"O ataque às igrejas é a nova fase da estratégia". Entrevista com Samir Khalil Samir

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06 Janeiro 2011

"Estratégia de violência que tem na mira os cristãos", havia dito o Papa no Ângelus do dia 2 de janeiro. "Ingerência nos assuntos internos do Egito", havia respondido o Grão Xeique da Universidade Al-Ahzar do Cairo, Ahmed al-Tayeb. Palavras estas que geraram uma certa surpresa, já que al-Tayeb – formado na Sorbonne de Paris, ótimo conhecedor de francês e inglês – é conhecido como um líder moderado, frequentemente presente nos encontros internacionais inter-religiosos.

"Mas não é tão estranho se conhecemos o modo islâmico", diz o padre Samir Khalil Samir, teólogo jesuíta e um dos máximos especialistas em Islã.

A reportagem é de Riccardo Cascioli, publicada no sítio La Bussola Quotidiana, 04-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Padre Samir, por que a reação de al-Tayeb não é estranha?

Porque, no Islã, falta qualquer senso de autocrítica, qualquer reflexão sobre o Islã. Talvez, em um encontro privado entre poucas pessoas, al-Tayeb poderia dizer outras coisas, mas toda intervenção pública sempre é apologética, jamais se coloca em discussão o Islã. Eu lia, por exemplo, um fórum de um jornal egípcio: havia 60 intervenções. Todos, quase todos, defendiam que o atentado não tinha nada a ver com o Islã, que era um ato externo. A maior parte apontava o dedo contra Israel e os EUA. Nenhum deles se fez, ao menos, a pergunta sobre como, no mundo islâmico, se chegou a fazer isso.

O Papa falou claramente de "estratégia de violência que mira os cristãos".

Qualquer um pode ver que a violência está aumentando, e é uma violência sempre mais cega. Além disso, há um fato novo: essas mortes de pessoas na igreja ou em frente à igreja, agora no Egito, assim como havia acontecido há dois meses em Bagdá. Há um salto de qualidade, uma conotação religiosa mais evidente, que coloca os cristãos na mira. É um fato indiscutível: na Nigéria, no Vietnã, no Paquistão e assim por diante. Nem toda, mas grande parte dessa violência vem do mundo islâmico e põe na mira principalmente os cristãos, embora não exclusivamente.

"Estratégia de violência" faz pensar em uma direção única.

Há, seguramente, uma tendência única. Isto é, há algumas décadas, surge no Islã uma tendência radical e que se radicaliza cada dia mais em todo o mundo islâmico, mas que é mais penetrante nos países com governos mais fracos. A tendência dos fundamentalistas islâmicos é de querer instaurar um Estado islâmico, isto é, um Estado fundado na aplicação da sharia de modo rigoroso, como no Irã, na Arábia Saudita, no Paquistão e em 12 províncias da Nigéria. Justamente na Nigéria, por exemplo, em poucos anos, vimos crescer esse movimento antes com uma província, depois duas, seis, agora 12, talvez mais. Vemos isso também nas Filipinas, em Mindanau, ou em algumas províncias da Indonésia. E também na Malásia, onde os cristãos são até proibidos há anos de usar a palavra Alá, que é a única – embora de origem árabe – para indicar Deus em língua malaia. Mas os islâmicos consideram essa palavra um monopólio seu, e não interessa que seja uma palavra árabe que nós, cristãos, usamos antes dos muçulmanos, e que os judeus a usaram antes ainda em árabe.

Há, portanto, uma tendência que se difunde e é sustentada aqui e ali por uma estratégia de difusão. Há diversas instituições que se ocupam disso, também nos EUA: há um grupo nos EUA, por exemplo, para a islamização da cultura, que publicou cerca de 30 livros em árabe, difundidos depois nos países do Oriente Médio. Há um projeto de islamização da cultura, da economia, da política, da ciência. Isso não quer dizer automaticamente violência, mas facilmente pode ser transformado em violência pelos movimentos radicais. E é isso que vemos sempre mais frequentemente nestes últimos tempos. E a violência dá um salto importante quando são atacadas as igrejas. Uma coisa até agora inaudita. Por isso, o Papa lançou um apelo porque existe esse duplo fator: há uma estratégia, e ela se dirige contra os cristãos.

Porém, o Grão Xeique de Al-Ahzar critica o Papa de não usar a mesma solicitude quando os muçulmanos que são mortos.

