Israel arma os autocratas do mundo com armas testadas em palestinos

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29 Novembro 2023

“No Ocidente, Israel é visto como uma ‘democracia próspera, embora sitiada’, aliada aos Estados Unidos contra o extremismo. Mas se olharmos para além da retórica, vemos, em vez disso, um Estado étnico beligerante que tem todo interesse em armar e treinar outros Estados étnicos beligerantes – uma simbiose sombria mantida em nome da necessidade geopolítica e do interesse econômico”. A reflexão é de Sam Russek, publicado por The New Republic e reproduzido por Alencontre, 27-11-2023. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Foi um genocídio que muitos líderes mundiais tentaram ignorar. Na Primavera de 1994, ao abrigo da guerra, os extremistas hutus de Ruanda começaram a exterminar a população vizinha da etnia tutsi, matando mais de 800.000 civis e forçando cerca de 2 milhões de pessoas a fugir do país. No início desta campanha mortal de 100 dias, as Nações Unidas desencorajaram o envolvimento internacional, chamando-o de “conflito interno”. Contudo, quando a opinião pública ocidental percebeu o que estava acontecendo, muitos países enviaram ajuda.

Naquele Verão, o presidente Bill Clinton – que tinha hesitado apesar dos avisos da embaixada local dos EUA sobre massacres iminentes – finalmente pediu ao Congresso 320 milhões de dólares em ajuda. Yossi Sarid, ministro israelense do Ambiente [de 1992 a 1996 – membro do Meretz], chegou a Ruanda com uma delegação médica para ajudar os sobreviventes. Segundo o jornalista Antony Loewenstein, a iniciativa de Yossi Sarid foi, no entanto, apenas uma fachada, porque “antes e durante o genocídio”, mesmo depois do embargo decretado pela maioria dos países, o governo israelense tinha enviado armas para as forças hutus – metralhadoras Uzi e fuzis de assalto Galil, granadas e munições – em diversas remessas no valor de vários milhões de dólares.

Esta não foi a primeira nem a última vez que as armas e os equipamentos tecnológicos israelenses caíram em mãos malignas. No seu emocionante relato, The Palestine Laboratory: How Israel Exports the Technology of Occupation Around the World (Verso, maio de 2023), Antony Loewenstein analisa as exportações de Israel de material de guerra moderno para a junta fascista de Augusto Pinochet no Chile, o tirânico do Irã, o os genocidas guatemaltecos (onde a direita do país apelou abertamente à “palestinização” dos indígenas maias – entre 1981 e 1983) e, mais recentemente, os regimes autoritários da Rússia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Hungria, Índia e Azerbaijão, que fez uma limpeza étnica de milhares de armênios no sudoeste do país no início deste ano (Times of Israel, 5-10-2023).

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Em 2022, os Estados Unidos controlavam cerca de 40% das exportações globais de armas, quase cinco vezes mais do que qualquer outro país. Mas Israel, um país “em pleno deserto” menor que Massachusetts, também está entre os dez maiores exportadores de armas do mundo. Nos últimos anos, registrou um aumento recorde na sua cota de mercado, que ascende a milhares de milhões de dólares. “Israel é praticamente o único país entre as autodenominadas democracias a não condenar ou sancionar as atrocidades cometidas em todo o mundo”, observa Antony Loewenstein.

Israel vende para praticamente qualquer pessoa, com um discurso desconcertante: o seu equipamento é “testado em combate”, “testado em campo” [referência à publicidade da Elbit Systems, uma empresa fundada em 1967, com sede em Haifa] – montado para ser usado no bloqueio de Gaza e na ocupação da Cisjordânia, depois vendido para todo o mundo. Às vezes, os clipes promocionais usam vídeos reais de ataques de drones contra alvos militares. Andrew Feinstein, um especialista na indústria de armas ilícitas, que determinou que um desses clipes mostrava uma série de crianças palestinas assassinadas do céu, disse: “Nenhum outro país produtor de armas ousaria mostrar tais imagens”.

Quando o livro de Antony Loewenstein foi publicado em maio de 2023, recebeu pouca cobertura da mídia. Mas encontrou um novo impulso no contexto da guerra em curso. (Como a situação no Oriente Médio evoluiu muito rapidamente, algumas passagens do livro Laboratório Palestina de repente parecem um pouco desatualizadas. Por exemplo, Loewenstein cita uma pesquisa israelense de 2021, segundo a qual a maioria dos cidadãos judeus “não estão muito preocupados com a resolução do conflito com os palestinos”.) No entanto, muitas das informações contidas neste livro são surpreendentemente premonitórias.

