas limitações e contradições, busca uma trajetória coletiva alternativa dentro e além do capitalismo tardio.

Diante dessa encruzilhada histórica, onde convergem a transição do poder global e a aceleração da disrupção tecnológica, surgem duas questões fundamentais: Quem, como e com que propósito moldará as forças da revolução tecnológica impulsionada pela inteligência artificial e pela robótica? Quem serão os atores políticos da Revolução Dual do século XXI?

Crise da unipolaridade e a fase hiperimperialista

O século XX foi marcado pela hegemonia geopolítica e tecnológica dos Estados Unidos. Após o fim da Segunda Guerra Mundial e o lançamento das duas bombas atômicas, o poder americano consolidou-se durante a Guerra Fria, com a imposição do petrodólar na década de 1970 e a subsequente fase unipolar que se seguiu à queda da União Soviética. Essa fase unipolar foi caracterizada pela ofensiva neoliberal, culminando na expansão do domínio global do modelo tecnológico do Vale do Silício. Em todas essas frentes, Washington conseguiu projetar uma influência inegável.

Contudo, no século XXI, essa dominância unipolar atravessa uma crise estrutural, como previsto por teóricos de sistemas mundiais como Immanuel Wallerstein e Giovanni Arrighi. As economias ocidentais entraram numa fase de desindustrialização progressiva e financeirização acelerada nas últimas décadas, em que o capital se desvincula da produção real. Especialmente no caso dos Estados Unidos, esse declínio material é agravado pela expansão militar excessiva, pela crise institucional e pela perda de confiança na sua moeda e legitimidade internacional. Mais recentemente, como aponta Emmanuel Todd em seu livro A Derrota do Ocidente, a guerra na Ucrânia demonstrou claramente "uma crise ocidental, e mais especificamente uma crise terminal americana" que ameaça a estabilidade global.  Essa percepção de declínio já não é marginal: transcendeu os círculos acadêmicos e aparece frequentemente em análises de veículos de comunicação que vão desde The Economist até The New York Times.

Essa percepção de declínio acelerou as estratégias da Casa Branca para conter a ascensão da China, que identifica como sua rival sistêmica. Essa dinâmica se manifesta em tentativas de controlar pontos de estrangulamento geoestratégicos, na apropriação ilegal de recursos energéticos e na imposição de sanções arbitrárias a países insubordinados, como evidenciado pelo fortalecimento do bloqueio de seis décadas contra Cuba e pelo cerco à Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro. Manifesta-se também na iniciação de guerras assimétricas, como no caso do Irã, bem como em inúmeras pressões coercitivas e intervenções militares. Gabriel Merino argumenta que estamos diante de uma "guerra mundial híbrida e fragmentada", um conflito multifacetado em que o confronto não se limita à esfera militar, mas inclui dimensões econômicas, informacionais e tecnológicas que operam em múltiplas escalas e em diversos cenários. Essa guerra híbrida é a forma central de conflito na transição global de poder, no atual estágio de caos sistêmico.

Entretanto, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, em um relatório abrangente, apresentou outra estrutura analítica para a compreensão da situação geopolítica, cunhando o conceito de “hiperimperialismo”. O hiperimperialismo define um novo estágio do imperialismo, que emerge quando a potência hegemônica vê sua capacidade produtiva e financeira diminuída, respondendo com o fortalecimento e a concentração do poder militar. O relatório caracteriza o Norte Global como um bloco militar, político e econômico, composto por 49 países, incluindo os Estados Unidos, o Reino Unido, o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia, Israel, o Japão e outros países da Europa Ocidental e Oriental. Na esfera militar, a Turquia (como membro da OTAN), a Coreia do Sul e as Filipinas (colônias militarizadas de fato dos EUA) fazem parte do “bloco militar liderado pelos EUA”, embora pertençam ao Sul Global. Esse bloco responde por 74,3% dos gastos militares globais. Essa estratégia multiplica os riscos de escaladas militares regionais e até mesmo de um confronto nuclear. Contudo, o dossiê situa no Sul Global um “novo clima e um despertar do espírito para levar adiante os projetos incompletos de libertação nacional”.

