Sr. Musk, volte já aqui!

Foto: Flicker/Creative Commons

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

27 Mai 2022

 

"A Amazônia não é objeto que cada um o usa como bem entender. Sabemos das tentativas nessa direção, sentimos as dores, a destruição e as mortes provocadas pelos projetos autoritários aqui implantados", escreve Ivânia Vieira, jornalista, professora da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), doutora em Comunicação e em Processos Socioculturais da Amazônia, articulista no jornal A Crítica de Manaus, co-fundadora do Fórum de Mulheres Afroameríndias e Caribenhas e do Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (Musas).

 

Há 522 anos, Sr. Elon Musk, os mais mirabolantes planos são desenvolvidos internamente e, com apoio externo, para entregar a Amazônia a um outro país, a grupos exploradores, a bilionários, como senhor. As motivações repetem enredos cansativos e reproduzem atos violadores dos direitos humanos dos povos amazônicos no Brasil.

 

O senhor acaba de ser parte, sorridente, de mais uma patética e dramática ação de violação. Poderá vir a ser responsabilizado por cumplicidade nessa tentativa criminosa de repasse e uso da região. É possível que possa vir a colonizar Marte e ampliar o império que domina; é provável a produção de pacotes com etiqueta ‘comunidades amazônicas’ para serem colocados na carteira dos negócios Musk/Bolsonaro. Afinal, há governos, no Brasil, como o de agora, dispostos a qualquer negociata para chamar atenção, mobilizar determinada mídia, reforçar cliques e robustecer algoritmos como esteio desse outro modo de êxito imediato da sobrevivência.

 

A Amazônia, sr. Musk, não é objeto que cada um o usa como bem entender. Sabemos das tentativas nessa direção, sentimos as dores, a destruição e as mortes provocadas pelos projetos autoritários aqui implantados; percebemos as estratégias para submeter e controlar, com cabresto, as populações da região. O sangue de inocentes, derramado em mais de cinco séculos, pinga na terra, nas águas dos rios e dos lagos, nas árvores que formam a outra feição amazônica e não será apagado por iniciativas como esta ora patrocinada pelo governo brasileiro.

 

Não o odiamos, sr. Musk, mas falta amá-lo porque não o conhecemos nem o senhor nos conhece. O ministro das Comunicações, Fábio Faria, anfitrião do vergonhoso espetáculo do dia 20 de abril, mentiu ao declarar que o Brasil ama o senhor. Talvez, por ele falar do Brasil dele situado distante do nosso. Talvez por não saber o significado e a responsabilidade do cargo que ocupa e da importância da noção de soberania para as nações, Faria tenha aceitado extrapolar com tamanha e constrangedora naturalidade. Ou é essa mesma a condição de sujeito do ministro?

 

A Amazônia não necessita do monitoramento anunciado como um dos serviços que a sua banca de negócios realizaria nesta parte do território nacional. É o senhor quem quer apossar-se, como um dos escolhidos pelo governo federal, das informações sobre a região, como se aqui permanecesse uma capitania hereditária. Instituições brasileiras já fazem o monitoramento e os dados estão sendo apresentados embora o presidente da República os ignore e os negue porque o projeto dele é “civilizar e integrar a Amazônia”, reproduzindo uma intenção em todos os governos de raiz autoritária.

 

Volte ao Brasil, o mais rápido possível, venha à Amazônia e submeta-se ao tempo amazônico. Não decida sobre trabalhos nesta região a partir de São Paulo. Deixe-se ensopar de suor com o calor daqui também terá a oportunidade, deliciosa, de tomar banho de cachoeira e, se tiver coragem, nadar nas águas do rio Negro ou do rio Amazonas. A Amazônia quer sim firmar parcerias – dialogadas e tecidas com sua gente, com seus governos estaduais e municipais, com os representantes das instituições científicas, de pesquisa, educação e tecnológicas, empresariais e de trabalhadores - para ampliar suas interações. Que tal fazer uma viagem mais longa, profunda e mais respeitável para com o povo brasileiro e os povos amazônicos?

 

Leia mais