Data centers: a nova face da dependência brasileira. Entrevista especial com Vinícius Sousa de Oliveira

Soberania e desenvolvimento digital e econômico do Brasil dependem de alternativas que enfrentem a dependência das multinacionais, afirma o pesquisador

Foto: Reprodução w.media

Por: Patricia Fachin | 30 Março 2026

Se a influência das big techs está em evidência no processo eleitoral que se aproxima, a atuação dos grandes fundos de financiamento internacional no Brasil nem sempre recebe a mesma atenção no debate público. No entanto, por meio da atuação deles, está em curso “um processo de operacionalização do território nacional” a partir da expansão dos data centers, fundamentais para a manutenção dos serviços digitais, pontua Vinícius Sousa de Oliveira.

Para o pesquisador, a expansão do setor de data centers no país é um retrato da falta de soberania tecnológica nacional. Segundo ele, estudos recentes que buscam compreender a ampliação desse mercado mostram o favorecimento de multinacionais norte-americanas em detrimento de um investimento mais robusto na formação de grupos nacionais. “As empresas brasileiras atuam de modo secundário em refrigeração de salas de alocação de servidores. Elas dependem de tecnologia externa e, por vezes, realizam dinâmicas de manutenção de algo que já está estabelecido”, resume.

Um dos objetivos da pesquisa de Oliveira é compreender a origem do capital das multinacionais em atuação no Brasil e seus efeitos no desenvolvimento interno do país. “Quando tentamos tirar esses grupos dos arremedos corporativistas e de nomes fictícios, tudo aponta para o fato de que os data centers localizados no Brasil estão relacionados a grandes fundos de investimento internacionais que têm centralidade nos Estados Unidos. Portanto, quem realmente é o detentor do controle dessas empresas?”, questiona.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, o pesquisador crítica a dependência tecnológica brasileira, enfatiza a necessidade de um debate sério sobre os rumos do país nas próximas décadas, comenta os possíveis efeitos do uso de Inteligência Artificial (IA) nas eleições deste ano e alerta para os riscos de uma bolha de IA no mercado internacional. “As grandes promessas da IA têm um comportamento de especulação financeira e há uma necessidade de essas estruturas estarem em expansão. (…) Há dificuldades contábeis do setor entregar a produtividade que havia prometido para as empresas estadunidenses. Isso cria um desatrelamento entre a expectativa de retorno da lucratividade e a produtividade realizada por essas empresas. Há ali a propensão de uma dinâmica de bolha”, adverte.

Vinícius Sousa de Oliveira (Foto: Arquivo Pessoal)

Vinícius Sousa de Oliveira é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Integra o programa de mestrado da UFMG.

Confira a entrevista. 

IHU – Segundo sua pesquisa, 69% dos data centers instalados no Brasil são controlados por 16 empresas, das quais 14 são multinacionais. O que essa disparidade entre empresas estrangeiras e nacionais indica?

Vinícius Sousa de Oliveira – Dois pontos fundamentais podem ser extraídos desses dados. Primeiro, o caráter profundamente neoliberal. Há uma dinâmica pragmática desse mercado dentro do país, que surge dentro das bases estruturais daquilo que foi gestado posteriormente ao processo de privatização das telecomunicações na década de 1990. Ou seja, uma abertura completa do mercado de informática à dinâmica transnacional de entrada de capitais internacionais e o domínio de todas as possibilidades de digitalização que se formou nos últimos 20 anos, 30 anos. Em outras palavras, há um domínio completo do capital estrangeiro.

A segunda questão é que esse controle demonstra o profundo imbricamento de toda a possibilidade de digitalização e acesso e circulação informacional aos interesses dessas multinacionais. Se o país quer pensar programas de soberania e de desenvolvimento tecnológico e econômico que tenham como base as novas tecnologias que circundam sobre as bases da informática, precisa começar a pensar numa forma de combater o controle das multinacionais, a fim de ter certa autonomia e independência dos círculos financeiros que atualmente controlam o setor.

IHU – No país persiste a mentalidade dos anos 1990, de que o desenvolvimento depende da abertura a capitais estrangeiros? Essa é a diretriz que está guiando a instalação dos data centers no Brasil?