No Ocidente, diz Loewenstein, Israel é visto como uma “democracia próspera, embora sitiada”, aliada aos Estados Unidos contra o extremismo. Mas se olharmos para além da retórica, vemos, em vez disso, um Estado étnico beligerante que tem todo interesse em armar e treinar outros Estados étnicos beligerantes – uma simbiose sombria mantida em nome da necessidade geopolítica e do interesse econômico.

“Os nossos amigos podem matar e mutilar com total impunidade”, escreve Antony Loewenstein, referindo-se aos amigos dos Estados Unidos e do Reino Unido: Arábia Saudita, Egito e Israel. Em 21 de novembro, um acordo de troca de reféns permitiu suspender o cerco israelense a Gaza durante pelo menos quatro dias, mas o fim da guerra está longe de estar à vista. À medida que as pessoas em todo o mundo relatam sentir que o mundo está ficando mais perigoso, as indústrias da guerra moderna cresceram juntamente com o número de governos nacionalistas, para não mencionar os refugiados que enviam de volta aos seus países de origem.

Para além do seu plano de supostamente conter a Palestina, Israel considera que o seu papel de armar os autocratas e as agências de fronteiras do mundo [a Frontex, por exemplo] e a produção de softwares espiões é essencial para a sua existência, assim como a própria tecnologia ajuda outros Estados a alcançar a sua própria implementação prática de “segurança” – por mais sangrenta que seja – num mundo cada vez mais desestabilizado.

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Como podemos resumir quase um século de conflitos e negociações de paz entre sionistas e palestinos – da industrialização e expulsão [de palestinos], do nascimento de uma “ordem internacional baseada em regras”, de guerra, de ocupação, de boom das indústrias pontocom? Para isso, Antony Loewenstein começa contando sua própria história. Ele cresceu numa comunidade “liberal sionista” em Melbourne – os seus avós fugiram dos nazistas em 1939 e chegaram à Austrália como refugiados –, mas sentiu-se desconfortável com o “racismo explícito contra os palestinos que ouvia e com o apoio incondicional a todas as intervenções israelenses”. Esse desconforto o levou a se interessar por Israel, que cobre há mais de 10 anos, vivendo em Israel de forma intermitente. “Faz sentido ver Israel como um porto seguro em caso de conflito futuro para o povo judeu”, lembra, mas a segurança de um homem é a sentença de morte para outro.

“Em 2021, Eli Pinko, primeiro e ex-diretor da Agência de Controle de Exportação de Defesa de Israel, disse: ‘Ou são os direitos civis de um país ou o direito de Israel existir. Gostaria que cada um de vocês enfrentasse este dilema e dissesse: ‘Não, nós defenderemos os direitos humanos em outro país’”. Com esta ética, a economia israelense rapidamente “abandonou as laranjas pelas granadas”, como observou um crítico. Após a Guerra dos Seis Dias em 1967, quando o país de 19 anos lançou um ataque preventivo contra os seus vizinhos – tomando a Cisjordânia, Gaza, Jerusalém Oriental e as Colinas de Golã –, começou uma nova era na política israelense.

Segundo Antony Loewenstein, estas iniciativas colocaram o país “num caminho militar que nunca parou”, embora, para ser justo, Israel não estivesse sozinho neste terreno. Seis anos antes, Dwight Eisenhower tinha alertado para os perigos de um complexo militar-industrial dos EUA no seu discurso de despedida [17 de janeiro de 1961]. Seria errado encarar este termo pomposo como simplesmente representando um problema nacional. Pelo contrário, estes dois complexos – estadunidense e israelense – desenvolveram-se de forma interdependente dentro de um sistema mais amplo.

A África do Sul [do apartheid] estava do seu lado. Alguns especialistas ficam indignados quando os críticos comparam o Israel moderno ao antigo Estado do apartheid, apontando diferentes particularidades. Contudo, é inegável que na década de 1970 Israel selou um acordo militar e de segurança com a África do Sul que continuou secretamente durante décadas. Alon Liel, chefe do gabinete do Ministério de Relações Exteriores de Israel na África do Sul durante a década de 1980, escreveu recentemente que Israel “criou a indústria de armamento sul-africana” e que, em troca, a África do Sul ajudou a financiar a tecnologia israelense.

