Bento XVI e o último Angelus. Um gesto de nobreza

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26 Fevereiro 2013

"In nomine Patris et Filii...". Com gesto elegante e preciso, o Papa Ratzinger abençoa a multidão reunida na Praça de São Pedro para o seu último Angelus. Os romanos são a maioria. Às 10h30, a esplanada da colunata ainda estava semivazia, preenchida pelos cantos dos Neocatecumenais. Depois, irrefreável, a multidão começou a crescer, a transbordar pelo grande chafariz, lotando até o início da Via della Conciliazione. Mais de 100 mil. Inúmeros os jovens. Famílias com carrinhos de recém-nascidos. Velhinhos, freiras, padres, turistas, transeuntes desavisados que farejam o evento. Três meninas de Madri confessam: "Curiosidad dura y pura". Um indiano fotografa a sua esposa grávida e pergunta: "Estou vindo de uma viagem de negócios em Budapeste, o que está acontecendo?".

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 25-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Confetes no meio da multidão, que flui continuamente para dar a Ratzinger um último adeus. Os romanos são afeiçoados aos seus papas, quando não tentam jogar os seus restos mortais no rio Tibre, como aconteceu com Pio IX. Os romanos foram conquistados por Ratzinger durante o funeral de João Paulo II, quando evocou a "janela do céu" da qual Wojtyla estava olhando a multidão. Depois, muitos deles se desapaixonaram um pouco. Agora – reconquistados pela grandeza da renúncia – voltam afetuosos a se reunir em torno do pontífice, muito sozinho e desarmado no caos da Cúria.

Michael, norte-americano de 20 anos, resume: "Estou curioso e animado. Sou católico... não sei o quanto são verdadeiras as razões da renúncia, mas também não acredito em quem me fornece outras versões". Um casal romano de meia-idade abre caminho para garantir um lugar com vista para a janela do escritório papal. É a segunda à esquerda do canto direito do Palácio Apostólico. "É um evento inesperado", diz ela, "não podíamos perder. É um forte sinal que o papa dá à Igreja". "Fiquei surpreso", diz ele, "mas eu o entendo. Mesmo que se ignorem os motivos".

São muitas as bandeiras. Baviera, México, Cuba, Índia, França, Áustria, Espanha, Argentina... Muitas as faixas. "Fiéis ao papa", "Sentiremos a tua falta", "Nós, jovens, te entendemos". Pombos e gaivotas voam no céu. Os andaimes das restaurações da colunata parecem aludir a uma Igreja "em obras". Agiganta-se a Nossa Senhora de Wojtyla.

Poucos minutos antes das 12 horas, a janela mais célebre do mundo se abre. Cai o pano com o brasão, ondulam as cortinas, depois – com o eco do canhão do meio-dia – aparece a pequena figura branca de Ratzinger, cercado por ondas de aplausos.

O filho de um policial de um vilarejo bávaro que se tornou sumo pontífice dá uma lição de nobreza. Nada de concessões ao show do adeus, nenhuma frase de efeito para arrebatar o aplauso, nenhum movimento de estrela. Só alguns tímidos "obrigado, obrigado", quando os aplausos o interrompem, e sóbrias expressões de gratidão em várias línguas pelo "afeto e a proximidade e a partilha que vocês me demonstram".

Acima de tudo, o convite a refletir sobre uma passagem do Evangelho "particularmente bonita". O retiro em oração de Jesus no monte Tabor. Rezar não é isolar-se do mundo, explica o pontífice alemão, mas é "dar fôlego à nossa vida espiritual" para descer novamente cheios de amor e de força, e "servir os nossos irmãos e irmãs com o mesmo amor de Deus".

Até o fim, Ratzinger se concentra no que sentiu como sua única missão: anunciar o Evangelho.

Voltado à multidão, que o chama várias vezes, o Papa Bento XVI se concede um único inciso, dedicado a "este momento da minha vida". O Senhor, diz ele, "me chama para subir o monte... para me dedicar ainda mais à oração e à meditação". Mas, acrescenta, isso não significa abandonar a Igreja; ao contrário, é um pedido de Deus para servi-la ainda "com a mesma dedicação e amor com que eu servi até agora, mas de um modo mais adequado à minha idade e às minhas forças".

Ele não consegue terminar a frase; por três vezes o rugido da multidão o interrompe. "Na oração", assegura depois aos peregrinos italianos, "estamos sempre perto".

Diz uma freira de 50 anos, de cabelos brancos: "Somos gratos a ele. Ele fez uma escolha inteligente, verdadeira, humilde, profética". Já faltam 100 horas para o seu escondimento. Joseph Ratzinger não se assomará nunca mais àquela janela. Não abençoará Urbi et Orbi daquele palácio imperial. Com um sorriso à flor dos lábios, o papa racional, que não quis acabar desfeito mártir como Wojtyla, retribui o afeto da multidão.

Brinca sobre o sol, que se assoma entre vento e nuvens. Confunde-se no último discurso em polonês. Lembra a transfiguração de Cristo na oração. "Acompanhamo-lo nessa experiência forte e bonita", confidenciou-me uma freira colombiana.

Ascético e aristocrático, Ratzinger parece estar muito solitário lá em cima na janela. O Ângelus terminou, o papa estende ainda a sua mão direita em direção à multidão lá embaixo e já se vira para entrar. Só por um segundo ainda se vê estender-se na linha do parapeito o solidéu branco.

Na praça, dezenas de milhares de vozes gritam e se esgoelam, como que pedindo um bis. Mas Bento XVI não volta. Um momento de suspensão, depois se soltam os sinos pesados de São Pedro.

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