A emergência do Sul Global e da maioria global multipolar

Em contraste com a arquitetura militarizada do Norte Global, o Sul Global não é um bloco militar, mas sim um conjunto de países diversos e subordinados dentro do sistema mundial, representando a maioria da população global. Compreende 145 países, anteriormente designados como "Terceiro Mundo". De acordo com o Instituto Tricontinental, esse grupo de nações carece de uma identidade compartilhada e consensual, embora compartilhem as características de serem "ex-colônias ou semicolônias do bloco imperialista" e sua "marginalização histórica e contemporânea na ordem econômica e política mundial". Seguindo a estrutura tricontinental, seis agrupamentos de países podem ser identificados: países socialistas independentes; países com forte busca por soberania; países recém-não alinhados; países historicamente ou atualmente progressistas; países fortemente militarizados pelos Estados Unidos; e o Sul Global Diversificado. Além da heterogeneidade do Sul Global, os países do BRICS+ demonstraram uma notável capacidade produtiva e industrial que contrasta fortemente com a atual financeirização do Ocidente.

Em 2026, os países do BRICS+ (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e Arábia Saudita) já representarão 41% do PIB global em termos de paridade do poder de compra, superando claramente os 28% do G7. O crescimento médio (maio de 2026) entre as nações do BRICS+ é liderado pela Índia, com 6,2%, e pela China, com 4,4%. Em média, o BRICS+ cresceu 3,7% ao ano, mais do que o triplo do crescimento das potências ocidentais, que foi de 1,1%. Os 11 países do BRICS+ representam aproximadamente 3,9 bilhões de pessoas, ou entre 45% e 50% da população mundial. Se considerarmos o Sul Global como um todo, ele compreende aproximadamente 85% da população mundial, em comparação com 15% da população do Norte Global.

Contudo, os países do BRICS+ não constituem um bloco homogêneo ou uma aliança ideológica coesa. Trata-se, antes, de uma associação pragmática e econômica que reúne diversos interesses, sistemas políticos e visões civilizacionais. Isso gera contradições internas e limita sua coordenação estratégica, como demonstrado no caso da guerra contra o Irã. Apesar dessas heterogeneidades, o BRICS vem progredindo, ainda que lentamente, na construção de autonomia estrutural e de uma ordem mais equitativa no cenário internacional. Esse compromisso se manifesta não apenas na demanda pela reforma da ONU e pela ampliação do Conselho de Segurança com assentos permanentes para Brasil, Índia e África do Sul, mas, sobretudo, na construção de uma arquitetura financeira alternativa. Nesse sentido, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), presidido por Dilma Rousseff, é um dos instrumentos mais importantes para promover ativamente o comércio em moedas nacionais, fomentar o desenvolvimento e impulsionar os países do BRICS+ rumo à desdolarização, protegendo, assim, suas economias de sanções unilaterais.

Mas a multipolaridade não é domínio exclusivo dos governos. Na cúpula do BRICS+ de 2025, no Rio de Janeiro, o Conselho Popular do BRICS+ foi institucionalizado como um espaço onde 120 organizações de base do Sul Global, incluindo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e a Marcha Mundial das Mulheres, apresentaram diretamente suas demandas no contexto da cúpula de chefes de Estado, o que se refletiu na declaração final. Essa promissora interseção entre o BRICS+ e as organizações de base revela algo mais profundo: que a reconfiguração do poder global exige a convergência de projetos de Estados soberanos e lutas populares para moldar, de baixo para cima, a direção da transição sistêmica. Sem Estados soberanos, as organizações de base correm o risco de serem subjugadas pelo poder imperial. Sem organização popular, a multipolaridade corre o risco de não conseguir superar as desigualdades da velha ordem. Quanto maior a influência dos movimentos e maior o peso popular, mais transformadora será a multipolaridade

O conceito de uma Maioria Global Multipolar serve para designar um bloco histórico transnacional em formação, composto por estados soberanos do Sul Global, blocos regionais como o BRICS+, classes populares, movimentos sociais, migrantes e setores críticos do Norte Global que rejeitam o hiperimperialismo atual.