Isso não é verdade. Se se faz alusão à invasão norte-americana no Iraque, se alguém disse com autoridade que essa invasão não é admissível, esse alguém foi João Paulo II e, depois dele, Bento XVI. A Santa Sé jamais defendeu a legitimidade da agressão contra o Iraque e contra Saddam Hussein. Porém, essa agressão, condenada pela Igreja, não era contra os muçulmanos. E me surpreende que uma pessoa culta como o Grão Xeique de Al-Ahzar faça essa mistura entre política e religião. Os EUA agrediram o Iraque, não foram os cristãos dos EUA que agrediram os muçulmanos do Iraque. Deve-se dizer chega, e com clareza, para essa confusão contínua enter religião e Estado.

O Iraque não é muçulmano, não foi uma agressão contra o Islã. Na realidade, existe uma agressão contra o Islã, mas é uma agressão de muçulmanos contra muçulmanos, de sunitas que agridem os xiitas e de xiitas que agridem os sunitas. Quando, no Iraque, alguém se explode dentro de uma mesquita é inaceitável, mas isso é feito por outros muçulmanos. O mesmo acontece no Paquistão, assim como aconteceu no Líbano. Mas a agressão de um país contra um outro não tem nada a ver com a religião. No caso dos últimos dias, ao contrário, há uma agressão de muçulmanos contra os cristãos, em uma igreja. Quando se põe na mira uma igreja, a mensagem é clara. O mesmo acontece no Iraque, para caçar os cristãos.

Por que querem eliminar os cristãos?

Os cristãos devem ser eliminados sobretudo porque não são islâmicos e são, portanto, um obstáculo para se criar um Estado islâmico. No Iraque, há um projeto para dividir o país em três partes: sunitas, xiitas e curdos. Para os cristãos, não há espaço. Neste momento, são empurrados com violência para o Curdistão, no nordeste do Iraque, mas os cristãos sabem que essa não é a sua terra: os curdos, hoje, os acolhem, amanhã podem matá-los, como já aconteceu no passado. Os cristãos, depois, em todo o Oriente Médio são os artífices do desenvolvimento cultural e econômico, são um movimento de modernidade, e há quem não queira a modernidade. Ou – e essa é uma terceira razão – por puro fanatismo: os cristãos devem ser submetidos. No limite, protejamo-los para que permaneçam submetidos.

O senhor dizia antes que há uma tendência, mas também centros de difusão dessa tendência. Quem é que os lidera?

No Oriente Médio, o dinheiro vem dos países islâmicos petrolíferos, com a Arábia Saudita na frente. Mas a ideologia vem do Egito, seja do movimento dos Irmãos Muçulmanos, seja das tendências mais radicais que nasceram desse movimento. No subcontinente indiano – Paquistão, Afeganistão –, a ideologia partiu de um outro movimento semelhante, ou seja, dos talibãs. O Irã, por sua vez, tem a sua ideologia, que começou com Khomeini e que chega até o Líbano com os hezbollah. A tendência, na realidade, é a mesma, assume formas particulares de acordo com os países e as divisões entre sunitas e xiitas. Depois, o aspecto militante e militar vem do fato de que vivemos em países que são, todos, mais ou menos, corruptos. No Oriente Médio, temos só dois sistemas: ditatorial ou semiditatorial, como era o Iraque no tempo de Saddam e como é ainda hoje a Síria de Assad: há segurança, mas sem liberdade. Ou temos o sistema islamista fundamentalista. A única exceção a essa bipolaridade é, talvez, a Jordânia. Em todo o caso, nos encontramos entre dois extremos.

Mas, então, tentar levar a democracia era uma ideia equivocada?

Mas não se pode exportar a democracia. Só o fato de querer exportá-la já é um ato antidemocrático. A democracia deve ser criada por nós: será diferente de povo para povo, mas com a aceitação do princípio de que haja um Estado de direito, em que não é a tribo ou o grupo de pressão que decide. Infelizmente, as coisas hoje vão na direção errada: as eleições no Egito, por exemplo, foram visivelmente falsificadas. E isso, para as pessoas, é inaceitável, porque hoje – com a globalização da mídia – todos sabem o que acontece, até os analfabetos. Mas os modos de fazer não mudaram. Basta olhar: na Líbia, Gheddafi é presidente há 40 anos. Na Tunísia, país que progrediu, novamente há uma forma de ditadura. No Egito, agora chegou o filho de Mubarak, Gamal. Na Síria, existe a dinastia de Assad. E estou falando dos países que não retrocederam. É uma situação insustentável que suscita movimentos que querem uma transformação. Ora, o único movimento capaz de reunir as massas é o islâmico. Porque, entre nós, basta dizer religião e não há mais discussão.

