Os cem dias de Francisco e o enigma do assento vazio

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Por: Jonas | 25 Junho 2013

Sua repentina rejeição em escutar a Nona Sinfonia de Beethoven, oferecida em motivação pelo Ano da Fé, é o selo de um início de pontificado difícil de decifrar. O êxito midiático que goza tem um motivo e um custo: seu silêncio sobre as questões políticas cruciais do aborto, eutanásia e casamento homossexual.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada no sítio Chiesa, 24-06-2013. A tradução é do Cepat.

Muitos observadores tentaram fazer um balanço dos primeiros cem dias do pontificado de Francisco. Contudo, a imensa e duradoura popularidade que Jorge Mario Bergoglio goza, desde o dia de sua eleição como Papa, já é um elemento de valorização em si mesmo. Uma multidão transbordante comparece em cada uma de suas saídas públicas. Este Papa tem um nível altíssimo de aprovação em todas as pesquisas de opinião, o que se traduz também em um aumento da confiança na Igreja católica. E o que assombra ainda mais é a benevolência com a qual é observado pela opinião pública leiga, que foi especialmente agressiva com a Igreja e o Papa, durante o pontificado de Bento XVI.

 
Fonte: http://goo.gl/QPsML  

O papa Francisco não acredita na medição estatística do êxito. “A estatística quem a faz é Deus”, disse, naquele que talvez seja, entre todos os discursos pronunciados por ele até o momento, o mais representativo de sua visão. Um discurso de meia hora, improvisado, que pronunciou para milhares de fiéis de sua diocese de Roma, que se amontoavam na sala de audiências e na praça circundante, no dia 17 de junho: “Não me envergonho do Evangelho”.

Porém, ao mesmo tempo, ele quer ser popular e sabe ser assim. Diferente do papa Karol Wojtyla, extraordinariamente hábil na sua relação com a multidão, o papa Bergoglio sabe conquistar as pessoas individualmente. Enquanto caminha entre a multidão, ele não olha para o conjunto, mas cruza o olhar, o gesto, a palavra com uma ou outra pessoa que encontra em seu percurso. E se faz isto apenas com uns poucos, todos sabem que também com eles poderia ocorrer o mesmo. O papa Francisco tem a capacidade de se aproximar de cada pessoa.

Mais ainda, sua pregação também é popular. Esta é feita de poucas verdades elementares que são repetidas incessantemente em sua boca e que em definitivo se resumem, tal como fez no anteriormente citado discurso do dia 17 de junho, em um consolante “tudo é graça”: a graça de Cristo que, sem cessar, perdoa mesmo que todos continuem sendo pecadores, realizando com isso “a maior revolução da história da humanidade”.

A pregação do papa Francisco é original na forma, prevalecendo o falar espontâneo sobre o texto escrito. Porém, o que parece fruto da improvisação, na realidade, é cuidadosamente estudado, tal como foi intuído em sua primeira aparição na sacada da Basílica de São Pedro, na tarde de sua eleição como Papa.

O conteúdo de seus discursos, como também seus gestos, também é ponderado pelos silêncios e omissões. Talvez a razão do benefício que Francisco também goza “in partibus infidelium”, ou seja, nos meios de comunicação e na opinião pública leiga, esteja precisamente no que diz e no que cala.

Em primeiro lugar, sua invocação por uma Igreja “pobre para os pobres"– quase convertida na carteira de identidade de Francisco e confirmada pela simplicidade de sua vida cotidiana – é dessas que todos são, inevitavelmente, obrigados a apreciar, mesmo que seja pelas razões mais distintas. Impossível contestar, também, as frequentes investidas do Papa contra os poderosos da finança mundial, mas enquanto se referir a eles de forma geral e imprecisa, nenhum destes verdadeiros ou presumíveis “poderes fortes” se sentirá efetivamente atacado e provocado a uma reação.

Em seguida, estão as insistentes admoestações de Francisco contra a ambição em fazer carreira e a sede de riqueza, inclusive, a corrupção, presentes no âmbito eclesiástico.