Nessa intersecção, o conceito de Maioria Global Multipolar serve para designar um bloco histórico transnacional em formação, composto por estados soberanos do Sul Global, blocos regionais como o BRICS+, classes populares, movimentos sociais, migrantes e setores críticos do Norte Global que rejeitam o hiperimperialismo atual e buscam construir uma ordem mundial multipolar, soberana, cooperativa e socialmente justa. Não se trata de um sujeito homogêneo nem de uma aliança puramente estatal, mas sim de uma constelação multiescalar onde convergem lutas e redes anti-imperialistas, sociais, feministas, ecológicas, antirracistas, municipalistas, tecnológicas e culturais. Seu potencial emancipatório depende de sua articulação, que impulsiona a transição para a multipolaridade em direção a abordagens mais transformadoras, incluindo justiça social e econômica Norte-Sul, democratização tecnológica, transição ecológica, igualdade de gênero e poder popular.

A Maioria Global Multipolar emerge de uma longa história de desapropriação, colonialismo e exploração, mas também da experiência de resistência e comunidade. É o resultado histórico, passado e presente, da luta contra o imperialismo, o capitalismo e o colonialismo, herdeira do espírito que percorreu o caminho de Bandung até a Conferência Tricontinental, como demonstrou o teórico Vijay Prashad em suas obras Dark Nations e A People's History of the Third World. A principal preocupação atual da Maioria Global Multipolar é o avanço do genocídio e do hiperimperialismo, que ameaçam o planeta com projetos de impérios antigos e novos. Na esfera digital, os movimentos tecnopolíticos que defendem a soberania digital popular, o software livre e os modelos abertos enfrentam a oposição direta do poder dos tecnoligarcas, do colonialismo de dados e da transformação da IA ​​em algo voltado para a segurança e a militarização. A Maioria Global Multipolar é o sujeito histórico em formação da Revolução Dual do século XXI, assim como o proletariado o foi na Revolução Dual do século XIX. Ela será forjada em duras batalhas pela dignidade humana e na prática de um novo internacionalismo anti-imperialista.

A revolução geopolítica: Guerra e o triângulo multipolar

O primeiro eixo da Revolução Dual é a revolução geopolítica: a transição sistêmica da unipolaridade estadunidense para um mundo policêntrico. Ela pode ser definida como um processo de insubordinação múltipla contra o poder unipolar dos EUA. Essa dinâmica se manifesta em uma série de eventos: o crescimento e o fortalecimento das capacidades de algumas nações do Sul Global; a resistência iraniana, seus poderosos efeitos sobre o mundo árabe e o novo status do Estreito de Ormuz; a integração financeira do BRICS+; o processo de desdolarização da economia global; as lutas anti-imperialistas na América Latina, África e Ásia; e o declínio global da popularidade dos aliados anglo-sionistas após 7 de outubro de 2023. Todos esses eventos demonstram a luta pela direção da transição sistêmica.

Nesse processo, a China desempenha um papel crucial, pois é o ponto de convergência das revoluções tecnológica e geopolítica. Desde a revolução de 1949 liderada por Mao Tsé-Tung e as reformas de Deng Xiaoping iniciadas em 1978, a China, sob o modelo de socialismo com características chinesas, alcançou a maior redução da pobreza na história da humanidade: 800 milhões de pessoas. Em apenas quatro décadas, o país se transformou de uma das nações mais pobres do mundo (após um século de humilhação) na segunda maior economia mundial e na principal potência industrial global. Ao mesmo tempo, longe de seguir uma lógica expansionista tradicional, Pequim manteve-se firme em sua doutrina de ascensão pacífica e em uma política externa de não intervenção. Um fato que ilustra essa trajetória é que, desde o conflito fronteiriço com o Vietnã em 1979, a China não iniciou nem travou nenhuma guerra ofensiva. Sua estratégia tem se concentrado na cooperação Sul-Sul, articulada por meio de projetos ambiciosos como a Rota da Seda Digital, uma iniciativa que visa criar corredores de conectividade (portos, estradas, redes 5G) com a participação de mais de 150 países.

