A excomunhão dos fundamentalistas. Artigo de Frei Betto

Foto: Vatican Media

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15 Julho 2026

"A excomunhão de 2026 representa mais um capítulo — possivelmente definitivo — do longo divórcio entre a FSSPX e Roma. Para o Vaticano, trata-se da defesa da autoridade papal e da unidade da Igreja. Para os lefebvrianos, é a confirmação de que a Igreja oficial abandonou a Tradição", escreve Frei Betto, escritor e autor do romance sobre massacre de indígenas na Amazônia, Tom vermelho do verde (Rocco), entre outros livros. 

Eis o artigo.

Em 2 de julho de 2026, o Dicastério para a Doutrina da Fé decretou a excomunhão de seis bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) — mais conhecidos como lefebvrianos —, além de todos os sacerdotes e fiéis leigos que aderem formalmente ao grupo. O ato, definido como “de natureza cismática”, consumou o primeiro grande racha da Igreja Católica sob o pontificado de Leão XIV, eleito em maio de 2025.

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X foi fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991) como reação às reformas do Concílio Vaticano II (1962-1965). Os lefebvrianos rejeitam mudanças como a substituição da missa em latim pelo vernáculo, a posição do sacerdote de frente para os fiéis, o diálogo inter-religioso e o ecumenismo.

O conflito com Roma não é novo. Em 1988, Lefebvre consagrou quatro bispos sem autorização do Papa João Paulo IIAlfonso de Galarreta, Bernard Fellay, Richard Williamson e Bernard Tissier de Mallerais. Todos foram excomungados automaticamente. Em 2009, Bento XVI removeu a excomunhão dos quatro bispos em um gesto de reconciliação, mas a FSSPX manteve-se em situação canônica irregular, sem estatuto jurídico pleno na Igreja.

Em 1º de julho de 2026, na localidade suíça de Écône — o mesmo lugar das consagrações de 1988 —, a FSSPX realizou nova cerimônia. Os bispos Alfonso de Galarreta (sagrante principal) e Bernard Fellay (co-sagrante) consagraram quatro novos bispos: Pascal Schreiber (Suíça), Michael Goldade (EUA), Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier (ambos da França).

O Papa Leão XIV fez apelos reiterados para que desistissem. Em carta escreveu: “Cheio de afeto cristão, imploro-vos e peço-vos do fundo do coração: voltem atrás”. Alertou que “rasgar a túnica de Cristo é um pecado de extrema gravidade”. O superior-geral da FSSPX, padre Davide Pagliarani, respondeu que a consagração era “uma medida extrema para salvar almas, em meio à confusão doutrinal e moral em que a Igreja se encontra”.

No dia seguinte, o cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, assinou o decreto declarando que o ato configurou “delito de cisma”. A excomunhão é latae sententiae — automática — e reservada à Sé Apostólica. O decreto baseou-se na Constituição Apostólica Ecclesia Dei (1988), que já definira que “tal desobediência — que implica rejeição prática do Primado Romano (ou seja, autoridade do papa) — constitui um ato cismático”.

Foram excomungados os dois bispos consagrantes (Galarreta e Fellay), os quatro recém-consagrados, todos os sacerdotes da FSSPX e os fiéis leigos que aderem formalmente à Fraternidade. Os excomungados ficam proibidos de receber os sacramentos até que se arrependam e peçam perdão. A FSSPX não pode mais celebrar casamentos nem ouvir confissões de forma válida.

As autorizações especiais para celebrar os sacramentos da confissão e do matrimônio, concedidas pelo Papa Francisco aos sacerdotes lefebvrianos, foram revogadas. A excomunhão coloca os membros da FSSPX em “situação de separação da Igreja de Roma”. Trata-se de uma ruptura grave e formal no seio da comunidade católica.

Em carta pública a Leão XIV, o padre Pagliarani rejeitou a excomunhão como “objetivamente injusta e inválida”. Afirmou que a FSSPX não age “em espírito de amargura ou rebelião”, sente-se encorajada “a amar a Igreja”. Os lefebvrianos consideram-se os verdadeiros guardiões da Tradição e veem o próprio papa como herege.

A excomunhão de 2026 representa mais um capítulo — possivelmente definitivo — do longo divórcio entre a FSSPX e Roma. Para o Vaticano, trata-se da defesa da autoridade papal e da unidade da Igreja. Para os lefebvrianos, é a confirmação de que a Igreja oficial abandonou a Tradição. O pontífice resumiu com pesar: “Se tomarem essa decisão, lamento. Mas precisamos seguir em frente”. O cisma está consumado — e suas consequências ainda se desenrolarão nos anos vindouros.

Vale notar que os católicos progressistas, como os adeptos da Teologia da Libertação, nunca quebraram a unidade da Igreja Católica. Os cismas sempre chegam pela direita.

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