Os lefebvrianos "têm grande força midiática, mas continuam sendo uma seita". Entrevista com Daniele Menozzi

Foto: Pixabay

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04 Julho 2026

“À luz do direito canônico, não há dúvidas: a consagração de um bispo sem o consentimento do Papa constitui uma violação de uma norma que acarreta a excomunhão. Portanto, a responsabilidade pela ruptura recai sobre a comunidade lefebvriana que, ciente da legislação vigente, a violou deliberadamente." O historiador Daniele Menozzi, professor emérito da Scuola Normale Superiore de Pisa e especialista na história da Igreja nas eras moderna e contemporânea, explica ao il manifesto o novo cisma dentro da Igreja Católica.

A entrevista é de Luca Kocci publicada por il manifesto, em 02-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Além da Missa em latim, o que divide Roma de Ecône?

Tudo se resume à recusa, por parte dos lefebvrianos, do Concílio Vaticano II; do qual contestam, especificamente, três documentos: a Constituição Dogmática sobre a Igreja, pois acreditam que a colegialidade episcopal como forma de governo da Igreja universal comprometeria o primado petrino, ou seja, a autoridade do Papa; o Decreto sobre a Liberdade Religiosa, que questiona aquele Estado confessional que para eles constitui o modelo ideal de relação entre religião e poder; e o Decreto sobre o Ecumenismo, que abriria caminhos para a salvação também para os membros de comunidades não católicas.

Trata-se de um novo cisma?

Em 1988, a excomunhão de Dom Marcel Lefebvre por João Paulo II havia determinado um primeiro cisma. No entanto, a decisão de Bento XVI de revogar a excomunhão, visando à reconciliação com os tradicionalistas, havia limitado a irregularidade canônica dos lefebvrianos à suspensio a divinis. Agora, a consagração de novos bispos sem o consentimento de Roma determina automaticamente o retorno a uma situação cismática.

Qual tem sido a postura do Vaticano em relação aos lefebvrianos nos últimos anos?

Bento XVI tinha se iludido de poder recuperar a unidade por meio de uma série de concessões, algumas bastante confusas, como a equiparação entre os ritos pré-conciliar e pós-conciliar ou reformulação de uma nova oração pela conversão dos judeus na Sexta-Feira Santa. Esses esforços, contudo, fracassaram diante da recusa dos lefebvrianos em reconhecer a autoridade da Santa Sé quanto à interpretação correta dos documentos conciliares. Apesar disso, Roma manteve aberto um canal de diálogo, embora este tenha sempre esbarrado contra a recusa da Fraternidade Sacerdotal São Pio X em atribuir a qualquer outro sujeito exceto a si mesma a autêntica interpretação do Vaticano II.

Um contrassenso?

Os tradicionalistas não parecem perceber a contradição em uma postura que denuncia o desvio da primazia papal e que depois recusa a obediência ao Pontífice.

Como Prevost se posiciona em relação aos seus antecessores?

Por enquanto, ele segue os passos de João Paulo II e Francisco: mantendo-se disposto ao diálogo na tentativa de sanar a ruptura, sem, contudo, questionar o respeito ao direito canônico e, acima de tudo, à autoridade do Papa em questão doutrinal.

Qual o peso dos lefebvrianos na Igreja?

Trata-se de um grupo numericamente insignificante, mas que dispõe de recursos financeiros substanciais e considerável força midiática, especialmente nos novos meios de comunicação. Utilizam essas ferramentas para "reinformar", isto é, transmitir notícias sobre a vida da Igreja, manipulando ou distorcendo o significado dos fatos. De fato, apresentam a atualização da relação entre a Igreja e o mundo moderno como uma capitulação da Igreja diante deste último. Do ponto de vista cultural, a sua posição é inconsistente: confundem o intransigentismo oitocentista com a bimilenar tradição católica.

E do ponto de vista político?

Aqui, encontram o consenso de grupos que visam apagar o respaldo do catolicismo às conquistas fundamentais do mundo moderno: direitos humanos, liberdade religiosa e democracia. Buscam transformar a religião em um veículo para a restauração de uma sociedade organicista e hierarquicamente ordenada.

As direitas apoiarão o cisma?

A onda conservadora-reacionária que varre o planeta, alimentada pelo complexo militar-industrial-tecnológico, está interessada em dar palanque a qualquer expressão que possa desmantelar a modernidade democrática; assim, é provável que será utilizado exatamente para esse fim.

A ruptura se ampliará?

Os lefebvrianos esbarram contra um obstáculo intransponível: seu arranjo teológico os torna incapazes de transmitir a mensagem cristã aos homens de hoje. Poderão até alcançar algum sucesso, mas continuarão sendo o que são: uma seita sem possibilidade de conferir alcance universal à sua pastoral.

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