Diante das crises estruturais da ordem internacional contemporânea, o presidente chinês Xi Jinping formalizou a visão de “construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade”, implementada por meio de um conjunto de propostas normativas e institucionais: a Iniciativa de Desenvolvimento Global (2021), a Iniciativa de Segurança Global (2022), a Iniciativa de Civilização Global (2023) e a Iniciativa de Governança Global (2025), complementadas pela proposta de Governança da Inteligência Artificial. Esses marcos, fundamentados nos princípios da Carta da ONU, buscam reformar e aprimorar o sistema de governança global, ampliando a representação e a voz dos países em desenvolvimento sob cinco princípios orientadores: igualdade soberana, respeito ao direito internacional, multilateralismo, uma abordagem centrada nas pessoas e ação concreta e orientada para resultados. Esses marcos constituem propostas estruturadas para uma reconfiguração da ordem internacional e um novo paradigma de governança mais equitativo e inclusivo. Embora tenham sido bem recebidos pelos Estados do Sul Global, passaram praticamente despercebidos no Norte Global, quando não foram vistos com suspeita.

A ascensão da China e dos BRICS tornou-se a obsessão estratégica da Casa Branca, e os conflitos e guerras atuais devem ser compreendidos dentro dessa perspectiva. O conflito prolongado na Ucrânia, o genocídio em Gaza e a guerra assimétrica travada pelo eixo EUA-Israel contra o Irã e o Eixo da Resistência são, em essência (como argumenta o analista geopolítico brasileiro Pepe Escobar), guerras contra a multipolaridade emergente. Não se tratam de disputas regionais isoladas, mas sim de guerras contra o Sul Global. São operações destinadas a fragmentar a articulação soberana entre China, Rússia e Irã, numa tentativa de impedir a consolidação do triângulo multipolar eurasiático. Contudo, longe de fragmentar essa aliança, o ataque contra o Irã não apenas trouxe à tona as capacidades iranianas, como também intensificou a coordenação entre essas três nações. Esse triângulo estratégico é o pivô fundamental do mundo multipolar contemporâneo, um espaço onde o poder militar, econômico, tecnológico e ideológico do Ocidente não pode dominar. A parceria cada vez mais abrangente entre Pequim, Moscou e Teerã constitui, de fato, o baluarte mais formidável contra o hiperimperialismo americano e o projeto do Grande Israel.

Mas a revolução geopolítica não se limita às ações de Estados soberanos que desafiam o regime de guerra imperial; ela se desenrola em múltiplas frentes entre 2022 e 2026. Está presente na luta contra o genocídio do povo palestino; em sua luta pela libertação nacional; nas Flotilhas da Liberdade, que demonstram a ascensão do internacionalismo; na resistência iraniana e no eixo de resistência contra a agressão da “coalizão Epstein”. Na África, é evidente nas revoltas populares e na aliança dos Estados do Sahel (Níger, Mali e Burkina Faso), que expressam o cansaço de décadas de colonialismo francês. Somam-se a essa onda os protestos da juventude, como o Maandamano no Quênia; o movimento camponês MVIWATA na Tanzânia, que articula a soberania alimentar e a defesa da terra; e o sindicalismo militante do NUMSA na África do Sul, o maior sindicato da classe trabalhadora do continente. Na América Latina, com as lutas dos movimentos indígenas e camponeses, como as revoltas na Bolívia, as lutas em Cauca, Colômbia, e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MTST) brasileiro, que, juntamente com a Via Camponesa, vêm construindo a soberania alimentar e o poder popular há anos. Com as greves de mais de 250 milhões de trabalhadores e camponeses na Índia. Com os movimentos em Okinawa (Japão), Taiwan, Filipinas, Coreia do Sul e Vietnã contra o militarismo e as bases estadunidenses na Ásia. No Norte Global, com as lutas de movimentos antirracistas como o Regularization Now pelo acesso a direitos básicos; as mobilizações contra o genocídio, como a greve selvagem na Itália, a interrupção do Tour de France e as ações diretas da Palestine Action; os movimentos urbanos contra a busca de renda e os aluguéis exorbitantes ; e as lutas feministas, como as pelo reconhecimento do trabalho de cuidado e contra a violência digital de gênero. As lutas contra a tendência autoritária nas sociedades do Norte Global, como os protestos contra a brutalidade do ICE ou as mobilizações em massa contra Trump pela campanha No Kings, são exemplos disso. Em suma, a revolução geopolítica, nesse sentido, é também a intensificação da luta de classes e povos em todo o mundo. A aceleração da revolução geopolítica multipolar depende da força das lutas sociais e de seu posicionamento em um contexto de guerra e militarização das sociedades. No Norte Global, os movimentos têm a oportunidade de pressionar pela ruptura do eixo militar imperialista, especialmente na Europa, para fomentar uma terceira posição autônoma que sirva de ponte com o Sul Global.