Vinícius Sousa de Oliveira – Sim, o governo tem conduzido uma linha política de dar continuidade à abertura do mercado brasileiro aos capitais estrangeiros, muitas vezes buscando-os. Há uma preocupação em relação ao setor de infraestrutura, mas é uma preocupação em questão de competitividade. Competividade, na mentalidade neoliberal, significa o seguinte: qual a capacidade do país em atrair capitais estrangeiros e não desenvolver seu próprio capital, suas próprias empresas e não ter interferência direta no processo econômico. Isso vai impactar na população e nas necessidades da própria sociedade brasileira, que está tendo que passar pela transformação digital como o restante do mundo.

No estudo da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), realizado em 2025, o que vemos é uma preocupação acerca do que o Brasil tem a ofertar para o setor de data centers e os capitais estrangeiros em vista de atraí-los. A mentalidade é muito similar, ou seja, segue na mesma linha de continuidade daquilo que marcou a década de 1990: atingir competitividade, conseguir angariar tecnologias que já estão estabelecidas no mercado estrangeiro através da sua vinda para o país, liberando subsídio e insumos infraestruturais, garantindo energia elétrica, território e acesso a recursos hídricos para o processo de refrigeração dessas infraestruturas. O Brasil continua na mesma linha, buscando ofertar aquilo que o capital deseja em vez de garantir – ou garantir parcialmente – o que é necessário para o desenvolvimento nacional.

IHU – Por que essa mentalidade representa um obstáculo para o desenvolvimento nacional a longo prazo?

Vinícius Sousa de Oliveira – Porque continuamos a manter uma relação de dependência perante as dinâmicas desses capitais, que são pautados por interesses diretamente relacionados ao lucro dessas empresas. A margem de lucro que essas empresas conseguem realizar dentro do território nacional é aquilo que as mantêm em atividade e, de certa forma, “amigáveis” às demandas dos contratos brasileiros e possibilidades de negociação.

No fim das contas, o Brasil se transforma dependente dessa prestação de serviços e dessa infraestrutura que está sob domínio do capital estrangeiro interessado na margem de lucro. Mas, para garantir a permanência dessas empresas no país, tem que manter um fluxo de capital que poderia estar sendo investido no desenvolvimento próprio de empresas estatais, no desenvolvimento da capacidade humana através das universidades brasileiras para realizar pesquisas e desenvolvimento de tecnologias alternativas, quebrando a necessidade de fluxos de capital estrangeiro.

Há uma preocupação em centrar uma política de desenvolvimento do processo digital em capitais estrangeiros, pois isso faz com que o país fique atrelado às flutuações do mercado. Por exemplo, estamos num momento de intensa sensibilidade do mercado internacional devido aos conflitos baseados no confronto entre Estados Unidos e China. As cadeias de distribuição de tecnologia e de financiamento estão em polvorosa com os movimentos que aconteceram em quatro, cinco anos, que modificaram completamente a face das negociações. Para que o Brasil não apresente essa fragilidade, seria necessário focar na capacidade autônoma de produção dessas tecnologias e na manutenção dos serviços.

IHU – O que impede o rompimento com essa lógica e a apresentação de novas alternativas?

Vinícius Sousa de Oliveira – Romper com essa lógica em si significa confrontar uma estrutura que possibilita a base de uma dinâmica política do poder que está estabelecido. Hoje, quando pensamos nas bancadas do poder Legislativo, geralmente destacamos a bancada BBB: bíblia, boi e bala. Há uma proposta de colocar um quarto “B”, que são as big techs. Elas têm investido pesadamente no Brasil, tanto na área do jornalismo quanto na área da influência legislativa, realizando lobbies pesados para impedir processos de regularização da dinâmica de plataformas, além de garantir a possibilidade de entrada de capital de infraestrutura para atuar dentro do Brasil como hub de espraiamento para os demais países da América Latina. Isso porque há uma disputa pela fronteira da IA e a aplicação de mercados entre dois países fundamentalmente, a China e os Estados Unidos.

Os Estados Unidos têm abertamente posicionado o Brasil e os demais países da América do Sul em sua órbita de influência. Isso está sendo representado na nova doutrina de segurança deles. Então, há muitos interesses que permanecem nessa estrutura – interesses financeiros, políticos e ideológicos.

Mas por que é necessário romper essa lógica? Por que é necessário pensar alternativas de capacidade produtiva? Vou dar um exemplo de algo que aconteceu no cenário europeu. O Estado holandês tentou tomar o controle da empresa Nexperia, que era uma empresa subsidiária da chinesa Wingtech Technology. Quando a estatal holandesa, dentro da dinâmica geopolítica em que estamos inseridos, tentou realizar esse processo de estatização, a Wingtech suspendeu a distribuição da cadeia de insumos necessários para montagens de chips na União Europeia. Isso acabou causando efeitos colaterais ajuizantes que interromperam a indústria automobilística da União Europeia.

