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05 Janeiro 2011

A dureza com a qual o Imã de Al-Azhar, Ahmed Al Tayeb (foto), respondeu às palavras de Bento XVI lembrando-lhe a condenação inexistente para as vítimas muçulmanas durante a guerra do Iraque não deve enganar. Al Tayeb não é um extremista e nem um obtuso fideísta. Ele chegou à cúpula da grande instituição sunita depois de ter percorrido, desde os 10 anos, todos os degraus antes de se tornar reitor e, com a morte de Mohammed Sayed Tantawi, Grande Imã.

A reportagem é de Antonio Ferrari, publicada no jornal Corriere della Sera, 03-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Al Tayeb é um intelectual de 64 anos de modos gentis e caráter tolerante. O seu PhD em filosofia islâmica foi obtido em Paris, na Sorbonne, e a sua capacidade de assimilar com inteligência os impulsos progressistas conjugando-os com a sua própria cultura o levou a alcançar o cargo mais alto para um líder religioso sunita.

Diferentemente de Tantawi, que era intransigente apenas quando a linha da intransigência agradava fortemente o poder político, Al Tayeb tem uma visão que poderíamos definir como mais atenta e realista. Ele é seguramente muito próximo do presidente [do Egito] Hosni Mubarak. É obviamente inscrito no partido do líder, que hoje é liderado pelo filho Gamal, forte candidato para as próximas eleições. Mas é principalmente um convicto moderado.

Ainda nos anos transcorridos na cúpula da universidade de Al-Azhar, ele havia se manifestado duramente não apenas contra o extremismo dos Irmãos Muçulmanos, mas também havia defendido que a prestigiosa faculdade e o seu campus não podiam ser utilizados para marchas e andanças de jovens estudantes encapuzados que celebravam a violência e gritavam slogans em favor dos guerrilheiros armados de Ezzedim al Qassem (braço militar do Hamas), do Hezbollah libanês e dos Pasdaran iranianos.

Al Tayeb, logo acusados pelos extremistas de ser um "fantoche" do Executivo, respondeu com calma, em árabe dentro do país e em inglês e francês (línguas que fala fluentemente) nas entrevistas destinadas ao exterior, para explicar as suas convicções. Disse que, em suma, é preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre as várias escolas de pensamento: entre os salafitas intransigentes, que gostariam de impôr a lei do islã, rejeitando tudo o que vem do Ocidente; e os modernistas prontos a acolher as outras culturas em nome do progresso. Al Tayeb se distancia dos primeiros, procurando uma terceira via, que aceite a modernidade respeitando a cultura e as tradições do islã.

As suas conferências sobre o papel do colonialismo no Egito e, mais em geral, no Oriente Médio são um exemplo de sólida preparação. Nos encontros internacionais (ocorreu também com a Comunidade de Santo Egídio), Al Tayeb não apenas explica as suas opiniões, mas participa dos debates, é curioso, faz perguntas inteligentes. Não parece, enfim, prisioneiro de um papel formal, mas sim um ativo protagonista de uma obra de renovação, que se refere justamente a Al-Azhar, que significa uma das universidades mais prestigiadas do mundo e cúpula religiosa.

Al-Azhar tinha uma necessidade absoluta de uma forte maquiagem inovadora. Fundada em 970, representou por séculos o centro do pensamento religioso sunita, e toda intervenção sua era lei para centenas de milhões de pessoas. Mas justamente essa linha de equilíbrio, principalmente nas últimas décadas, dominadas também no islã pela globalização, pelas novas tecnologias e pelas profundas mudanças no mundo da informação, havia se enfraquecido. Em vantagem da propaganda menos equilibrada e decisivamente mais extremista, difundida principalmente pela televisão.

A linguagem suave do passado e talvez uma excessiva dependência do poder político correram o risco de fazer com que a instituição sunita perdesse prestígio. E agora, com Al Tayeb, ela busca um grande relançamento. No último domingo, justamente o culto e moderado líder sunita havia feito uma visita ao Papa Shenuda III, o líder da Igreja copta, para lhe apresentar as suas condolências. Na saída, o cortejo de Al Tayeb foi atacado por manifestantes cristãos, que gritavam a sua raiva pelo massacre da igreja de Alexandria. O risco de um perigoso conflito inter-religioso é alto, e, exatamente para atenuá-lo, o Imã de Al-Azhar respondeu a Bento XVI.

 

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