A última destas admoestações ocorreu há poucos dias. No dia 21 de junho, o papa Bergoglio recebeu os núncios e os delegados pontifícios e, em seu discurso, exortou-lhes para que desenvolvam com o máximo rigor uma incumbência chave como é a seleção dos candidatos a bispo:

“Na delicada tarefa de realizar a investigação para as nomeações episcopais, estejam atentos para que os candidatos sejam pastores próximos das pessoas. Este é o primeiro critério: pastores próximos das pessoas. [Se] é um grande teólogo, uma grande cabeça, que vá à universidade, onde fará muito bem! Pastores! Nós necessitamos deles! Que sejam pais e irmãos; que sejam bondosos, pacientes e misericordiosos; que amem a pobreza interna, como liberdade para o Senhor, e também a externa, como simplicidade e austeridade de vida; que não tenham uma psicologia de ‘príncipes’. Estejam atentos para que não sejam ambiciosos, que não busquem o episcopado. Diz-se que em uma primeira audiência tida pelo beato João Paulo II com o cardeal prefeito da Congregação para os Bispos, este o apresentou a pergunta sobre o critério para eleição dos candidatos ao episcopado. E o Papa, com sua voz especial: ‘O primeiro critério: volentes nolumus’. Os que buscam o episcopado... não, não funciona. E que sejam esposos de uma Igreja sem estar buscando constantemente outra”.

Na continuidade, o Papa traçou um retrato positivo do bispo ideal, com exortações que também havia dirigido aos bispos italianos, com quem se reuniu, pela primeira vez, no último dia 23 de maio:

“Os pastores devem saber estar diante do rebanho para indicá-lo o caminho, no meio do rebanho para mantê-lo unido, por trás do rebanho para evitar que ninguém fique para trás e porque o próprio rebanho tem, dizendo de alguma maneira, o olfato para encontrar o caminho”.

Pois bem, também aqui é totalmente natural que o papa Francisco goze de um consenso geral, aumentado tanto por seu perfil pessoal, visivelmente distante do objeto das denúncias que faz, como também por sua declarada vontade de estabelecer uma seleção mais cuidadosa dos novos bispos e uma reforma da Cúria Romana.

E mais, o consenso que a esse respeito se estabelece em torno do Papa é tão amplo que silencia os próprios “imputados”. A Cúria está muda, nenhum bispo protesta. Bergoglio não disse como e a quem quer atingir. No Vaticano, as duas realidades que estão mais inquietas são as únicas que ele mencionou, até agora, de forma específica: o “lobby gay” e o Instituto para as Obras de Religião, IOR, onde o Papa já colocou, no dia 15 de junho, dom Battista Ricca, um “prelado” seu, dotado de plenos poderes, que goza de sua confiança, exatamente pela fama de incorruptível que conquistou quando prestava serviço na segunda seção da Secretaria de Estado, onde era muito severo com os núncios esbanjadores e vaidosos.

Um destes núncios impopular para o próprio Bergoglio é o arcebispo Adriano Bernardini, embaixador vaticano na Argentina de 2003 até 2011. Até agora, o papa Francisco evitou encontrá-lo, apesar de Bernardini ser, atualmente, núncio na Itália.

No entanto, o elemento que mais explica a benevolência da opinião pública leiga mundial, em relação ao papa Francisco, é seu silêncio no campo político, especialmente no que diz respeito a terrenos minados, que majoritariamente veem a Igreja católica contraposta com a cultura dominante.

Aborto, eutanásia e casamento homossexual, até agora, são palavras que a pregação de Francisco evitou pronunciar de forma deliberada.

No dia 16 de junho, na jornada de celebração da “Evangelium vitae”, a vigorosa encíclica de João Paulo II contra o aborto e a eutanásia, o papa Bergoglio, sim, comentou, mas com frases de uma brevidade e generalidade espantosas, quando comparado com a formidável batalha, em escala mundial, com a qual o papa Karol Wojtyla combateu em 1995 e no ano anterior, cujo epicentro foi a Conferência sobre a População e o Desenvolvimento, convocada pelas Nações Unidas, no Cairo.

João Paulo II e, depois dele, Bento XVI gastaram uma grande quantidade de energia para enfrentarem o enorme desafio que representa a atual ideologia sobre o nascer e o morrer, como também em relação à dissolução da dualidade criatural entre homem e mulher. Para esta questão, na vigília do último Natal, o papa Joseph Ratzinger dedicou seu último grande discurso à Cúria.

Esses dois Papas se sentiram mais ainda no dever de se tornar guia e em “confirmar a fé” dos católicos sobre estes temas cruciais, justamente porque eram conscientes da dúvida de tantos fiéis e da fragilidade de muitas conferências episcopais nacionais, com as poucas exceções da Conferência Episcopal Italiana, com os cardeais Camillo Ruini e Angelo Bagnasco como presidentes; a Americana, com os cardeais Francis George e Timothy Dolan como presidentes e, ultimamente, a Francesa, com o cardeal André Vingt-Trois como presidente.

