O caos da enchente, para que serve a religião? Artigo de Jung Mo Sung

Foto: Gustavo Mansur | Palácio Piratini

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14 Mai 2024

"A ordem social é entendida, não como algo produzido pelas relações sociais, mas como resultado da vontade dos deuses ou do Deus; portanto imutável", escreve Jung Mo Sung, teólogo e cientista da religião.

Eis o artigo. 

Por que há tantos padres e pastores pregando que este desastre das enchentes no Rio Grande do Sul (ocorrendo também em China e nos Estados Unidos) são punições de Deus? E por que tantos fieis aceitam esse discurso de castigo de Deus? Porque faz sentido e lhes é útil (funciona), aos pregadores e fieis. Esse é o segredo do “sucesso” da religião.

Além das mortes, sofrimentos e perdas de bens materiais, o que esse caos da enchente no Rio Grande do Sul nos tirou? O senso de ordem.

Nós humanos, para vivermos, precisamos de um senso de ordem para que possamos entender o que um objeto, um fato ou ações é ou significa para poder agir, avaliar, corrigir e aperfeiçoar. Tudo isso pressupõe que esteja no interior de um sistema ordenado. Sem ordem pressuposta (ordem social-cultural ou sistema operacional), não podemos entender, agir e, portanto, viver. Por exemplo, no Brasil, normalmente as pessoas acordam pela manhã, escovam os dentes, e tomam café com pão na cozinha. Mas, se um dia, de manhã, as pessoas forem chamadas a comer, no banheiro, um prato cheio de macarrão com molho vermelho e ardido, vai ser uma manhã estranha e confusa. Situações de caos ou de profunda desordem nos dá muito medo, ou até mesmo o senso de loucura.

Por isso, a humanidade, desde a sua origem, lutou para criar e manter a ordem, que é uma construção social e, portanto, sempre instável. Essa contradição intrínseca entre o desejo de que a ordem seja perfeitamente estável e a realidade da sua instabilidade foi resolvida com a invenção da religião, que esconde o caráter histórico, provisório, da ordem.

A religião, com a distinção fundamental entre o sagrado e o profano, estabelece a organização do lugar, tempo e pessoas. Com essa lógica do sagrado e profano, a religião, ou a sociedade fundada na religião, organiza e hierarquiza as relações entre pessoas e grupos sociais e a relação com a natureza e “cria” uma ordem imutável. Nesse processo estabelece e justifica, em nome do sagrado, a distribuição do poder, privilégios e deveres. Isto é, a ordem social é entendida, não como algo produzido pelas relações sociais, mas como resultado da vontade dos deuses ou do Deus; portanto imutável.

É como se tivesse ocorrido uma aliança entre Deus e a humanidade, onde Deus diz: não questione a ordem que eu lhes dei, com as minhas leis, e vocês estarão salvos do caos e da loucura. Tanto no mundo antigo quanto no moderno, a noção de ordem, de ordenamento, pressupõe um autor da ordem ou um ordenador. (É só com a teoria complexidade ou da teoria de ordem espontânea, autopoiese, que surge uma visão alternativa.) Na visão da maioria das igrejas cristãs, Deus é esse ordenador ou o “todo poderoso” que tem o controle da natureza e da história. (No mundo moderno, a visão de ordem medieval foi substituída por uma ordem dinâmica e progressiva, com o mito do “progresso”, com a mesma certeza de que a história ou o universo já está escrito.)

Quanto mais “desordem” (como novas tecnologias, – como rede social, inteligência artificial ...– que desorganizam a vida econômico-social da grande maioria da população, crise ambiental, novas teorias de gênero e novas formas de família...), mais medo e mais desejo de recuperar o senso de ordem, a da visão religiosa tradicional, estabelecido por Deus. No meio dessa “confusão”, mais um problema, o caos das enchentes.

Afinal, Deus está no controle ou não? A fé, ou o desejo, de que Deus está no controle da história e do mundo não é uma questão de ser da direita ou esquerda, ser conservador ou progressista ou de libertação. Conservador pensa a ordem divina na perspectiva da ordem a preservar; e os progressistas e de libertação na perspectiva da ordem futura. Todos a partir da visão de um Deus “ordenador”, que tem controle da história.

No caso específico das enchentes, a pergunta das pessoas religiosas “conservadoras” é: qual ou quais são os pecados que Deus está punindo por meio das enchentes? Para essa perspectiva, reconhecer e aceitar a punição de Deus é uma condição para que nos arrependemos e, assim, recuperemos a ordem em perigo. Essa teologia ou esse tipo de religião faz sentido e ajuda as pessoas mais simples e pobres a sobreviverem um dia de cada vez.

Frente à essa teologia que domina na maioria das igrejas, alguém poderia dizer: Jesus nos ensinou que Deus é misericordioso e não pune, perdoa. Ótimo! Só que essa afirmação, que também penso que é mais correta, traz um outro problema: é um Deus que não tem controle da história e da natureza. E se Deus não tem esse controle, nem da história, como a libertação dos pobres e a justiça estão “garantidas” na história?

Em outras palavras, para que serve a religião na vida concreta das pessoas? Para que ensinar a importância do sagrado e das religiões nos dias de hoje se é verdade que Deus não tem poder e controle?

Sem respostas adequadas, podemos cair na tentação de “falar mal dos teologicamente ignorantes”, sendo, ao mesmo tempo, ignorantes do uso da religião na vida das pessoas. Para criticarmos a teologia dapunição” e da ordem de Deus, precisamos levar a sério a teologia daencarnaçãode Jesus: Deus veio ao mundo esvaziado do seu poder divino (Fl 2,6-7).

O que significa anunciar, não a religião com suas categorias do sagrado-profano, mas a fé no caminho de Jesus. Isto é, o caminho de compaixão, cruz e amor aos que sofrem. Um tipo de discurso e práticas religiosas humanas que não tem muito “mercado” nos dias de hoje.

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