A revolução tecnológica. Modelos de IA assimétricos

A segunda dimensão da Revolução Dual é a revolução tecnológico-produtiva representada pela inteligência artificial, computação em larga escala e o avanço da robótica. Longe de ser um desenvolvimento isolado, esse processo opera como um paradigma tecnoeconômico no sentido descrito por Carlota Pérez: após uma fase de consolidação financeira e especulativa, ele começa a reconfigurar os fundamentos materiais da produção, do trabalho e da organização social. A IA pode ser entendida como a maturação extrema da quinta onda tecnológica — a revolução da informação e das telecomunicações — mas também como o limiar de uma possível sexta onda, pós-informacional. Uma novidade substancial em comparação com as ondas anteriores é a grande velocidade evolutiva da atual revolução tecnológica, caracterizada por aceleração recursiva. A inteligência artificial não funciona apenas como mais um setor produtivo, mas como uma tecnologia de propósito geral e uma infraestrutura cognitiva transversal que aprimora, interliga e comprime o tempo de desenvolvimento de campos emergentes como computação quântica, robótica avançada, biotecnologia ou genômica.

Durante décadas, a revolução digital foi monopolizada pelos Estados Unidos e exportada internacionalmente, levando ao que Nick Srnicek descreveu como "capitalismo de plataforma". As grandes empresas de tecnologia se estabeleceram como líderes de um modelo de acumulação no qual a extração massiva de dados opera como matéria-prima fundamental, moldando — como alerta Cecilia Rikap — um mapa renovado de dependências e periferias digitais que reproduz as assimetrias do sistema mundial. Hoje, o modelo do Vale do Silício está se transformando em direção a formas mais agressivas de integração com o aparato militar dos EUA. O Pentágono nomeou seis executivos do setor digital para liderar suas áreas de tecnologia críticas. Ao mesmo tempo, investigações jornalísticas afirmam que os sistemas de IA da Anthropic e da OpenAI foram usados na guerra do Irã em 2026, alimentando o debate sobre a guinada militarista do Vale do Silício.

Mas se existe uma empresa que personifica a guinada autoritária do setor tecnológico americano, essa empresa é a Palantir Technologies. Fundada por Peter Thiel, a Palantir opera como um núcleo coeso ou vanguarda do "tecnoimperialismo" e como um elo estratégico entre Israel e os EUA, com presença em 19 países, em sua maioria aliados da OTAN, incluindo a Espanha. A Palantir serviu como infraestrutura de morte para o exército israelense no genocídio em Gaza — como relata o sociólogo Sergio Amadeu em seu livro Guerra Total: IA e o Complexo Militar Dataficado — e nas ações militares americanas na guerra contra o Irã. Em seu manifesto recente, a empresa exibe descaradamente seu supremacismo, apresentando a inteligência artificial como uma "nova arma de dissuasão atômica" e convocando todo o Vale do Silício a tomar partido na atual dinâmica hiperimperialista.