Esse exemplo demonstrou claramente o que significa um processo de dependência. Isto significa a sensibilidade e a vulnerabilidade que determinados países vão ter em suas cadeias produtivas que garantem empregos, tributos e a dinâmica societária.

Precisamos pensar nisto: o Brasil depende de quais tecnologias para o funcionamento de quais setores? Se os países que detêm o controle dessas tecnologias e capacidades produtivas decidirem interromper ou modificar cláusulas de contratos e modificar completamente a distribuição das matérias brutas dos produtos, como o Brasil vai reagir? Essa é a principal preocupação. Acesso às tecnologias nós temos. Através do mercado internacional conseguimos chegar lá e comprá-las, mas o mercado internacional não é estável.

IHU – Uma dinâmica semelhante, no sentido inverso, desenrola-se no interior dos Estados Unidos, com a Anthropic e o governo Trump, quando a empresa se recusou a remover as restrições de segurança para o uso da IA e o governo a rotulou de representar um risco à cadeia de suprimentos?

Vinícius Sousa de Oliveira – Sim. E essa é uma lógica de investimento, uma lógica de conseguir elevar um processo de acumulação capitalista desse setor a novos patamares. Ou seja, integrar um setor de alta tecnologia ao complexo de guerra dos Estados Unidos, que é o grande motor da economia estadunidense, principalmente numa época de crise em que operações militares se desdobram pelo mundo, tentando garantir a influência política estadunidense e as cadeias de valor que sustentam aquele país. Estamos falando de petróleo, chips, terras raras. É importante frisar essas questões e compreender a totalidade das cadeias e onde os países estão inseridos aí dentro em suas capacidades autônomas e em suas capacidades diplomáticas de negociação.

É preciso pensar nessas questões quando se fala de um data center. Com a instalação dessa infraestrutura no Brasil, nós realizaremos qual ciclo da cadeia produtiva? Teremos domínio? Teremos autonomia? Conseguiremos realizar negociação se for necessário?

IHU – Quando um país pode se considerar soberano no campo dos dados, do digital e da tecnologia?

Vinícius Sousa de Oliveira – soberania de dados precisa ser garantida por uma regulamentação consolidada que tenha efetiva capacidade de implementar essa regulação. Ou seja, se tivermos que bater de frente com o X e com a Meta, a população não pode ficar sem alternativas para utilização de um recurso essencial para a vida cotidiana, como é o WhatsApp. Se não tem WhatsApp, temos que utilizar outro sistema.

Temos alternativas hoje? Não temos. Então, soberania de dados e soberania digital andam lado a lado. A base de estudo é criada por uma soberania tecnológica. O Brasil tem capacidade de gerar a sua big tech? A China demorou 20 anos, 30 anos para criar as suas big techs. Os chineses aderiram à mentalidade da soberania digital a partir do momento em que abriram a internet no país. Naquele momento, eles perceberam a importância política e econômica do sistema de informação e, dali em diante, começam a desenhar a sua política. Foi um processo com idas e vindas. Eles não são iluminados por deuses com uma sabedoria milenar. Mas, nas tentativas, verificavam a importância de manter o controle tecnológico. É importante pensarmos nisso.

A soberania se efetiva nos casos concretos, quando a realidade se concretiza na sua frente e você tem meios preparados ou que possam ser mobilizados para realizar a sua escolha política. No fim, trata-se disto: qual escolha vai se sobrepor às outras? 

IHU – Como o Pix, criado pelo Banco Central, que surgiu como um sistema de pagamento alternativo no país, amplamente utilizado pela população?

Vinícius Sousa de Oliveira – Sim. Essa foi uma alternativa genial em que o Brasil bateu de frente com os Estados Unidos e os interesses das bandeiras de cartão de crédito, que estão perdendo um mercado gigantesco no território nacional com a possibilidade do Pix. Se o país não bater de frente e garantir a manutenção e valorização desse tipo de infraestrutura e tecnologia, vai retroceder. Temos que tentar avançar cada vez mais, mesmo que a tarefa seja hercúlea. Cada passo à frente é uma vitória.