O recente caso francês, com a extraordinária reação de intelectuais e do povo católico e não católico, em relação a já legitimada lei sobre o casamento homossexual, era a questão pela qual mais se observava o papa Francisco. Entretanto, ele não disse nenhuma palavra em apoio à ação da Igreja da França, nem sequer quando, no dia 15 de junho, recebeu os parlamentares do “Grupo de amizade França – Santa Sé”, no Vaticano.

Pode-se prever que Francisco também utilizará esta sua reserva, no futuro, em relação a questões que atingem a esfera política. Uma reserva que também amordaçará a Secretaria de Estado. É uma convicção do Papa que estas intervenções sejam de responsabilidade dos bispos de cada nação. Aos italianos disse com palavras inequívocas: “O diálogo com as instituições políticas é coisa de vocês”. Existe um grande risco ao delegar isto, em razão do julgamento pessimista que Bergoglio tem sobre a qualidade média dos bispos do mundo, que podem sentir a tentação, por sua vez, de delegarem as decisões para os leigos, também eles de duvidosa confiabilidade, renunciando o papel de guia, que diz respeito a quem está investido pelo caráter episcopal. Porém, é um risco que Francisco não teme enfrentar, pois está convencido, e disse isto, que se o bispo está indeciso, “o próprio rebanho tem o olfato para encontrar o caminho”.

Por último, há outro silêncio que caracterizou os primeiros cem dias do papa Francisco. É o silêncio sobre o Concílio Vaticano II, por ele citado apenas raramente e marginalmente. Ao contrário, para Bento XVI foi um elemento central até o último momento: basta pensar na extraordinária relação que fez do mesmo, aos párocos de Roma, poucos dias antes de sua renúncia ao pontificado.

Aqui, o milagre também reside no fato de que praticamente foram silenciadas as controvérsias intraeclesiais sobre a interpretação e a aplicação do Vaticano II, que haviam se inflamado, de maneira especial, com o papa Ratzinger.

Com o papa Francisco, o cisma lefebvriano entrou em letargia e sua recomposição parece muito distante. Ao mesmo tempo em que, ao contrário, os favorecedores de uma democratização da Igreja cantam louvores ao novo Papa. Contudo, caso sejam comparados os primeiros cem dias do papa Francisco com o progressista “programa dos primeiros cem dias” entregue por Giuseppe Dossetti, Giuseppe Alberigo e Alberto Melloni aos cardeais dos dois conclaves de 1978, e que foi reimpresso por ocasião dos conclaves de 2005 e de 2013, descobre-se que o atual Papa se assemelha muito mais a um geral da Companhia de Jesus. À moda antiga.

Post Scriptum

Exatamente em seu centésimo dia como Papa, no dia 22 de junho, Francisco teve um gesto que, desta vez, deixou surpresos alguns de seus mais convencidos admiradores. Por motivo de uma imprecisa “obrigação urgente e improrrogável”, anunciada apenas no último minuto, também passando batido pelo “L’Osservatore Romano”, o Papa deixou vazio o seu assento no centro da sala de audiências, onde iriam oferecê-lo, em razão do Ano da Fé, a Nona Sinfonia de Ludwig van Beethoven, que foi efetivamente executada, em seguida, na sua ausência.

“Não sou um príncipe renascentista que escuta música ao invés de trabalhar”. Esta é a frase que alguns “papistas” da Cúria colocaram em sua boca, ignorando que com isso apenas o prejudicavam.

Para o historiador da Igreja, Alberto Melloni, o gesto tem a grandeza de “um repique solene, severo”, que confirma o estilo inovador do pontificado de Francisco. Contudo, na realidade, o que tem feito é tornar este início de pontificado ainda mais indecifrável.

O impulso evangelizador do papa Francisco, seu desejo de alcançar as “periferias existenciais” da humanidade, de fato, teria na grande linguagem musical um veículo de extraordinária eficácia. Na Nona Sinfonia de Beethoven, esta linguagem alcança cumes sublimes, torna-se compreensível para além de todas as extremidades da fé, converte-se em um “Átrio dos Gentios” de incomparável esplendor.

Após a audição pública de cada concerto, Bento XVI compartilhava suas reflexões, que tocavam a mente e o coração dos que participavam. Há um ano, exatamente após ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven, no Teatro alla Scala de Milão, o papa Joseph Ratzinger concluiu da seguinte forma: “Após este concerto, muitos irão à adoração eucarística, ao Deus que se envolveu com nossos sofrimentos e continua agindo assim. Ao Deus que sofre conosco e por nós, e assim capacitou os homens e as mulheres para compartilharem o sofrimento dos demais, para transformá-lo em amor. Justamente para isso que nos sentimos chamados por este concerto”.

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