A difícil arte da correção fraterna. Comentário de Enzo Bianchi

Fonte: Vatican News

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04 Setembro 2026

O comentário é de Enzo Bianchi, referente ao Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 18,15-20, que corresponde ao 23º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico, publicado em seu blog, 06-09-2026.

Eis o comentário. 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: “Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, à sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público.
Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que des­ligardes na terra será desligado no céu. De novo, eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isto vos será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles”.

No capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus, Jesus se dirige aos seus discípulos sobre algumas necessidades fundamentais daqueles que vivem juntos em seu Nome: hoje ouvimos suas palavras a respeito da difícil arte da correção fraterna.

Em toda forma de vida comunitária, chega o momento em que alguém comete um pecado: pode ser uma ofensa pessoal contra outrem ou um pecado manifesto diante de todos. Como devemos tratar alguém que cometeu tal pecado? Primeiro, devemos reconhecer o pecado: não devemos fingir que nada aconteceu, em nome de uma vida tranquila ou, pior, de uma cumplicidade doentia com alguém que caiu. Cada um de nós é, de fato, o guardião dos outros (cf. Gn 4,9) e recebeu de Deus a responsabilidade de dissuadi-los de seus maus caminhos: "Se não falares para desviar o ímpio do seu caminho, ele morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue eu o requererei de ti" (Ez 33,8).

É nesse sentido que Jesus diz: “Se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste teu irmão”, porque, para usar novamente as palavras do profeta, “ele se converterá dos seus maus caminhos e viverá” (Ezequiel 33,11). Ter a coragem de falar francamente com nosso irmão, cara a cara e no momento certo, nos liberta do risco de guardar ressentimento, de murmurar contra ele enquanto falamos com terceiros, de nos sentirmos superiores a ele, observando o cisco em seu olho sem notar a trave no nosso (cf. Mateus 7,3). E também pode nos abrir para a capacidade de aceitar a correção quando nós mesmos erramos.

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A correção, como também adverte o apóstolo, deve ser feita com mansidão e paciência (cf. Gl 6,1; 1 Ts 5,14; 2 Tm 2,25), sem atacar o culpado sob o pretexto de beneficiá-lo. Esta é a intenção que inspira as palavras subsequentes de Jesus, que demonstram um discernimento inspirado pela misericórdia e pela gradualidade: "Se teu irmão se recusar a ouvir-te, leva contigo mais um ou dois, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra seja confirmada" (Dt 19,15). Mas, se ele se recusar a ouvi-los, conta-o à igreja local. Assim, a correção fraterna pode tornar-se um evento eclesial, sob a égide daquele amor que é a única lei da comunidade cristã: um amor consciente de que o pecado de um membro contamina todo o corpo, o amor de quem não quer que se perca sequer uma ovelha (cf. Mt 18,9-14)... Finalmente, pode acontecer que, apesar de tudo isso, um irmão persista em seus caminhos mortais; então — diz Jesus — “seja para vocês como um gentio e um publicano”, isto é, excluído da comunidade. Este ato de “excomunhão”, realizado com tristeza, apenas atesta o desejo do irmão de se separar da comunhão...

Mas mesmo sobre esta decisão extrema reina a misericórdia que o Senhor Jesus ensinou e exigiu dos fiéis. Isto se depreende do que Ele acrescenta: "Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu". Desta forma, Ele entrega a todos os seus discípulos a responsabilidade anteriormente confiada apenas a Pedro (cf. Mt 16,19), a de excluir e readmitir na comunidade cristã. E com base em que critério? No da superabundância do perdão, concedida ao nosso irmão "até setenta vezes sete"(Mt 18,22), como Jesus esclarecerá imediatamente a Pedro; do contrário, como poderíamos pedir ao Pai com um coração sincero: "Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores" (Mt 6,12)?

É significativo, portanto, que entre o ensinamento de Jesus sobre a correção fraterna e suas palavras sobre o perdão esteja a exortação a orar em uníssono em seu nome, uma garantia de que se ouvirá o Pai celestial. Sim, quando há unanimidade na oração, quando nos esforçamos para ter a mente de Cristo em nós (cf. Filipenses 2,5), então ele mesmo está presente e julga no meio de sua comunidade. "Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles", assegurou-nos Jesus; mas sabemos orar em uníssono antes de tomar uma decisão a respeito de "um irmão por quem Cristo morreu" (1 Coríntios 8,11)?

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