''Sobre o papel das mulheres, adiante, com cautela.'' Artigo de Lucetta Scaraffia

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

02 Julho 2014

Diante de um mundo que cada vez mais fala a linguagem midiática, que efeito pode causar uma grande e importantíssima instituição global que fala apenas através de vozes masculinas?

A reflexão é da historiadora italiana Lucetta Scaraffia, membro do Comitê Italiano de Bioética e professora da Universidade La Sapienza de Roma. O artigo foi publicado no jornal Il Messaggero, 30-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Papa Francisco não disse palavras novas sobre as mulheres na entrevista – a primeira concedida a uma mulher –, mas a novidade já está no fato de que, pela primeira vez, quem lhe fez perguntas sobre o lugar da mulher na Igreja está diretamente envolvida.

O clima cordial – em certos momentos, até mesmo divertido e brincalhão – em que a entrevista foi realizada prova mais uma vez, se fosse necessário, que Bergoglio está acostumado a falar com as mulheres, a ouvi-las, a levar em conta o seu ponto de vista: "As mulheres são a coisa mais bonita que Deus fez" e são indispensáveis à Igreja, não por acaso representada por um substantivo feminino, repete ele mais uma vez.

Mas essas palavras foram proferidas pelo papa em discursos sobre temas gerais, e faltou, ao menos até agora, uma intervenção, um documento totalmente dedicado às mulheres. O Papa Francisco deve agir junto com a Igreja, deve levar em conta o parecer dos seus colaboradores mais próximos e do sentimento difuso entre o clero, como confirma justamente essa entrevista. E sabemos que não são muitos os membros do clero que o seguem nessa abertura.

Por isso, em vez de falar logo de dar um novo posto às mulheres em papéis diretivos, Francisco fala de aprofundamento teológico. Se, de fato, a inovação chegar não como adequação às mudanças sociais impostas pela modernidade, mas sim como profunda compreensão do papel da mulher – e, mais em geral, dos aspectos femininos – na construção da tradição cristã, então a mudança será compreendida por todos e será enraizada em profundidade.

As razões da prudência do papa, portanto, são compreensíveis e motivadas. Não se pode pensar em intervir com a varinha mágica, nem mesmo sendo o papa. Mas, por outro lado, é difícil, hoje, aceitar que o Sínodo sobre a família não preveja, na sua abertura, a escuta de menos um ponto de vista feminino.

Diante de um mundo que cada vez mais fala a linguagem midiática, que efeito pode causar uma grande e importantíssima instituição global que fala apenas através de vozes masculinas? Provavelmente, muitas posições da Igreja sobre os problemas graves e complexos seriam entendidos melhor se fossem apresentadas por uma mulher.

Para dar um único exemplo: se a polêmica questão dos preservativos para conter a epidemia da Aids fosse explicado por uma missionária que vive e atua em uma região marcada por essa terrível doença, em vez de um ótimo diplomata, ela não seria ouvida, talvez, com maior interesse?