Cálculos humanos ou a certeza de Deus. O futuro depende da esperança. Artigo de Pierangelo Sequeri

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09 Janeiro 2025

"Será que este ano do jubileu, olhando para esses sinais dos tempos, não poderia ser uma boa oportunidade para pôr fim à antiga disputa entre razão e fé, que acumulou - em ambos os lados (a democracia civil e a fraternidade eclesial) - até mesmo bolsões de ignorância e inércia intelectual de embaraçoso perfil? Comunidades extenuadas pelas guerras e postas de joelhos pelo empobrecimento merecem a “saída” dos intelectuais de suas batalhas de retaguarda", escreve o teólogo e padre italiano Pierangelo Sequeri, ex-presidente do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família (2016-2021) e consultor do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, em artigo foi publicado por Avvenire, 05-01-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Segundo ele, "a esperança cristã não é esperar “que Deus nos dê sorte” ou a chance de uma “aposta vencedora na loteria”. A esperança cristã não é probabilidade dos cálculos do homem, é certeza das possibilidades de Deus: nos ensina a buscá-las, a reconhecê-las, a apostar nelas como os talentos da parábola".

Eis o artigo.

O Concílio tinha como objetivo a atualização da Igreja. A evidência mais significativa do que resultou foi a reforma da teologia, que por si só não estava no topo da agenda. No final, por tentativa e erro, ganhamos uma linguagem mais aberta, mais existencial e mais criativa da fé e da compreensão da fé.

Decididamente mais modesta foi, a despeito do fervor de reanimação prodigalizado pela geração pós-conciliar, a atualização do ministério pastoral, da prática sacramental e da vida comunitária da paróquia: isto é, para aquelas condutas que definem a normalidade de época da forma eclesial. Podemos ver que, para uma reforma eclesial capaz de habitar o presente, não estávamos tão prontos quanto pensávamos. Isso é demonstrado pelo fato de que, em relação ao Concílio, agora mesmo o Sínodo dos Bispos está lidando com isso do zero, graças ao impulso radical para a ativação de uma Igreja Sinodal que veio do Papa Francisco.

O que permanece em evidência é o fato de que o maior problema da Igreja parece ser a reforma da Igreja: uma questão sobre a qual estamos lutando desde meados do segundo milênio. Na contemporaneidade, pela segunda vez, embora com um diâmetro reduzido - de direito e de fato - em comparação com o evento conciliar, o evento sinodal coloca em foco a necessidade de uma transformação do ministério, do sacramento, da comunidade, em vista da missão. Uma orientação necessária e até corajosa, sem dúvida. Mas, cultivada sozinha, temo que não será suficiente nem mesmo desta vez.

(Apesar do enorme impulso de generosidade despendido no período pós-conciliar, o ministério, o sacramento e a comunidade voltaram docemente a se reassentar aos padrões de minha infância pré-conciliar). Há algo que precisa ficar mais evidente, para ser enfrentado no contexto do tema da “reforma” da Igreja. Caso contrário, a recaída do fervor espiritual da fé no círculo vicioso da autorreferencialidade é inevitável. (Afinal, olhando bem, todos os temas “candentes” do Sínodo são, sem exceção, problemas da reforma clerical: sua relação com o gênero masculino, sua consagração à dedicação celibatária, a forma e os limites de seu poder de governo, o nexo do ministério petrino e episcopal).

Em suma, o foco exclusivo na “reforma” eclesial, que também se propõe tornar a “missão” mais eficaz, corre o risco de ser - pela terceira vez - um diafragma que obscurece e distancia o nosso interlocutor, em vez de iluminá-lo e aproximá-lo. Um verdadeiro paradoxo. O embelezamento da Igreja, que anda de mãos dadas com a obsessão por sua atratividade, não deve dominar as nossas paixões, os nossos discursos, as nossas práticas. Uma Igreja que cuida da limpeza da pessoa e exibe uma beleza “água e sabão” já nos faria sonhar.

O resto virá com a paixão desinteressada do testemunho e com a generosidade incondicional da intercessão: porque a Igreja é formada - e reformada - quando se esquece de si mesma para lembrar à comunidade humana o seu grandioso destino. Nesse momento, é belíssima.

O vínculo da fé evangélica no amor de Deus com o governo clerical da existência humana se desvanece: não apenas na esfera política, mas também na forma eclesial da fé. A comunidade de discípulos deve se despedir do modelo de uma sociedade paralela à sociedade civil, competindo com ela pela direção ético-política da história. Até agora, esse modelo constituiu o seio e a incubadora, aguardando o desmame. Chegou a hora do alimento sólido.

As instituições comunitárias da fé, moldadas pela inscrição da vida coletiva no modelo de uma direção “senhorial”, não são mais capazes de conter o sujeito “pessoal” da liberdade, do amor, da justiça, que o próprio cristianismo gerou para todos. Não são, porque aquela ordem não funciona mais nem mesmo para a cidade secular: só se pode tentar restaurá-la por meio da imposição e até mesmo da violência, como vemos agora acontecer em muitos lugares. Sua tentativa de se restabelecer no presente é muitas vezes horrível e nos assusta: mas não tem futuro.