“Quando desenvolvíamos coisas em conjunto, geralmente oferecíamos o know-how e eles davam o dinheiro. Esta parceria permitiu a Israel [além da cumplicidade da França] desenvolver o seu arsenal nuclear”, explica Antony Loewenstein; tornou-se o único país da região a possuir as suas próprias armas nucleares. (Apesar dos apelos dos grupos de não-proliferação nuclear, os Estados Unidos permitem que a Turquia [membro da OTAN] possua cerca de cinquenta armas nucleares, a poucos passos da Rússia e do Irã.)

Israel foi o último país do mundo [juntamente com a Suíça] a manter laços estreitos com o regime do apartheid. Um antigo anuário do governo sul-africano explica o que une “acima de tudo” os dois países: ambos estão “localizados num mundo predominantemente hostil, habitado por povos de pele escura”. Décadas mais tarde, surpreendido por um microfone deixado ligado, Netanyahu repetiu este sentimento durante uma reunião [em julho de 2018] com o primeiro-ministro húngaro de extrema-direita, Viktor Orbán: “A Europa termina em Israel. Ao leste de Israel já não existe mais Europa”.

Durante a mesma conversa, Netanyahu criticou a União Europeia, o maior parceiro econômico de Israel, por impor condições ainda tímidas ao comércio para encorajar negociações de paz com os palestinos – condições que não impediram a UE de confiar cada vez mais na tecnologia israelense de vigilância para a segurança das fronteiras [1], mas que constituem, no entanto, para Netanyahu, uma bofetada na cara.

No entanto, sejam quais forem as reservas de alguns políticos europeus sobre o tratamento dispensado por Israel aos palestinos, a UE não teve problemas em justificar a utilização da tecnologia de vigilância fronteiriça israelense contra migrantes provenientes da Síria, da Líbia e do Afeganistão. Mais recentemente, países como a Alemanha aumentaram as vendas de armas a Israel para apoiar o seu esforço de guerra. “Os palestinos têm sido as cobaias da tecnologia e da vigilância israelense”, diz Antony Loewenstein. E a UE considerou estas ferramentas de “contenção” “como um sucesso a ser replicado no seu próprio território”.

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O mesmo se aplica aos Estados Unidos. Hoje, as ferramentas de vigilância israelenses na nossa fronteira com o México (e na fronteira da Guatemala com Honduras) são utilizadas para deter e reprimir os migrantes oriundos da América Central e do Sul. Na verdade, depois do 11 de setembro de 2001, Israel tornou-se uma espécie de estrela polar para muitos políticos estadunidenses. No final de novembro de 2001, a CIA escreveu um memorando sobre o “exemplo israelense” como uma possível base para argumentar que “a tortura era necessária”. Israel é também um dos cerca de 20 países que ajudaram a transportar prisioneiros da guerra contra o terrorismo para locais secretos da CIA.

Dito isto, as relações entre os dois países são mais conflituosas do que se possa imaginar. Os vazamentos do “hacker” defensivo da NSA (Agência de Segurança Nacional), Edward Snowden, ilustram isso. Na década de 2000, por exemplo, na época em que a NSA enviava e-mails e telefonemas privados de palestinos e árabes-americanos para o governo israelense – levando parentes que viviam na Palestina ocupada a “se tornarem alvos” em potencial, como escreve Loewenstein – outros documentos mostram que os agentes acreditavam que a nossa aliança era “um problema permanente”, “provavelmente inclinada fortemente a favor das preocupações de segurança israelenses”. Dado o fervor do Estado de segurança estadunidense após o 11 de setembro, esta situação de fato provocou grande irritação. “No entanto, continua o relatório, a sobrevivência do Estado de Israel é um objetivo primordial da política americana no Oriente Médio”.

Outros documentos ultrassecretos designam Israel como o “terceiro serviço de inteligência mais agressivo contra os Estados Unidos”, ao lado da China, do Irã e da Rússia. Refletem a crescente preocupação dos EUA com as capacidades de guerra cibernética de Israel, bem como “questões de confiança” que pesam nas relações entre as duas forças. Ainda hoje continuamos a excluir o nosso chamado “maior aliado” da aliança “Five Eyes” entre os Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia, Austrália e Reino Unido (cooperação militar Aukus); um acordo de compartilhamento de informações que Loewenstein chama de “mais secreto e intrusivo” do mundo – talvez por boas razões.

