A inutilidade do eremita que dá gosto ao mundo. Artigo de Enzo Bianchi

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29 Janeiro 2015

Thomas Merton aproximará o monge a outras figuras "marginais" da sociedade: os poetas, os hippies, todas as pessoas "inúteis" das quais o mundo poderia muito bem abrir mão, à custa, porém, do gosto da vida, da riqueza da gratuidade, da leveza própria da liberdade interior.

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal Avvenire, 28-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Talvez, quanto menos estamos conscientes de nós mesmos como monges, mais temos a possibilidade de ser autênticos monges." Assim escrevia Thomas Merton ao beneditino Peter Minard, em janeiro de 1965. O autor do best-seller A montanha dos sete patamares, que fascinara milhões de leitores em todo o mundo, fornecendo "uma espécie de estereótipo do contemplativo que foge do mundo", na realidade, há anos, estava se interrogando sobre o que significava ser monge em uma "era pós-cristã".

No dia 11 de novembro de 1961, enquanto toda a Igreja Católica era atravessada pela vivacidade inesperada da preparação do Concílio, Merton escrevia assim ao Papa João XXIII: "Só agora inicia nos Estados Unidos um pequeníssimo movimento pela paz que reúne protestantes e católicos. Eu tento participar desse movimento como posso, aqui no claustro, com as minhas orações e os meus escritos, e com as conversas com aqueles que vêm aqui".

Quem escreve é o mestre dos noviços que ensina a entender a radicalidade profética dos padres do deserto, que sobreviveram ao naufrágio do mundo e comprometidos a salvar os seus companheiros de navegação; é o monge que, em virtude do voto de obediência, aceita não publicar os seus escritos sobre a paz para não esvaziá-los de credibilidade e de autoridade, e se limita a fazê-los circular apenas em poucos exemplares mimeografados; é o trapista que, com a publicação da encíclica joanina Pacem in terris, observaria como as palavras do Papa João XXIII – ao contrário das suas, tão semelhantes – tiveram a sorte de não terem que estar sujeitas à censura dos superiores...

Essa incessante busca de autenticidade, essa retomada das palavras dos anciãos segundo as quais "é monge aquele que, todos os dias, se pergunta quem é o monge" transparece desde os cursos que, como mestre de noviços, Merton realizará de 1955 a 1965. E encontrará uma síntese muito densa em uma das últimas conferências proferidas durante a viagem ao Extremo Oriente, quando, já dedicado à vida eremítica, ele aproximará o monge a outras figuras "marginais" da sociedade: os poetas, os hippies, todas as pessoas "inúteis" das quais o mundo poderia muito bem abrir mão, à custa, porém, do gosto da vida, da riqueza da gratuidade, da leveza própria da liberdade interior.

O monaquismo de Thomas Merton é um autêntico "viver alternativo", uma vida simplificada, levada de volta ao essencial, uma "escola de caridade" (assim se intitula o livro da sua correspondência com os interlocutores do mundo monástico), capaz de testemunhar aos outros aquela misericórdia e compaixão experimentadas em primeira pessoa.

Paradoxalmente, quanto mais o coração de Merton se dilata para abraçar o mundo inteiro, mais se torna urgente o desejo de viver na solidão da ermida: os muros da clausura, de fato, são feitos para conservar, não para sufocar o amor cósmico.

Se, ao contrário, tornam-se elemento de separação do irmão, então devem ser superadas: derrubando-os ou ultrapassando-os, como fez Merton com os seus escritos, ou escavando em profundidade, como ele soube fazer graças à sua vida de intensa oração.

"Minha voz é a de um homem que se interroga, que – como todos os seus irmãos – luta para enfrentar uma existência agitada, desconcertante, massacrante, apaixonante, decepcionante, confusa." Essa é a voz à qual o monaquismo soube dar o timbre e a profundidade mais adequadas para falar ainda hoje ao coração de tantos homens e mulheres. Esse é o dom feito pelo monge Merton à humanidade, que soube amar com coração unificado.

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