Em último perfil, Aritana Yawalapiti, o 'cacique dos caciques', disse que estrada no Xingu seria “chegada do que não presta”

Aritana Yawalapiti. | Foto: Mídia Ninja

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

07 Agosto 2020

O “cacique dos caciques” faleceu por Covid-19 nesta quarta-feira; em entrevista ao De Olho nos Ruralistas, em março de 2019, ele rejeitou a integração dos indígenas ao agronegócio, proposta do governo Bolsonaro; “não precisamos plantar soja”, disse ele.

A reportagem é de Alceu Luís Castilho, publicada por De Olho Nos Ruralistas, 05-08-2020.

Ele partiu. No momento em que o Brasil se aproxima da marca de 100 mil mortos por Covid-19, o cacique Aritana Yawalapiti morreu nesta quarta-feira (05) aos 71 anos, em Goiânia, por complicações respiratórias causadas pelo novo coronavírus. Líder no Alto Xingu desde os 19 anos, ele deu uma de suas últimas entrevistas — provavelmente foi o último perfil feito sobre ele — ao De Olho nos Ruralistas, no ano passado.

A repórter Clarissa Beretz esteve no Xingu e assinou o texto, publicado em março de 2019: “Líder histórico no Parque do Xingu rejeita ‘integração’ ao agronegócio proposta por Bolsonaro“.

Em relação ao plano do governo Bolsonaro, ele foi enfático:

— Não precisamos plantar soja. Temos a nossa roça, mandioca, milho, pesca, caça. O governo tem que respeitar o nosso modo de vida.

A soja avança, os bois avançam e também o novo coronavírus avança entre os povos indígenas. Conforme os dados reunidos pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), já são 148 etnias atingidas. Foram 22.325 casos de Covid-19 entre indígenas e 633 mortes.

Quando era jovem, Aritana ouviu de Cláudio Villas Bôas que caberia a ele cuidar do território. O Parque Nacional do Xingu acabara de ser criado. “Você é quem vai tomar conta dessa terra”, disse Cláudio, conforme o relato de Clarissa. “Quando o branco entrar aqui, ele vai vir com papéis e panos coloridos para convencer vocês. No dia em que você deixar, acabou o Xingu”.

Aritana disse à repórter que sua luta hoje não era mais de borduna. “É de papel, caneta e computador”, afirmou. Ele contou que deixaria essa parte para os mais jovens, como o filho Tapi, mestrando em Linguística na Universidade de Brasília (UNB). Tapi já se preparava para suceder o pai como o próximo cacique Yawalapiti.

'Tem mais é que dar melhorias, tomaram tudo o que tínhamos' 

Estes são os últimos parágrafos da reportagem de Clarissa Beretz:

Para o líder do Alto Xingu, o governo tem uma dívida histórica com os indígenas. “Tomaram tudo o que tínhamos, principalmente dos parentes de outras etnias: terra, madeira, riquezas minerais”, afirma. “Então, tem mais é que dar melhorias. E sem contrapartida. Queremos internet, televisão, dentista? Sim, precisamos! Mas que respeitem a nossa forma de vida”, finaliza Aritana, enquanto sai de sua oca, nu, para tomar mais um banho no rio Toatoari.

Sua maior arma é a paciência. Ele acredita que a principal função de um cacique é promover o diálogo e o entendimento. Assim, o menino que tomava arranhadura de dente de piranha na pele para aprender a lidar com a dor prepara-se para os desafios. Nos encontros em Brasília e reuniões com fazendeiros, mantém o tom amigável. Aritana dialoga com figuras das quais discorda, como Blairo Maggi, ex-governador do Mato Grosso e ex-ministro da Agricultura do governo Temer, um dos maiores produtores de soja do mundo.

Maggi conversou com Aritana sobre a construção de uma estrada na região para escoar a produção de soja e milho desde Querência e Canarana (MT), rumo aos portos de Miritituba e Santarém, no Pará. “O Blairo falou que irá trazer melhorias para o nosso povo, porque poderemos levar os nossos doentes mais rápido para o hospital”, comenta. Aritana não quer o suposto benefício. Disse que não quer, pois a estrada facilitará “a chegada do que não presta”.

 

Leia mais