IHU – No ano passado, no contexto do tarifaço norte-americano, enfatizou-se muito a importância da soberania brasileira. Há um discurso de que o Brasil precisa garantir a soberania, mas, de outro lado, adotam-se políticas que não a garantem? Qual sua avaliação sobre este ponto com base na análise dos dois documentos governamentais que abordam a expansão dos data centers no país: a Estratégia para a implementação de política pública para atração de data centers, da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), e Estudo sobre o mercado de data centers no Brasil, produzido pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel)?

Vinícius Sousa de Oliveira – Naquele momento em que estávamos vivendo os efeitos imediatos do tarifaço de Trump, o discurso do presidente Lula teve um direcionamento de posicionamento do Brasil e de certa segurança por parte da Presidência para o país perante os mercados nacionais que têm alta dependência de realização com o mercado final, que são os Estados Unidos. A balança comercial brasileira é basicamente formada pela relação com a China e os Estados Unidos, tendo uma alteração nos últimos vinte anos para o lado chinês. Mas, ainda assim, há uma forte necessidade de comercialização com os americanos.

Naquele momento, o discurso foi uma resposta da presidência para o mercado nacional em vez de ser realmente a expressão de um projeto político que tenha como linha de frente o desenvolvimento ou a capacidade de autonomização da produção brasileira perante o mercado estadunidense e as tecnologias produzidas naquele país. O discurso teve a sua função.

Operacionalização do território nacional

Contudo, quando olhamos para a estrutura de governança, para as políticas públicas implementadas na área de tecnologia da informação, principalmente no setor de data centers, que, a meu ver, é bem expressada nesses dois documentos, o que observamos é um reconhecimento das cadeias produtivas que formam um ciclo de vida de um data center pela ABDI. O estudo demonstra que as empresas brasileiras atuam de modo secundário em refrigeração de salas de alocação de servidores. Elas dependem de tecnologia externa e, por vezes, realizam dinâmicas de manutenção de algo que já está estabelecido. Nos produtos de maior valor agregado, que são os chips, os servidores, os sistemas de processamento de entrada dos servidores e máquinas virtuais, a maioria das tecnologias são de importação e montadas dentro do Brasil. Então, há um processo de operacionalização do território nacional, mas os principais valores e ativos que estão em mobilização dentro desses setores vêm de fora. 

Há uma proposta para que a função do Brasil perante essa integração internacional seja a de se tornar um hub de hospedagem dessas infraestruturas, sem ter a garantia de realmente trazer cadeias produtivas e forçar a produção de chips ou sua montagem dentro do território nacional. Nada disso é discutido nesses estudos. Eles têm a função de apontar os benefícios de alocação dos capitais do setor dentro do Brasil perante as ofertas de recurso hídrico, energético e território e as conexões existentes entre a estrutura intercontinental, que são os cabos submarinos, que têm pontos no Nordeste, no Sudeste e no Sul. Os cabos possibilitam o funcionamento do tráfego de dados entre Brasil, América Central e América do Norte. O Brasil é importante por causa dessa conectividade em nível internacional.

IHU – Quais empresas fazem parte do setor de data center, em quais regiões do país estão instaladas e qual é a origem do capital dessas instituições?

Vinícius Sousa de Oliveira – Antes de responder, vou fazer um comentário metodológico. Os dados sobre data centers não estão consolidados em nenhum espaço que encontramos por não haver um esforço por parte de instituições oficiais de realizar o mapeamento e rastreamento dessas informações. Há estudos setoriais que realizam o mesmo processo metodológico de rastreamento por meio do Data Center Map, que vem sendo uma ferramenta referenciada em vários estudos deste setor.

O que quero apontar é que não existe um esforço por parte do governo, da estrutura de segurança, em realizar um rastreamento e distribuir essas informações consolidadas. Então, o que estamos fazendo nos estudos é um esforço de tentar rastrear esses dados até chegarmos a um consenso para ver qual é a real situação desse setor, que está em movimento, mobilidade e crescimento volátil nos últimos dez anos.

Crescimento dos data centers no país 

Os dados que apresentamos no estudo ano passado já se alteraram completamente. Antes, os dados mostravam que tinham 160 unidades de data centers no país. Hoje, encontram-se 204, ou seja, 40 data centers foram identificados posteriormente. Então, estamos tateando o fenômeno enquanto ele está acontecendo.

