21 Agosto 2026
"O próprio Jesus pergunta diretamente aos seus discípulos: 'Quem vocês dizem que eu sou?' É uma pergunta feita confidencialmente àqueles mais próximos a ele, que, portanto, deveriam conhecê-lo profundamente, muito além da opinião popular", escreve Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado em seu blog, 18-08-2026.
Eis o artigo.
Mt 16,13-20
Quando Jesus chegou à região de Cesareia de Filipe, perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”. Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros, Elias; e outros ainda, Jeremias ou algum dos profetas”. Ele lhes perguntou: “Mas vocês, quem dizem que eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Jesus lhe disse: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas! Porque não foi a carne nem o sangue que te revelaram isso, mas o meu Pai que está nos céus. E eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus, e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus”. Então, ordenou aos seus discípulos que não contassem a ninguém que ele era o Cristo.
Quem é Jesus? Essa pergunta, central para a nossa fé e recorrente em diversas formas ao longo do Evangelho, ressoa no texto de hoje nos lábios do próprio Jesus: nosso relacionamento com ele, o Senhor de nossas vidas, depende da resposta a essa pergunta.
Em Cesareia de Filipe, cidade no extremo norte de Israel, Jesus pergunta: "Filho do homem?" Jesus se refere à figura do Salvador profetizado por Daniel (cf. Dn 7) e aguardado pelos crentes de Israel para o fim dos tempos. Mas é importante notar que, dessa forma, ele também se distancia misteriosamente de si mesmo, falando de si como alguém diferente, na terceira pessoa, sem qualquer autorreferencialidade... Os discípulos relatam a opinião corrente que via Jesus como um profeta (cf. Mt 13,57; 14,5): segundo alguns, ele era João Batista ressuscitado, como Herodes já havia afirmado (cf. Mt 14,2); segundo outros, ele era o novo Elias, o grande profeta elevado por Deus ao céu (cf. 2Rs 2,1-18); segundo outros ainda, nele Jeremias, o profeta duramente perseguido pela classe sacerdotal de sua época, viveria novamente. Todas as respostas contêm um grão de verdade, mas ainda assim são insuficientes para explicar a novidade, a singularidade de Jesus.
Por isso, o próprio Jesus pergunta diretamente aos seus discípulos: "Quem vocês dizem que eu sou?". É uma pergunta feita confidencialmente àqueles mais próximos a ele, que, portanto, deveriam conhecê-lo profundamente, muito além da opinião popular. Apenas um deles, Simão Pedro, responde sem hesitar: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo ". Ele reconhece em Jesus o Cristo, isto é, o Messias, o Rei da paz e da justiça esperado por Israel em nome de toda a humanidade; além disso, discerne nele o Filho de Deus, isto é, o revelador final e definitivo do Pai à humanidade (cf. Jo 1,18). Na cidade que leva o nome de César, aquele que se intitulava Deus e Senhor, Pedro expressa a confissão de fé que capta plenamente a identidade de Jesus...
Ele faz isso não como um "porta-voz" dos Doze, mas sim movido por uma força interior, por uma revelação que só poderia vir de Deus, como Jesus reconhece: "Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelaram isso, mas o meu Pai que está nos céus". E é precisamente como recipiente deste dom da graça que Simão recebe de Jesus um novo nome, Cefa, Pedro, acompanhado de uma missão precisa: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja", uma imagem que se refere à pedra fundamental do templo, "e as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (cf. Is 28,14-18). Pedro é proclamado por Jesus como o fundamento de sua comunidade, a Igreja, e a rocha capaz de confirmar seus irmãos na fé (cf. Lc 22,32): é somente por esta vontade do Senhor, e não em virtude de suas qualidades pessoais, que ele aparece como "primeiro" na lista dos Doze (Mt 10,2) e recebe do próprio Senhor a autoridade de governo (as chaves do Reino: cf. Is 22,22) e a de disciplina (o poder de ligar e desligar).
Pedro não estará isento de erros e lapsos: aliás, como veremos na continuação imediata da nossa passagem, de rocha sólida ele se tornará pedra de tropeço e, por causa de sua visão mundana, será chamado por Jesus até de "Satanás" (Mt 16,18). Isso, porém, não deve nos escandalizar nem nos levar a menosprezar a autoridade de Pedro. Pelo contrário, devemos nos maravilhar com a extraordinária condescendência com que Jesus lhe confiou, a ele, um homem pobre e frágil, o ministério crucial para a comunhão e a unidade da Igreja; e, ao mesmo tempo, lembrar que, na comunidade cristã, a autoridade só pode ser exercida conformando-se à mente de Cristo, a única e verdadeira Rocha sobre a qual a Igreja está fundada (cf. 1 Cor 3,11; 1 Pe 2,4-8)!
O diálogo entre Pedro e Jesus culmina no silêncio imposto por este último aos seus discípulos a respeito de sua condição messiânica. Dessa forma, Jesus pretende abrir espaço em nossos corações para a questão crucial: Que tipo de Messias é ele? O que significa ser o Cristo? Ele mesmo nos revelará isso, com palavras surpreendentes e "escandalosas"...
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