Contudo, o monopólio tecnológico americano foi quebrado. Como Gabriel Merino demonstra em seu perspicaz artigo “Os BRICS e a Revolução Tecnoprodutiva na Transição do Sistema Mundial ”, os países do BRICS lideram tanto em número de publicações científicas globais (a China responde por 20%) quanto na formação de talentos em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), onde China e Índia ocupam o primeiro e o segundo lugar, representando 20% do investimento global em P&D. Com base nesses dados, Merino define “o cenário geopolítico global como um de relativa multipolaridade com certas características bipolares em matéria tecnológica, devido ao peso dos Estados Unidos e da China”. Nessa competição com características bipolares, o avanço tecnológico chinês destruiu qualquer ilusão de um mundo unipolar. De acordo com um relatório do Instituto Australiano de Política Estratégica (ASPI), enquanto os EUA lideraram em 60 das 64 tecnologias críticas entre 2003 e 2007, a China assumiu a liderança em 57 das 64 categorias analisadas entre 2019 e 2023. Segundo o pesquisador Jeff Xiong, a China “alcançou relativa independência em soberania digital há cinco anos”. Em relação ao crescimento das capacidades tecnológicas e científicas dos países do BRICS, Xiong afirma que “enfrentamos dificuldades estruturais no processo de conquista da soberania digital. O primeiro desafio é a alta dependência da infraestrutura digital fornecida pelos Estados Unidos”. Portanto, ele identifica a soberania digital como uma área-chave para o Sul Global nas próximas décadas. Xiong sugere que “empresas chinesas e países do Sul Global devem construir conjuntamente novas infraestruturas digitais e também desenvolver e explorar metodologias que combinem a expertise chinesa com as realidades locais”.

Para compreender a natureza dessa batalha, é crucial revisitar o conceito marxista de Intelecto Geral. Nos Grundrisse, Marx antecipou que o sistema de máquinas e o conhecimento social acumulado, ao ultrapassarem um limiar crítico, se tornariam uma força produtiva direta. Na era da computação em larga escala, da inteligência artificial e do avanço da automação, o Intelecto Geral poderia ser renomeado como Intelecto Computacional. Ele compreende o conhecimento social acumulado, materializado em sistemas de máquinas de inteligência artificial, dados, redes, algoritmos, infraestruturas digitais, trabalho tecnocientífico e cooperação social distribuída sob a figura marxista do trabalhador coletivo. Assim, a IA expressa a materialização histórica de séculos de trabalho cognitivo, dados coletivos, a luta contra a automação e o conhecimento popular processado e padronizado algoritmicamente.

A inteligência computacional é objeto de disputa tecnopolítica: sob uma lógica tecnoimperialista, alinha-se à acumulação privada, à guerra e ao controle algorítmico, mas sob uma lógica de reapropriação social, pode se tornar um recurso para comunidades em luta, uma fonte de desenvolvimento para novas forças produtivas, um auxílio na gestão racional de bens comuns ou um ponto de partida para a redução da jornada de trabalho. Não se trata de rejeitar a IA ou a robótica; trata-se de contestar seus propósitos, sua produção e sua governança.

A pesquisadora Paola Ricaurte, a partir de uma perspectiva feminista decolonial, demonstra na prática, por meio do projeto IA Feminista, como essa apropriação da IA ​​para fins transformadores pode ser concretizada. Parte de seu trabalho acadêmico tem se concentrado em destacar como a inteligência artificial reproduz a colonialidade, o patriarcado, o racismo e o extrativismo digital. No entanto, em uma entrevista sobre a possibilidade da IA ​​Feminista, Ricaurte afirmou que ela deve ser concebida a partir de uma perspectiva marxista, como se tratasse de tomar os meios de produção: “Se somos nós que podemos obter, tomar, projetar, pensar e criar as ferramentas em nossos próprios termos, com valores diferentes dos do capitalismo”. A luta sobre quem cria e como a inteligência artificial é aplicada diz respeito não apenas a Estados ou grandes corporações, mas também à sua apropriação social por comunidades, organizações sociais e movimentos.

A divergência estratégica entre os modelos de inteligência artificial dos Estados Unidos e da China transcende a clássica questão de quem está vencendo a corrida. Ela reflete lógicas, estratégias e objetivos distintos. De modo geral, enquanto o ecossistema americano é composto por arquiteturas fechadas, foca na inovação pura e promove a integração militar-industrial, a China optou por uma visão diferente. Sob o princípio da cibersoberania, o país asiático integra a IA em cadeias produtivas reais, como manufatura e logística; enfatiza a aplicação prática em áreas como saúde e educação; e implementa modelos que são, em sua maioria, de código aberto. Os EUA querem consolidar um monopólio de poder algorítmico cada vez mais militarizado e ser os primeiros a alcançar o que Sam Altman, CEO da OpenAI, considera a mercadoria mais valiosa da história: a IAG (inteligência artificial geral).