As empresas atuantes no Brasil são diversas e se distribuem em dois tipos: as que se concentram nos principais centros urbanos e comerciais, ou seja, nos principais mercados de consumo desse tipo de serviço, no Sudeste e Nordeste, principalmente por causa da relação infraestrutural com os cabos submarinos, e aquelas que atuam no centro do país como centro de distribuição de conectividade, atuando em Brasília, Campinas, e no Sul, como hub local.

Os grandes polos, contudo, estão no Rio de Janeiro e em São Paulo. Trata-se de um comportamento clássico da história econômica brasileira, que é de concentração no Sudeste, principalmente nesses dois estados.

Sobre as empresas, vou pontuar quatro: Elea Digital, Equinix, Ascenty e Scala Data Centers. Essas quatro empresas têm um total de 70 unidades registradas em operação, segundo informações do Data Center Map. Ou seja, elas possuem 70 das 204 unidades em operação. Isso significa que mais de 25% das unidades estão sob o controle desses quatro grupos. A Elea, com dez unidades em operação, seria aquilo que poderíamos chamar de a única grande brasileira neste cenário.

Emaranhado financeiro

Contudo, quando vamos buscar quais são os grupos e as fontes de capitais dessas empresas, percebemos que elas estão profundamente envolvidas com os fundos internacionais de financiamento. A Equinix, que tem nove unidades em operação no país, tem sede nos Estados Unidos e teve o início nessa atividade pela aquisição de uma empresa brasileira.

A Ascenty tem 26 unidades e é uma joint venture de grupos financeiros da Digital Realty (americana) e Brookfield (canadense).

A Scala Data Centers tem 24 unidades em operação. É um braço de investimento do grupo DigitalBridge, também estadunidense.

De onde vem o capital dessas empresas? Buscar a origem desses capitais significa desemaranhar os fios do financismo internacional no setor de infraestrutura de data center e no setor de infraestrutura digital. A origem desses investimentos está dentro dos grandes grupos de financiamento internacional.

Essa é outra grande preocupação que se coloca. Quando tentamos tirar esses grupos dos arremedos corporativistas e de nomes fictícios – empresa braço, empresa independente, relacionamentos acionários de controle – tudo aponta que o fato de que os data centers localizados no Brasil estão relacionados a grandes fundos de investimento internacionais que têm centralidade nos Estados Unidos. Portanto, quem realmente é o detentor do controle dessas empresas?

Outra coisa é a dinâmica volátil que existe dentro do setor: aquisições, fusões, compras. Isso acontece a todo momento. Por exemplo, a Scala Data Centers, do Grupo DigitalBridge, está em fases finais de negociação e está sendo comprada por 4 bilhões de dólares pelo SoftBank. Estamos falando de empresas e grupos financeiros que mobilizam bilhões de dólares anualmente. Trata-se de um mundo obscuro do grande capital em nível internacional com o qual o setor de data center brasileiro está envolvido.

IHU – Qual é a participação desses grupos no governo Trump? Fala-se muito da influência das big techs. Como esses setores se relacionam?

Vinícius Sousa de Oliveira – As big techs participam como braço dos grandes fundos e os grandes fundos participam da composição do mercado financeiro estadunidense. Ele é, diretamente, um dos braços da dinâmica imperialista do governo norte-americano. Esses grupos sustentam as mobilizações de dólar e estão diretamente em contato com a Fazenda estadunidense, com o Banco Central.

Essa temática excede um pouco meu estudo, mas esses grupos apresentam outra face do governo. A face atual que marca o governo Trump foi colocada abertamente a público perante as big techs: Amazon, Google, Microsoft, Meta e X. Essas cinco representam a cabeça do setor das big techs, mas esse setor está profundamente envolvido com a dinâmica financista dos Estados Unidos, tendo em vista o grande medo dos mercados estadunidenses perante uma bolha da IA.

Há uma dinâmica incestuosa entre o mercado financeiro estadunidense, o mercado financeiro internacional e os setores de infraestrutura e processamento de dados, principalmente pelo cavalo de frente que é a IA. As grandes promessas da IA têm um comportamento de especulação financeira e há uma necessidade de essas estruturas estarem em expansão.

IHU – Quais os riscos de uma bolha de IA? Seria comparável à crise financeira de 2008?