Aprendemos a chamar de “democracia” o sinal da ruptura com a ordem senhorial do direito e do bem. E agora chamamos de “fraternidade”, timidamente e não sem algum constrangimento, o sinal do afastamento da contraposição entre os cristãos que apenas comandam e aqueles que apenas obedecem. Ninguém se ofenderá, nos dias de hoje, se reconhecermos que ainda não temos uma real compreensão da virada (esta sim, realmente significativa) e um equipamento adequado para a tarefa de pensar sobre ela e a habitar.

A virada mostra que ela é necessária: tanto a democracia civil quanto a fraternidade eclesial têm suas vulnerabilidades. E o tempo presente mostra claramente sua potencial inclinação para percorrer derivas de contradição. Talvez tenhamos pensado que a definição era suficiente, para ter também a coisa. Errado. Precisamos voltar a ser mais humildes e reconhecer que nossa filosofia e nossa teologia subestimaram demais a magnitude da virada, que exige uma reflexão séria e a invenção de categorias infinitamente mais refinadas do que aquelas de que dispomos.

A súbita percepção de que não temos nem uma nem outra à nossa disposição está nos levando ao desânimo e - até mesmo - à resignação. Temos que nos jogar sem medo, como costuma se dizer: e já estamos atrasados. A esperança cristã não é esperar “que Deus nos dê sorte” ou a chance de uma “aposta vencedora na loteria”. A esperança cristã não é probabilidade dos cálculos do homem, é certeza das possibilidades de Deus: nos ensina a buscá-las, a reconhecê-las, a apostar nelas como os talentos da parábola. A urgência dessa busca hoje apresenta traços dramáticos (não podemos perder tanto tempo pintando a casa). Mas ela também oferece sinais positivos, sem precedentes e insuspeitados. Todos os dias, há alguns anos, tem acontecido que mentes brilhantes na cidade secular, independentemente de qualquer disciplina eclesiástica, declaram explicitamente e de muitas maneiras, que a remoção do evangelho, da fé, do testemunho cristão já é o início de uma catástrofe para o humanismo planetário.

O ano do jubileu, simbolicamente, fala do descanso da obsessão produtiva, do perdão da dívida e da reconciliação de antigas contendas. Será que este ano do jubileu, olhando para esses sinais dos tempos, não poderia ser uma boa oportunidade para pôr fim à antiga disputa entre razão e fé, que acumulou - em ambos os lados - até mesmo bolsões de ignorância e inércia intelectual de embaraçoso perfil? Comunidades extenuadas pelas guerras e postas de joelhos pelo empobrecimento merecem a “saída” dos intelectuais de suas batalhas de retaguarda. Que eles se empenhem em buscar as possibilidades do homem e as possibilidades de Deus, em um espírito de aliança (imaginem se a escola, que está vergonhosamente abandonando o humanismo, fosse isso!). Em vez de explicar meticulosamente o poder salvífico da incerteza sobre tudo, os intelectuais deveriam pensar mais nos jovens, que, quando não são induzidos a se matar pelos xamãs da religião e pelos senhores da guerra, agora também se matam sozinhos.

Entretanto, até mesmo o buraco negro aberto pelo colapso cultural e social da proximidade de Deus - sem pensamento, sem cultura, sem decência - deve ser fechado. A individualidade da opinião se expandiu para ocupar toda a cena: “um vale um”. E ninguém escuta mais ninguém. A sociedade humana afunda, pura e simplesmente, se perder todo o respeito pelas testemunhas do conhecimento há muito confirmado, do pensamento de mais alto perfil, do amor verificado pelo bem comum. A ideia de que as ideias e as condutas que moldam o humanismo de hoje sejam aquelas da publicidade comercial e dos influenciadores de estilo de vida deve gerar mais desânimo. Irremediavelmente, o fundamentalismo religioso e o soberanismo agressivo ocuparão o lugar deixado vago pela indecorosa mediocridade cultural imposta às novas gerações. O efeito de uma educação humanística inexistente será descontado de uma inconsciente regressão tribal, mesmo em sociedades que se consideram altamente evoluídas tecnológica, econômica e até juridicamente. A regressão, em um contexto de riqueza intelectual e material tão facilmente compartilhável como o nosso, é particularmente desprezível. As guerras de religião e civilização, de conquista e represália, bem como a intolerância e a agressividade que estão se “normalizando” nas relações microssociais, terão de ser descontadas de uma penitência que precisará de muita indulgência: de Deus e do próximo.

Muita mesmo, e de joelhos. Já aconteceu. Voltará a acontecer.

A última das possibilidades de Deus, da qual a esperança cristã tem certeza, é a ressurreição da morte para uma vida reconciliada: na qual nenhuma dívida fica sem pagamento e todas as vítimas são pontualmente ressarcidas. A humanidade não é a aposta da religião mais colonizadora da história, é a pupila da compaixão mais pungente de Deus.

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