O problema da esquerda. Artigo de Manuel Castells

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10 Janeiro 2025

“As redes sociais não são as culpadas pela derrota da esquerda, mas, sim, a incapacidade da esquerda de vencer nas redes a batalha dos valores de uma nova sociedade, ao mesmo tempo em que reafirma a proteção social do Estado de bem-estar social”, escreve Manuel Castells, sociólogo espanhol, em artigo publicado por La Vanguardia, 04-01-2025. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O problema da esquerda, no âmbito internacional, é a sua difícil adaptação a sociedades em plena transformação no ecológico, no tecnológico, no cultural e no político. E se apega a marcos mentais, ideologias e táticas que não se conectam com a maioria das pessoas. Em particular, com os jovens, que sempre foram os atores da mudança social.

A vitória de Trump marca uma mudança de época que vai além dos Estados Unidos, porque em torno da sua liderança se constituiu um bloco histórico que inclui a maioria da classe operária branca, Wall Street, o Vale do Silício (pela primeira vez) e uma maioria de homens brancos, incluindo profissionais, que se veem questionados em seu patriarcado e alarmados pela imigração.

No entanto, os democratas continuam disputando a magnitude dessa vitória, ainda que o trumpismo ganhou o voto popular, esmagadoramente o Colégio Eleitoral e obteve a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, além de controlar a Suprema Corte. Muitos mitos foram quebrados.

Kamala Harris gastou o dobro de Trump na eleição, chegando a 1,5 bilhão de dólares em poucas semanas. As feministas descobriram que o direito ao aborto não importava para a maioria e que 62% das mulheres brancas não universitárias votaram em Trump.

A guinada social para a extrema direita é uma tendência mundial. Fenômenos semelhantes estão ocorrendo em todo o mundo, com uma classe política crescentemente deslegitimada e classes populares que se sentem marginalizadas pelos vencedores da globalização e que desconfiam das instituições políticas nacionais e internacionais.

É a hora dos antissistemas de extrema direita. Como explicar que um cara como Milei tenha sido eleito com 56% dos votos? Ou a força de um golpista como Bolsonaro, contido a duras penas por Lula e um corajoso Supremo Tribunal? Ou a natureza efêmera da vitória presidencial de Boric no Chile, quando se tentou aprovar uma Constituição utópica rejeitada por 60%. E a hegemonia de Orbán na Hungria e de seus correligionários na Eslováquia e talvez na Romênia. Com Meloni governando na Itália, Le Pen ameaçando na França, a extrema direita pujante na Escandinávia e a AfD podendo condicionar o futuro governo democrata-cristão na Alemanha.

Na Espanha, Pedro Sánchez resiste porque existe uma social-democracia com raízes históricas, mas à sua esquerda vão se fragmentando as forças da mudança que persistem em afirmar valores louváveis com pouco apoio social no momento, enquanto lutam entre si. É que a transformação social não se declara, pratica-se, vencendo a batalha das mentes, com paciência, falando com os cidadãos, intervindo nas redes, no espaço de comunicação do nosso tempo, construindo essa hegemonia cultural sem a qual a aceleração da mudança termina em fracasso.

O vanguardismo progressista foi respondido por uma coalizão anti-woke que distorceu um termo que fazia alusão ao despertar da consciência das pessoas. Nada substitui políticas sociais e econômicas em prol das pessoas, autêntica marca da esquerda. Ainda que se não resolve o problema da moradia, perde a credibilidade entre os jovens. Mas não basta se isso se mistura com uma revolução cultural confusa que não se conecta com a vivência majoritária dos cidadãos. Não é só a economia, estúpido. É a ideologia e a ética para voltar a acreditar em uma política que, hoje, é percebida como um jogo cínico de poder e manipulação.

Confiar tudo ao Estado é esquecer que o público costuma ter uma conotação de burocracia e corrupção. As redes sociais não são as culpadas pela derrota da esquerda, mas, sim, a incapacidade da esquerda de vencer nas redes a batalha dos valores de uma nova sociedade, ao mesmo tempo em que reafirma a proteção social do Estado de bem-estar social.

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