Vinícius Sousa de Oliveira – Não sou especialista no setor econômico e em dinâmica de mercado, mas compartilhando o que tenho visto e lido sobre os que entendem um pouco mais e os balanços das principais empresas, como a OpenAI, que é uma das grandes chaves de acumulação e de especulação dos últimos cinco, seis anos nos Estados Unidos, há dificuldades contábeis do setor entregar a produtividade que havia prometido para as empresas estadunidenses. Isso cria um desatrelamento entre a expectativa de retorno da lucratividade e a produtividade realizada por essas empresas. Há ali a propensão de uma dinâmica de bolha.

Essa bolha vai ter a capacidade de impacto que teve a crise financeira em 2008? Não sei. Alguns dizem que isso não vai acontecer. Outros dizem que seria positivo acontecer um processo de estouro da bolha porque permitiria uma redução nos custos dos chips de operação para IA e auto processamento, possibilitando sua difusão a preço de mercado mais acessível. Mas o comportamento de bolha está ocorrendo e iremos sofrer isso com impactos negativos para as cadeias globais. A situação do Brasil vai depender de como o país vai estar estruturado no momento que isso acontecer. A meu ver, estamos vulneráveis a esse tipo de situação. 

IHU – Como superar a dependência estrutural das multinacionais? Que políticas públicas seriam necessárias para assegurar a soberania tecnológica no país?

Vinícius Sousa de Oliveira – Agora está no fim do mandato presidencial, mas deveria ter se dado maior ensejo à política Nova Indústria Brasil, que tinha como uma de suas frentes a questão da digitalização e produção de cadeias digitais dentro do país. A Nova Indústria Brasil foi deixada de lado perante outras preocupações de investimento, principalmente nas cadeias de produção agroexportadora, como o Plano Safra e processos de privatização de infraestrutura para arrecadação.

É necessário ter políticas públicas que busquem aumentar a capacidade produtiva do Brasil, fazer a integração de mercados e buscar alternativas aos serviços prestados pelas multinacionais, além de ter dinâmicas para conectar a universidade e os setores públicos de produção através da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (Setec).

Também é preciso ampliar e subsidiar áreas pelo país e ofertá-las ao mercado. A máquina pública tem que ser utilizada enquanto garantia de compra para estímulo e para garantia de demanda dessas empresas que estão envolvidos em um setor profundamente dominado. Também é preciso repensar o comportamento que a União e as unidades da federação têm perante os serviços de computação e nuvem.

Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) sobre o comportamento de contratos e licitações da União e dos estados demonstrou que os estados visam despender milhões do orçamento público na contratação de serviços das big techs. Realizam, assim, uma descaracterização do possível investimento público em novas tecnologias através de empresas nacionais, por ter um comportamento de acesso rápido às tecnologias e serviços estrangeiros. A longo prazo, isso é contraproducente. É necessário repensar essas contratações.

A nuvem do governo, que é a infraestrutura de computação e nuvem para o sistema federal, tem sido construída com ampla parceria de multinacionais, como AWS (Amazon Web Services) e Google. Claro que há quem afirme que não se pode deixar de lado a capacidade técnica estabelecida no cenário internacional por causa de um movimento utópico de desenvolvimento nacional. Entretanto, é preciso, sim, ter um custo fundante em cima do pontapé inicial de desenvolvimento tecnológico.

Nesse sentido, a Universidade de São Paulo (USP) tem desenvolvido as fábricas de bolso [PocketFab] para encapsulamento de chips. Isso é fundamental. É uma iniciativa com caráter experimental que recebe investimentos. Mas aí tem uma coisa: investimento é dinheiro, é gasto efetivo, não é apenas declaração. Tem que ter orçamento em cima desses empreendimentos. Para isso, precisamos repensar a dinâmica da política econômica, que está pautada pela austeridade fiscal. Os principais países que estão na fronteira do conhecimento não estão poupando dinheiro. Dizem que isso cria um déficit, mas os primeiros que conseguirem dominar essas tecnologias vão se sobressair sobre os demais países.

A verdade da dependência tecnológica é esta: quem chega na frente e consegue construir um padrão estável de tecnologia para realizar exportação pode ter grandes chances de dominação e vantagens sobre os mercados novos que estão surgindo.

IHU – O Brasil tem condições de competir com o grande potencial tecnológico e de recursos da China e dos Estados Unidos?