Em novembro de 2021, a administração Biden tomou a rara medida de colocar na lista negra duas empresas de vigilância israelenses, o Grupo NSO [empresa de segurança cibernética criada em 2010, cuja sede fica em Herzliya] e a Candiru [empresa irmã do Grupo NSO], que mantém laços estreitos com o Estado israelense. O Grupo NSO em particular, e seu software espião Pegasus, que pode coletar remota e secretamente praticamente tudo de seu telefone, viu-se em apuros depois de ser rastreado até o assassinato brutal de Jamal Khashoggi (os sauditas compraram o Pegasus com a aprovação das autoridades israelenses em 2017) e a perseguição de jornalistas e ativistas dos direitos humanos em todo o mundo. Embora a decisão de Biden tenha sido bem recebida, observa Loewenstein, a provável razão por trás disso foi que “uma empresa israelense estava invadindo a supremacia tecnológica americana”. Ironicamente, a NSO contratou recentemente um novo lobista em Washington: Stewart Baker, ex-diretor de assuntos jurídicos da NSA.

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Se soubermos onde procurar, a aliança entre os nossos dois países parece profundamente tensa, apesar das afirmações em contrário, e ainda assim permanece algum entendimento. Laboratório da Palestina é um livro de referência inestimável sobre como o Ocidente permite a política de ocupação e a venda de armas de Israel, como Israel permite ao Ocidente militarizar as suas fronteiras e sobre o controle minucioso necessário – tanto discursivo como literal – para manter este equilíbrio. Em que apenas os nossos inimigos são considerados hostis e os nossos amigos saem praticamente ilesos de todos os abusos. (Loewenstein também mostra como as empresas de vigilância israelenses monitoram meticulosamente as redes sociais, pressionando empresas como o Facebook a censurar palavras-chave como “resistência” e “mártir” [um termo para os palestinos mortos durante as suas resistências].)

“O pior cenário, escreve Loewenstein na sua conclusão, é a limpeza étnica contra os palestinos ocupados, ou a transferência da população, a expulsão forçada sob o pretexto da segurança nacional”. Isto é exatamente o que estamos vendo hoje, com (no momento em que escrevo) mais de 11.000 mortos em Gaza e a evacuação em curso da sua zona norte, ordenada por Israel. Na quarta-feira, 22 de novembro, depois de chegar a uma breve trégua com o Hamas, Netanyahu disse aos jornalistas que era um “absurdo dizer” que os combates iriam parar após o retorno dos reféns, destacando que era apenas uma das muitas “etapas” da guerra.

Em meados de novembro, no que poderíamos considerar um adendo ao seu livro, Loewenstein apareceu no programa Democracy Now! [apresentado por Amy Goodman] para discutir a guerra em curso. “Israel já está, neste momento, testando novas armas em Gaza”, declarou. Ele provavelmente estava se referindo a um novo morteiro guiado por laser e GPS chamado “Iron Sting”, fabricado pela empresa israelense Elbit Systems. Esta é a mesma empresa que, com a aprovação do governo, ajudou a militarizar a fronteira entre os EUA e o México, que armou a junta militar de Mianmar mesmo após o seu golpe violento [fevereiro de 2021] e que apoiou a limpeza étnica do Azerbaijão com drones de última geração. Nossos amigos, para simplificar, não ficaram ociosos.

Nota.

[1] O Observatório das Multinacionais, num artigo de 23 de fevereiro de 2017, de Guillaume Pitron, observou: “A crise migratória europeia revelou a existência de uma gigantesca indústria de segurança das fronteiras. Em 2016, representou um mercado global anual de 18 bilhões de dólares e deverá totalizar, até 2022, colossais 53 bilhões de dólares. Desde o desejo de desencorajar a imigração até a luta contra o tráfico, o terrorismo ou a pirataria, as ‘ameaças’ nas fronteiras são múltiplas e constituem todas as justificações para despesas adicionais. Uma bênção para os industriais da segurança, estadunidenses e israelenses à frente”. (Redação)

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