03 Agosto 2026
Parlamentares do partido de Trump planejam iniciar um processo de impeachment contra o cientista por desacato ao tribunal, devido à recusa deste em responder às perguntas de uma comissão do Senado criada para investigá-lo por sua gestão da pandemia.
A reportagem é de Luís Doncel, publicada por El País, 03-08-2026.
“Por recomendação do meu advogado, recuso-me respeitosamente a responder, invocando meu direito à Quinta Emenda.” Anthony Fauci repetiu essa frase quase cem vezes na quarta-feira, durante sua audiência de mais de três horas perante o Senado dos EUA. O homem que liderou a luta contra a pandemia do coronavírus, primeiro sob o governo do presidente Donald Trump e depois sob o de Joe Biden, e que dirigiu o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas por 38 anos, tanto em administrações republicanas quanto democratas, reconheceu, com grande pesar, que não responderia às perguntas dos senadores.
O argumento para se recusar a falar foi a "obsessão desvairada" do senador republicano Rand Paul, presidente da comissão, de passar os últimos dias de sua vida "atrás das grades".
Os republicanos há muito tempo têm como alvo esse cientista de 85 anos. O desejo de vingança de um Trump vitorioso, que retornaria à Casa Branca em 2025, levou Biden a conceder um indulto controverso a Fauci, juntamente com outros membros da família e aliados políticos, no último dia de seu mandato. Mas esse indulto presidencial o protege por tudo o que aconteceu até o momento em que foi concedido, em 20 de janeiro de 2025, e não por eventos que ocorreram posteriormente. E os republicanos deixaram claro que usarão todas as brechas possíveis para perseguir a figura-chave na resposta dos Estados Unidos a duas das maiores pandemias do último meio século: HIV/AIDS e Covid-19.
O senador Paul lidera a campanha contra Fauci, a quem acusa de ter usado fundos públicos para financiar o laboratório chinês de onde, segundo ele, sem comprovação científica, o coronavírus teria se originado. “Um milhão de americanos morreram. Quinze milhões morreram no mundo todo. A verdadeira questão é se os contribuintes devem financiar pesquisas que transformam um vírus animal em um vírus humano”, disse o republicano.
Seis anos após o fim da pandemia, os cientistas continuam debatendo se o vírus se originou acidentalmente em um laboratório ou se surgiu como resultado da transmissão entre humanos em um mercado. Mas Paul e seus colegas já chegaram a uma conclusão, e ela aponta diretamente para Fauci.
O republicano também criticou o cientista pela decisão de fechar escolas e igrejas para conter a propagação da doença. E tem insistido há dias na publicação do diário de Fauci, que, segundo ele, revela sua hipocrisia e vaidade. "Suas ações levaram à maior epidemia provocada pelo homem na história?", perguntou o senador do Kentucky. "Há milhões de mortes por causa de seus experimentos?", continuou.
Agora, após a audiência de quarta-feira, ele também é acusado de desacato por não responder às perguntas dos senadores. "Obstruir uma investigação do Congresso é ilegal. Sua recusa em depor terá repercussões", disseram os senadores. Fauci argumentou que, ao longo de sua carreira, demonstrou respeito pelo Congresso, perante o qual já depôs ou fez apresentações mais de 200 vezes, mas que, nesta ocasião, recusou-se a participar por considerar a audiência parte de uma campanha difamatória contra ele.
Paul já anunciou uma votação na próxima quarta-feira para declarar Fauci em desacato, argumentando que, devido ao indulto recebido, ele não teria direito à proteção da Quinta Emenda, que permite a uma pessoa sob investigação recusar-se a depor para evitar a autoincriminação. Se, como esperado, ele não obtiver os 60 votos necessários no Senado, o republicano afirmou que encaminhará o caso ao Departamento de Justiça, atualmente chefiado por Todd Blanche, um aliado próximo de Trump que chegou a ser seu advogado pessoal e não hesita em colocar seu departamento à disposição do presidente.
Um homem derrotado
A imagem de Fauci perante o Senado era a de um homem derrotado. Com expressão impassível e mãos trêmulas, ele foi acusado, entre outras coisas, de ser "um megalomaníaco e um mentiroso", de ser responsável por todas as mortes relacionadas à Covid-19 ou por qualquer reação adversa à sua vacina, e até mesmo de ter lucrado financeiramente de forma secreta com sua posição. O caso, na realidade, refere-se ao milhão de dólares que ele recebeu em 2021 de uma fundação israelense, um prêmio por defender a ciência que foi totalmente transparente e divulgado na época.
O próprio Trump aderiu à campanha de difamação pública. Em uma série de postagens em suas redes sociais, ele que Fauci que ele tinha "ideias malucas" e que ou não sabia de nada ou era desonesto. Ele chegou ao ponto de acusá-lo de mentir sobre suas habilidades atléticas e de ser um atleta péssimo.
A audiência reflete a polarização extrema das instituições americanas, com os democratas demonstrando seu apoio e os republicanos competindo para ver quem seria mais agressivo. Segundo o analista e consultor democrata David Axelrod, o espetáculo da semana passada no Senado não teve nada a ver com saúde pública, mas sim com "uma antiga vingança pessoal de um senador".
Este ex-conselheiro do presidente Barack Obama lembrou, em mensagem para X, que havia muitas perguntas que os senadores poderiam ter feito a Fauci sobre as lições que ele e os Estados Unidos deveriam ter aprendido com a pandemia. "Em vez disso, embarcaram numa tentativa flagrante de demonizar e incriminar este homem de 85 anos, que recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade de um presidente republicano por seu trabalho salvando milhões de vidas durante a epidemia de AIDS", acrescentou.
Fauci, que dirige o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e seu laboratório desde 1984, tem uma longa e distinta carreira como epidemiologista. Ele coordenou a resposta a crises de saúde pública como a AIDS, a gripe aviária, o Ebola, o Zika e, finalmente, o coronavírus. O presidente Biden frequentemente destacou sua dedicação incansável durante os anos da pandemia, chegando a fazer ligações nas primeiras horas da manhã.
Durante os primeiros anos da epidemia de AIDS, ele foi duramente criticado por grupos ativistas como o ACT UP pela lentidão na aprovação de medicamentos, mas posteriormente ajudou a desestigmatizar a doença e garantiu milhões de dólares em financiamento para pesquisas. Nada disso pareceu importar em sua audiência no Senado. Após décadas de serviço, ele se vê mais uma vez lutando para defender sua reputação, mesmo que muitos já o tenham declarado culpado.
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