Vinícius Sousa de Oliveira – Não. Nos padrões que já estão estabelecidos, não. Disputar cadeias de produção de chips com a China é materialmente improvável. De acordo com a Setec, o ciclo de maturidade da produção de chips é de dez a quinze anos. Então, estamos falando de investimentos de longo prazo, projetos de Estado, de planejamento econômico do que queremos deste país daqui dez, quinze anos. Isso não vai nos colocar em disputa contra as duas principais potências do ramo, mas podemos tomar como inspiração o exemplo chinês que, ao identificar o domínio dos mercados de controle de chips e tecnologias de informática, mirou na próxima fronteira tecnológica que foi o software e tecnologia de IA. A China mirou para frente porque via que havia uma margem de disputa no mercado de futuro.

Redução da dependência

Outra coisa importante é o interesse em reduzir a dependência. É necessário ter a intenção de reduzir a dependência dos serviços de computação em nuvem. O Observatório da Educação Vigiada aponta que 72% das instituições brasileiras de educação superior utilizam soluções da Google e 8% da Microsoft. Ou seja, 80% dos serviços estão sob o controle dessas duas empresas.

Podemos reduzir essa dependência para 40%, para 30%, criando uma solução interna, como uma plataforma para o ensino superior que seja aberta e desenvolvida pelos pesquisadores brasileiros e que atenda às necessidades do sistema universitário. A vitória absoluta não pode ser o critério da mobilização política. Temos que pensar em reduzir a nossa vulnerabilidade.

IHU – Como as universidades localizadas nas regiões onde os data centers estão instalados têm se posicionando nesse debate?

Vinícius Sousa de Oliveira – Vou dar o exemplo a partir da UFMG. Os serviços de IA que estamos utilizando são um problema porque têm o input de informações na IA. Essas informações são sensíveis. São informações de pesquisas, de pessoas, de material coletado ao longo de todo o trabalho da universidade, as quais são colocadas dentro desses serviços.

A questão colocada nas universidades hoje está em como usar e não sobre se devemos ou não devemos usar esses serviços porque há um certo consenso de que essa é uma situação dada perante as dificuldades que as universidades possuem em relação ao orçamento, ao desenvolvimento tecnológico e a alternativas internas diante de uma coordenação nacional.

Na pandemia, a utilização do Microsoft Teams foi disseminada. Diante do estado de horror que vivíamos, com interrupção das aulas, as universidades recorreram a uma dinâmica emergencial, às big techs que, não por bom samaritanismo, chegaram a ofertar serviços esplendorosos, os quais, depois, se demonstraram uma arapuca. Utilizar quatro, cinco, seis anos de acesso liberado a sistemas de armazenamento e processamento de dados, acaba gerando quantidades absurdas de informações e uma dependência dos programas de pesquisa a esses acessos, os quais podem ser retirados a qualquer momento. A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) teve acesso retirado da plataforma Google Scholar, que hoje é um programa internacional em defasagem.

Para uma dinâmica cotidiana, esse serviço é maravilhoso, especialmente para uma universidade que precisa contratar serviços e gastar dinheiro com isso. Só que do dia para a noite a Google pode dizer que o programa foi finalizado. O que será feito com esses dados? Vamos ter acesso a eles para colocá-los em outro armazenamento? A questão fica na vulnerabilidade de uma situação judicial, que em nível internacional é mais sensível ainda. O que garante que a Google vai realizar o que a justiça brasileira impõe é muito difícil de dizer. É uma grande batalha.

Então, as universidades, perante a redução contínua de verbas, o sucateamento das áreas de tecnologia e infraestruturas próprias, têm, por questão de sobrevivência, aceitado o que o mercado disponibiliza e as licitações conseguem alcançar. A universidade precisa manter uma relação de contrato, de licitações, de pagamentos milionários ao longo dos anos. Hoje, sem uma conexão, nada funciona basicamente.

IHU – Qual é o papel das universidades na discussão sobre a instalação dos data centers no país e da propagação da IA? Além da temática da dependência tecnológica e econômica, para que outros pontos fundamentais os pesquisadores podem chamar a atenção?

Vinícius Sousa de Oliveira – Um dos principais pontos que tenho visto e com os quais tenho concordado bastante é o reconhecimento e o alerta dos impactos reais que os data centers possuem nas localidades em que estão instalados. A internet não é imaterial. Os sistemas de informação não são imateriais. A nuvem é concreta. A nuvem é uma sala cheia de racks de setores em alto processamento, gerando calor e demandando água e energia. Então, os estudos de importância socioambiental por parte da academia têm feito um trabalho excelente de denunciar, expor e fazer um esforço de coleta de informações e sistematizações de uma dinâmica que nos é obscura. 

