'Apocalipse nos Trópicos' acerta ao se aproximar de Silas Malafaia. Artigo de Inácio Araujo

Silas Malafaia | Foto: Reprodução/YouTube/Silas Malafaia

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14 Julho 2025

"Saímos do cinema mais ou menos como chegamos: convencidos de que desta vez Petra Costa realizou um feito, ao se aproximar de Malafaia a ponto de ele desnudar seu pensamento — e ele tem um pensamento"

O comentário é de Inácio Araujo, crítico de cinema, publicado por Folha de S.Paulo e reproduzido por André Vallias em seu Facebook, 11-07-2025.

Eis o artigo.

Em "Apocalipse nos Trópicos", Petra Costa realiza um feito que precisa ser reconhecido — ela consegue não apenas chegar até Silas Malafaia, pastor e líder neopentecostal e convicto, além de "direitopata", para usar sua terminologia.

Mais, Petra Costa permite que ele mesmo se revele, com suas palavras, e se assuma como uma espécie de iluminado que traz a nós a palavra do Evangelho, quer dizer, a sua interpretação do Evangelho. Para resumir, Malafaia mais parece um candidato a Khomeini dos trópicos que outra coisa.

Com efeito, a primeira parte do filme é um tanto assustadora: trata-se de notar o quanto Malafaia ensaia tornar o Brasil, oficialmente, um Estado teocrático.

Digo oficialmente porque a primeira coisa que os portugueses fizeram, chegando ao Brasil, foi rezar uma missa. De lá para cá, o Estado tornou-se laico, mas a catolicidade imperou soberana até mais ou menos o final dos anos 1980, quando foi desafiada pelos neopentecostais.

Se a Igreja Universal espalhou o credo com sábio aproveitamento da televisão, Malafaia fez um angu em que fé e política tornam-se em definitivo uma coisa só.

Depois de Malafaia expor seu pensamento, Petra Costa nos leva à vaca fria, ou seja, àquilo que já conhecemos — a ligação dele com Bolsonaro, que ao menos no filme parece reduzido a uma espécie de boneco de ventríloquo. Malafaia é quem fala grosso, a palavra absolutista, ou antes, "a Palavra", aquela que supostamente vem de Deus.

É ele quem bota a faca na garganta do então presidente para escolher fulano e não beltrano para o STF. É ele que, no fim, quando Bolsonaro vai para Miami, espinafra o pupilo e diz que ele não é um líder de verdade.

No filme, é verdade, podemos ver que nem todos os pastores são "direitopatas" etc. Mas ninguém explica exatamente o que é esse credo.

O ponto de vista de Malafaia fica claro durante uma de suas pregações. Ele quer uma geração "que faça a diferença" — fazer a diferença é um postulado neoliberal bem individualista que ele transforma em dinâmica geracional — e transforme a história do país.

Ao longo das muitas cenas do teatro eleitoral, algumas bem manjadas, outras menos, o discurso se desloca lentamente para as belezas da democracia, para os pecados, para Jesus Cristo segundo Pasolini e outras variações, antes de chegar ao que realmente importa: o 8 de janeiro e o que o precedeu, ou seja, a vasta instigação golpista.

Nessa altura, sai de cena Malafaia. Quem passa a dominar é a voz lacrimosa da autora, que explica e defende as maravilhas da democracia e promove umas interpretações do livro do Apocalipse, de São João. No final, o filme parece envolver o combate entre duas vozes — a enérgica, autoritária, de Silas Malafaia, e a suave, indefesa e, sobretudo, choramingas de Petra Costa.

Saímos do cinema mais ou menos como chegamos: convencidos de que desta vez Petra Costa realizou um feito, ao se aproximar de Malafaia a ponto de ele desnudar seu pensamento — e ele tem um pensamento.

Ficha técnica

Apocalipse nos Trópicos * * *

Quando Nos cinemas e a partir de 14 de julho na Netflix

Classificação 14 anos

Produção Brasil, 2024

Direção Petra Costa

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