Conquistar para a Igreja não é mais um direito. Artigo de Marco Ventura

(Foto: Edwin Andrade | Unsplash)

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24 Abril 2023

"Está tomando forma uma Igreja cada vez mais intolerante com a superioridade ocidental e, ao mesmo tempo, cada vez mais próxima do universalismo relativista autocrítico em que aquela superioridade encontra hoje sua extrema realização", escreve Marco Ventura, professor de Direito canônico e eclesiástico da Universidade de Siena, em artigo publicado por La Lettura, 23-04-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Há responsabilidades católicas na opressão plurissecular dos povos indígenas. Para a Igreja de Francisco, com centro de gravidade no hemisfério sul do mundo, é fundamental acertar as contas. No dia 30 de março chegou o sinal mais forte que sintetiza a trajetória dos últimos anos e anuncia movimentos ainda maiores.

Os Dicastérios para a Cultura e a Educação e para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral publicaram uma Nota conjunta na qual a Igreja condena e "repudia" a "doutrina da descoberta", segundo a qual - explica o documento - "a descoberta de terras pelos colonizadores concedia o direito exclusivo de extinguir, mediante compra ou conquista, o título ou a posse dessas terras de populações indígenas”. A doutrina, estabelecida pela jurisprudência colonial do século XIX, encontrava legitimação em algumas bulas pontifícias do século XVI.

A Nota agora renega aqueles pronunciamentos papais, por estarem "relacionados a questões políticas" e nunca considerados "expressões da fé católica", e declara que a "doutrina da descoberta" "não faz parte do ensinamento da Igreja Católica". De maneira mais geral, a Santa Sé denuncia na Nota como "muitos cristãos" cometeram "atos perversos" contra os povos indígenas pelos quais "os recentes Papas pediram perdão em numerosas ocasiões" e se orgulha, por outro lado, de numerosos exemplos positivos até ao martírio.

Está tomando forma uma Igreja cada vez mais intolerante com a superioridade ocidental e, ao mesmo tempo, cada vez mais próxima do universalismo relativista autocrítico em que aquela superioridade encontra hoje sua extrema realização.

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