Uma entrevista muito boa sobre essa questão foi publicada pelo IHU recentemente. O processo da universidade está neste sentido: mostrar todos os fatores que caracterizam esse fenômeno. Temos que apontar a situação e denunciar – muitas vezes, em contradição com a propaganda oficial do governo – o processo de instalação de novas infraestruturas, que são, na verdade, profundamente danosas para o meio ambiente, ainda que tenham um caráter fetichista de avanço, de progresso, de futuro. Elas não são verdes.

Impactos socioambientais

A transição energética também precisa ser profundamente pensada porque é uma questão de manutenção da reprodução da vida social. Precisamos de energia, de energia elétrica. Hoje, dia ninguém sobrevive sem WhatsApp, sem informação constante. Então, precisamos pensar qual será o impacto de manutenção dessas condições materiais que sustentam a vida. A questão socioambiental tem sido negligenciada pelos governos estaduais e federal perante a real condição de inserção dessas infraestruturas.

Nos Estados Unidos, mais de cinco mil data centers estão instalados no vale dos data centers, próximo do Mississippi. Essa estrutura tem gerado impactos socioambientais profundos, como a produção de gases poluentes por causa do acionamento de geradores de emergência que causam poluição concentrada, com efeito regional, danos à flora e fauna ambiental, estresse hídrico e energético, que acaba resultando no aumento das tarifas na conta dos cidadãos daquela região, os quais são dependentes do sistema compartilhado de distribuição energética.

Temos que pensar no que está acontecendo e alterar o rumo. O que vai acontecer não será tão bonito assim. Por vezes, os governos locais só olham para a questão da tributação e da arrecadação. Mas, a longo prazo, depois que acabar a bonança que vem dessa dinâmica, restará a destruição das condições de reprodução da vida. As universidades têm tocado muito nesse ponto de forma proveitosa. 

IHU – Que influência as big techs e a extrema-direita tendem a exercer na disputa eleitoral deste ano?

Vinícius Sousa de Oliveira – O ritmo e o grau de disputa vão ser dados por essas novas tecnologias, principalmente a IA. E será dado pela conivência e leniência das principais big techs que estão instaladas no Brasil para comunicação cotidiana, como a Meta. Mais de 90% dos usuários brasileiros utilizam o WhatsApp, um recurso fundamental de recepção de comunicação e informação entre o brasileiro médio. Essa empresa tem grande peso e há uma preocupação em tentar realizar a controle da Meta, o que não se conseguiu até o momento.

A não aprovação do PL 2630 e a não regulação do setor ao longo do último mandato do presidente Lula vai ter seu peso agora. Já começamos a ver as primeiras experimentações com a IA: vídeos durante o conflito do tarifaço no ano passado, o governo aceitando a utilização de IA para tentar realizar material de mobilização política, de luta ideológica, de luta de narrativas. 

A extrema-direita, que não tem amarras nem restrições, vai utilizar pesadamente tudo o que estiver nas suas mãos. A questão é como as instituições, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e o Supremo Tribunal Federal (STF), vão se preocupar em relação a isso. Se realizarem o mesmo processo que realizaram em 2022 e em 2018, que é tentar chamar as empresas para realizar um programa de checagem dos fatos e das informações de alta replicação, ou seja, fazer um letramento digital, confiando no senso da população média em filtrar as informações que chegam via redes sociais, vai ser uma carnificina de novo.

É injusto com as pessoas exigir que elas tenham capacidade, tempo e a preocupação de verificar cada um dos vídeos e informações que circulam de forma acelerada. Tem uma máquina de milhares de reais envolvida nisso. A eleição vai ser marcada pela IA. Iremos ter um momento de experimentação social com ampla utilização de IA. Vai ser um momento histórico.

IHU – Há possibilidade de alguma regulamentação da Meta ou do uso de IA até o início do período eleitoral?

Vinícius Sousa de Oliveira – Não. Possivelmente vai sair alguma normativa, alguma tentativa do TRE, impossibilitando geração de conteúdo com influência de IA dois, três ou quatro dias antes das eleições. Mas a questão é que a corrida eleitoral já começou no fim do ano passado, com a tentativa de intervenção dos bolsonaristas e do governo estadunidense no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. A eleição começou muito antes. O processo de disputa por narrativas com ampla utilização de IA também. Vamos ver a consolidação desse processo.

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