A China, por sua vez, visa fortalecer a autossuficiência tecnológica e está implementando ecossistemas abertos focados na eficiência e na redução do custo simbólico dos modelos de IA. Como argumenta o teórico Yu Hong, diferentemente do modelo ocidental de desregulamentação corporativa, o Estado chinês, em conjunto com as forças de mercado e os interesses de classe, está construindo e realinhando ativamente seu setor digitalizado. Nesse sentido, a plataformização na China está estritamente subordinada ao planejamento estatal, à segurança nacional e aos objetivos políticos do desenvolvimento industrial soberano, impedindo que a racionalidade e o poder corporativos dominem o poder político. No entanto, como apontam Hong e a pesquisadora Kate Crawford, o ecossistema tecnológico chinês também gera lógicas de precariedade laboral ou extrativismo semelhantes às promovidas pelo capitalismo de plataforma.

Mas a luta pela Inteligência Computacional não se trava exclusivamente entre diferentes modelos de IA, nem apenas entre as grandes empresas de tecnologia e os Estados que defendem sua soberania digital. Ela também se desenrola em outras dinâmicas, como a apropriação da IA ​​por movimentos populares, a luta contra a extração desenfreada de recursos planetários (como Crawford demonstrou em seu livro Atlas of AI) e a organização de trabalhadores cognitivos de níveis de qualificação baixo, médio e alto. Isso constitui uma nova classe trabalhadora cognitiva computacional, que vai desde rotuladores e moderadores de IA no Quênia, passando por trabalhadores de call center e BPO nas Filipinas, até pesquisadores do Google DeepMind que se sindicalizam contra o uso militar da IA. Nos movimentos populares do Sul Global, a reapropriação social da IA ​​é uma tendência crescente. Recentemente, em maio de 2026, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Brasil lançou o IARAA, sua própria inteligência artificial treinada para auxiliar na agroecologia e na reforma agrária popular, demonstrando que a tecnologia pode ser subordinada às necessidades da classe trabalhadora rural. Seguindo uma lógica semelhante, a Rede Feminista de IA na América Latina e no Caribe, e projetos como Data Against Femicide, Common Land e redes transhackfeministas como Non-Binary Code, politizam algoritmos para combater a violência patriarcal e o colonialismo de dados. Na Índia, o movimento do software livre luta contra a instalação do controle biométrico obrigatório e, anos atrás, derrotou a Meta em seu plano de assumir o controle da internet no país mais populoso do mundo, enquanto assembleias de bairro, do Chile ao Uruguai, conseguem impedir a instalação de megaprojetos extrativistas para centros de dados.

Simultaneamente, no Norte Global, campanhas tecnopolíticas como a Tech For Palestine emergiram nos últimos anos; trabalhadores da Amazon e do Google organizaram greves sob a campanha No Tech for Apartheid, denunciando a colaboração com o projeto Nimbus; e protestos e iniciativas contra a Palantir se multiplicaram, como a campanha Purge Palantir, juntamente com ações contra a militarização da IA ​​e seus usos autoritários e voltados para a vigilância. No âmbito da construção de alternativas tecnológicas, podemos destacar projetos como Mastodon e Signal, o ecossistema Fediverso e a plataforma Decidim para participação e inteligência coletiva (baseada na comunidade e de código aberto), que se tornou uma referência internacional para processos de democracia participativa. Esses projetos e movimentos, embora ainda fragmentados, demonstram que sua interseção — em termos de direitos trabalhistas, justiça ambiental e construção de alternativas — é fundamental para impedir que a revolução tecnológica seja capturada pelo tecnoimperialismo ou gerenciada exclusivamente por um punhado de tecnoligarcas.