Mas, no mundo islâmico, além dos movimentos fundamentalistas, há alguma outra coisa que possa ir na direção oposta?

Vemos algo diferente na Tunísia, por exemplo: na faculdade de teologia de Túnis, há uma abertura diferente, que inicia com a obrigação para os estudantes de aprender obrigatoriamente uma língua não muçulmana (inglês, francês, italiano, o que se quiser) para ter uma abertura ao mundo não muçulmano. Porque, se eu só leio árabe, nunca saio desse giro mental. A primeira coisa, por isso, é o conhecimento ativo de uma língua ocidental que permite confrontar-se com um outro ponto de vista sobre o mundo islâmico, sobre os estudos etc. Depois, há uma abordagem diferente da história, para sair de uma visão repetitiva, em que um bom imã é alguém que repete perfeitamente o que foi dito nos primeiros séculos de Islã. Começa-se a entender que não se deve só aprender o Alcorão de memória – isso não é um mal –, mas também aprender a entendê-lo, a interpretá-lo, a estudá-lo.

Os imãs espalhados pelo mundo, porém, não se formam na Tunísia.

Isso é verdade, e é verdade que, da Universidade Al-Azhar do Cairo saem milhares de imãs de todos os países, que absorbem também a ideologia fundamentalista, mas é justamente para a educação que devemos apontar. Porque o problema não é militar ou econômico, embora isso tenha a sua importância. O problema é essencialmente ideológico. E, nos países islâmicos, o modelo religioso implica que o Islã seja a resposta a tudo. O partido dos Irmãos Muçulmanos, que tem uma grande influência em todo o mundo árabe, usa uma fórmula muito simples, que consiste em duas palavras: "O Islã é a solução". Qualquer pergunta que seja feita, a resposta está dada: "O Islã é a solução". Como eu não consigo encontrar trabalho? "O Islã é a solução". Como não tenho casa? "O Islã é a solução". O que significa que o Islã, por exemplo, prega a solidariedade; portanto, se aplicarmos o Islã não haverá pobres. Isso, obviamente, é um mito, mas repetir sempre essa fórmula é convincente para as pessoas. Falar de justiça, de direito nesse modelo não tem sentido: o Islã tem o seu direito, a sharia. Onde está o problema? O prolema é que a sharia foi estabelecida no século IX, e nós vivemos no século XXI, e, enquanto isso, há outras pretensões por parte das pessoas.

Como é possível sair desse impasse?

O grande desafio, repito, é o da educação, do uso da razão. Se tomarmos a sharia, por exemplo, vemos que – a parte alguma exceção – nenhum país islâmico a aplica quando se trata de cortar a mão de quem rouba. Todos suspenderam essa aplicação. Isso quer dizer que até nos países islâmicos se considera que a sharia, tomada tal e qual, não é aplicável, mas ninguém quer tirar as conclusões e começar a repensar um projeto de sociedade islâmica que acerte as contas com a modernidade. Ou tomemos o exemplo do suicídio: o Islã o rejeita. Entre todas as religiões que eu conheço, o Islã é até a mais dura contra quem se suicida, porque não tem nem o direito à sepultura, deve ser deixado no deserto e ser comido pelas feras. Então, como se explica o fenômeno dos homens-bomba? Como é possível que tantos se suicidam? Ah não, dizem, é diferente, porque fazem isso por amor a Deus e à comunidade islâmica. Dois pesos e duas medidas.

Ao contrário, é preciso ajudar a refletir: por que o Islã, o cristianismo e as outras religiões são contrárias ao suicídio? Porque o suicídio significa um desespero com relação a Deus, falta de fé. Então se reflete, e, refletindo, por exemplo, a Igreja reconheceu que muitas vezes é um fenômeno psicopático, não uma rebelião contra Deus. Então se disse: demos a sepultura também religiosa aos suicidas. Para nós, essa reflexão contínua sobre a realidade é normal, mas no mundo islâmico está bloqueada desde o século XII, não existe mais. E aqui está o desafio: retomar esse caminho de reflexão. No Egito, situação que conheço bem, há milhares de personalidades excepcionais, que já estão nesse caminho. O prolema é que são intelectuais, universitários leigos, e, não sendo religiosos, não têm peso. É importante, agora, que esse processo inicie também entre os religiosos.

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