OpenAI: a história do ataque hacker descontrolado à IA também preocupa a China

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23 Julho 2026

Um agente da OpenAI atacou e invadiu o sistema da Hugging Face, agindo de forma autônoma. E para corrigir a vulnerabilidade, foi necessária uma IA chinesa. Trata-se mais de uma questão geopolítica do que tecnológica.

A reportagem é de Federico Ferrazza, publicado por La Repubblica, 22-07-2026.

Finalmente, aconteceu. O que era descrito em romances e filmes de ficção científica tornou-se realidade. Uma máquina foi capaz de lançar um ataque sem que nenhum humano a instruísse explicitamente.

Mas é uma história que vai além dos textos de Isaac Asimov ou dos filmes de Stanley Kubrick e Ridley Scott. Porque desta vez, além da tecnologia, há também geopolítica e governo mundial (e não alienígenas ou robôs).

Mas vamos por partes. E comecemos pela "máquina" em questão. Ela pertence a uma das gigantes globais da inteligência artificial, a OpenAI, a empresa que, com o ChatGPT, apresentou ao mundo as capacidades surpreendentes da IA generativa, a habilidade de transformar qualquer solicitação em uma resposta, seja em forma de texto, fotos, vídeos, áudio ou qualquer outra coisa.

Na noite de terça para quarta-feira, na Itália, a OpenAI admitiu que, nos dias anteriores, um de seus agentes, uma IA capaz não só de gerar, mas também de agir autonomamente, havia realizado um ataque hacker "sem precedentes". A vítima foi a Hugging Face, empresa americana que administra uma das maiores comunidades de desenvolvedores de IA do mundo. Em outras palavras, cientistas da computação se reúnem em sua plataforma para testar e conduzir pesquisas em diversas áreas da inteligência artificial, particularmente aprendizado de máquina, o ramo que estuda como os sistemas aprendem com os dados.

Então, o que aconteceu? Durante testes de segurança em uma área protegida, tecnicamente um ambiente de teste (sandbox), o agente da OpenAI escapou desse confinamento digital para se infiltrar nos arquivos da Hugging Face. Isso foi possível não porque a máquina se rebelou, mas porque a IA havia sido treinada para fazer tudo o que fosse possível para atacar um arquivo de dados. Com essa orientação, os engenheiros da OpenAI perderam o controle de sua criatura. Ela ultrapassou a área protegida, entrou online e se infiltrou nos bancos de dados da Hugging Face.

A empresa vítima explicou que ainda está investigando se dados de parceiros ou clientes foram adulterados. Mas, por enquanto, tudo parece estar em ordem. "Dada a sofisticação do agente, suspeitamos que o ataque cibernético da semana passada possa ter se originado de um laboratório de ponta", disse Clement Delangue, CEO da Hugging Face, à X, acrescentando que a empresa passou o dia anterior trabalhando em estreita colaboração com a OpenAI: "Acreditamos firmemente que não houve intenção maliciosa da parte deles. É realmente incrível que tudo isso tenha acontecido de forma autônoma!"

Até o momento, nenhum dano foi registrado (ou melhor, divulgado). Mas esse não é o ponto principal. A questão é a capacidade do software de fazer algo potencialmente perigoso por conta própria. Em uma era de guerra cibernética e com uma economia, finanças e infraestrutura (incluindo a física) inteiramente governadas e gerenciadas por ferramentas digitais, saber que a IA é capaz de causar danos descontrolados não traz tranquilidade.

Essa é a história. Mas há uma história de fundo que dá à esta uma segunda interpretação, provavelmente mais interessante do que a de ficção científica. Porque, uma vez detectada a intrusão, a Hugging Face tentou usar IAs americanas, incluindo as da OpenAI, para corrigir a vulnerabilidade. Falharam. Os modelos americanos, na verdade, têm mecanismos de segurança, ou limitações, que os impedem de serem muito poderosos por motivos de segurança.

Assim, a Hugging Face fez o que muitas empresas ocidentais têm feito nos últimos meses, sem declarar. Utilizaram uma IA chinesa, especificamente o modelo GLM 5.2 da Z.ai, uma das gigantes asiáticas da inteligência artificial. Isso tem duas vantagens: é mais barato e não possui mecanismos de segurança, pois qualquer um pode removê-los. Essa é uma política específica do governo de Xi Jinping.

"A estratégia chinesa é muito inteligente e eficaz do ponto de vista deles", explica Mariarosaria Taddeo, professora de Ética Digital e Tecnologias de Defesa no Instituto de Internet de Oxford, na Universidade de Oxford: "Consiste em disponibilizar modelos de IA a custos muito baixos em modo de código aberto [o que significa que qualquer pessoa pode pegar o código do software e modificá-lo como quiser]. Dessa forma, a difusão de suas tecnologias está se tornando cada vez mais ampla. Mas isso não será assim para sempre: quando muitos se tornarem dependentes da IA chinesa, Pequim decidirá monetizar a vantagem competitiva que acumulou, aumentando os preços ou deixando de disponibilizar o código."

O jogo, portanto, não é apenas tecnológico, mas sobretudo político. Isso fica evidente pelas ações dos EUA e da China. Na semana passada, esta última lançou a WAICO, sigla para Organização para a Cooperação Mundial em Inteligência Artificial. Trata-se de um grupo de 39 países, incluindo Rússia, Bielorrússia, Brasil e diversos países africanos (EUA, Canadá, União Europeia e Reino Unido não fazem parte) que, além das boas intenções ("Tecnologia como ferramenta para a paz e a cooperação"), tem um único objetivo: privar os Estados Unidos da supremacia em IA. Essa é uma resposta às ações do presidente americano Donald Trump, que nas últimas semanas ordenou às grandes empresas de tecnologia do país que não liberassem seus modelos mais poderosos para empresas e governos estrangeiros. Aliás, o modelo que atacou os arquivos da Hugging Face, o GPT-5.6 Sol, é um deles.

"Esta história muda o paradigma da cibersegurança", continua Taddeo: "Agora sabemos com certeza que o que considerávamos fortalezas digitais têm paredes de papelão reforçadas por IA. É uma tecnologia sobre a qual temos pouco controle, e os ataques se tornarão cada vez menos previsíveis e mais disseminados. Isso também se deve a um arcabouço regulatório que, em nível internacional, é deliberadamente indefinido. Não há responsabilidades claras porque o Ocidente sempre se considerou o líder e quis ter carta branca. Agora o cenário mudou, e precisamos de regras que regulem o comportamento de cada Estado e de padrões tecnológicos que protejam a infraestrutura crítica. Porque um ataque ao arquivo de um programador é uma coisa, mas invadir o sistema de um banco ou hospital é outra bem diferente."

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