A Dupla Revolução como bússola estratégica

A Revolução Dual é um diagnóstico do nosso tempo, concebido como uma bússola estratégica para nos guiar pelas próximas décadas. Ela aspira funcionar como um mapa de coordenadas para interpretar as principais tendências históricas do atual sistema mundial: a convergência da revolução tecnológica da inteligência artificial e a revolução geopolítica da transição global de poder. Essas duas revoluções divergem de forma antagônica. De um lado, está o hiperimperialismo estadunidense, uma potência em declínio que militariza a geopolítica e a inteligência artificial. Do outro, a Maioria Global Multipolar (estados, blocos regionais e movimentos populares do Sul Global, juntamente com dissidentes críticos do Norte Global) resiste a ataques e agressões, concebe arquiteturas financeiras alternativas, constrói soberania tecnológica e desenvolve modelos abertos para romper com a dependência digital. Reconhecendo esse antagonismo, devemos nos perguntar sobre o futuro: essa Revolução Dual será dominada pelo tecnoimperialismo ou será hegemonizada por potências multipolares? E, além disso, as forças populares serão as protagonistas de uma transformação radical das relações de poder capitalistas? O resultado da Dupla Revolução é incerto; dependerá do equilíbrio de poder entre os diversos atores geopolíticos, da capacidade das lutas populares de articular novos projetos emancipatórios e de quem controla a revolução tecnológica da Inteligência Computacional e como.

Hobsbawm mostrou como a Revolução Dual do século XIX criou novas classes sociais e novos sujeitos políticos. Mas quais serão os sujeitos políticos da revolução dual do século XXI? Essa pergunta exige uma resposta honesta: esses sujeitos ainda não estão totalmente constituídos. Contudo, ainda que de forma incipiente e isolada, muitos de seus componentes já estão em discussão. A esquerda global sofre tanto com a hiperfragmentação quanto com a falta de articulação estratégica internacional, com a desconexão de sua base social (altamente precária após anos de hegemonia neoliberal) e até mesmo com a falta de compreensão do alcance da revolução tecnológica. A fragmentação temática, geográfica e ideológica confina as lutas a agendas parciais e desconexas. Apesar disso, a reconstituição de um bloco histórico transnacional capaz de enfrentar o desafio da Revolução Dual — corporificado na Maioria Global Multipolar — já está em curso. Essa reestruturação não será alcançada por meio da uniformidade ideológica, identitária ou religiosa, mas sim pela construção de bandeiras unificadoras que articulem a diversidade. Para isso, é crucial reimaginar espaços massivos para protesto e coordenação internacional, baseando-se na experiência de ciclos políticos anteriores e adaptando-os às condições atuais descritas.

A unidade estratégica se constrói em torno desses elementos e contra os principais inimigos impostos por esta fase histórica. O ativista internacionalista Tiago Ávila resume isso de forma clara e simples: “Temos que derrotar Netanyahu e Trump. Temos que derrubar os criminosos de guerra. Precisamos derrotar o complexo militar-industrial que lucra com a guerra. As grandes empresas de tecnologia que querem controlar nossas vidas. Precisamos construir um futuro diferente.” Esse apelo pode ser traduzido em um futuro onde a luta de classes e a luta dos povos, a luta contra as hierarquias Norte-Sul, o anti-imperialismo, a soberania digital e a soberania da IA ​​se fundem com a defesa da reprodução da vida e do planeta, em um único projeto emancipatório decisivo para a transição sistêmica. Um enorme desafio para as próximas décadas. Não basta anunciar o colapso do velho mundo ocidental, nem sequer imaginar o fim do capitalismo. Trata-se de impulsionar e radicalizar o novo mundo multipolar que já está em curso, para que a Dupla Revolução do século XXI possa se desdobrar com toda a sua força emancipadora.

Este texto é uma prévia do encontro "Geopolítica da Tecnologia: Transição Sistêmica, Soberania Tecnológica e Democracia", realizado no dia 28 de maio, no Canódromo (Ateneu de Innovación Digital y Democrática), Carrer de Concepción Arenal, 165, Sant Andreu, 08027 Barcelona.

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