Financiamento de países ricos a nações em desenvolvimento deve ser um dos legados de Glasgow. Entrevista especial com Fabiana Alves

Para ativista, “esse nível de responsabilidade precisa ser levado em conta” porque, no passado, “foram prometidos 100 bilhões de dólares por ano”, mas a promessa não se cumpriu

Fantoche Amal representa uma criança síria refugiada e chega à COP26 | Foto: Kiara Worth/UNFCCC

Por: João Vitor Santos | 12 Novembro 2021

 

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP26, realizada em Glasgow, na Escócia, encerra as negociações oficialmente nesse fim da semana. Mas o que há de sair de mais um encontro de líderes mundiais, nesse momento em que a crise climática já pode ser vivenciada com efeitos drásticos sobre a população humana na Terra? “Glasgow ainda tem chances de dar o acordo que nós precisamos, assim estamos esperando e por isso estamos fazendo pressão para que isso aconteça”, pontua a ativista Fabiana Alves. Ligada ao Greenpeace Brasil, ela tem passado os últimos dias entre reuniões, entrevistas, articulações e protestos, mesmo que à distância, para que os discursos nessa COP se tornem efetivos. “Glasgow está trazendo muito blá-blá-blá e pouca ação real. Essas ações e promessas que saem em Glasgow precisam ser implementadas nacionalmente em cada país para que a gente consiga reduzir a temperatura global em 1.5 graus célsius até o fim do século”, dispara.

 

A pedido do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, numa entrevista concedida através de troca de mensagens pelo WhatsApp, Fabiana analisa o encontro e aponta o que tem que ser um legado dessa COP: o financiamento para países em situação de vulnerabilidade. “Precisamos de financiamento para esses países e também para os de industrialização recente, que são aqueles que não têm dinheiro para ações que possam conter essa crise do clima. Os que têm dinheiro têm uma responsabilidade maior porque se industrializaram antigamente e são os maiores emissores”, explica. “Esse nível de responsabilidade precisa ser levado em conta e precisa sim haver financiamento de países desenvolvidos para outros em desenvolvimento. No passado, foram prometidos 100 bilhões de dólares por ano e essa promessa não aconteceu”, acrescenta.

 

A medida fica ainda mais clara quando olhamos para o caso da Índia. Algumas pessoas têm visto como um problema o fato de um dos maiores países em população e poluição do mundo estar tensionando para que se protele o cumprimento das metas sobre emissão de gases que causam o efeito estufa. “Realmente países como a Índia querem adiar carbono neutro para 2070 ou 2060, mas acontece que estão em desenvolvimento e pendem para países desenvolvidos para que haja financiamento para que possam conter a crise do clima. Isso porque, do contrário, eles não vão conseguir fazer com que a promessa que eles fazem dentro do Acordo de Paris aconteça”, explica Fabiana.

 

Por fim, ela ainda analisa a participação popular na COP e o protagonismo dos jovens nessa luta para salvar o planeta. “Glasgow viu a maior delegação de povos indígenas do mundo. Temos, também, a juventude cada vez mais tomando conta dos espaços de negociações internacionais; os povos indígenas e as comunidades tradicionais tomando conta desses espaços. A ONU precisa entender que ela tem que abrir esse espaço para a sociedade”. Ainda sobre os jovens, muito sensivelmente aponta sinais de esperança. “Temos esperança de que o mundo possa ter um futuro melhor com essas gerações que não só estão protestando, pedindo por um mundo melhor, mas também estão ensinando seus pais sobre esse mundo melhor”.

 

 

Fabiana Alves (Foto: Greenpeace Brasil)

 

Fabiana Alves é formada em relações internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São paulo – PUC-SP e pós-graduada em economia pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas – FIPE. Trabalha no Greenpeace há 8 anos, tendo passado por diversas Campanhas da Organização. É hoje coordenadora da Campanha de Clima e Justiça e acompanha as discussões de clima nacionais e internacionais.

 

Confira a entrevista.

 

IHU – Qual sua avaliação com relação a COP26 até o momento?

 

Fabiana Alves – Minha avaliação é de que ela teve muitos avanços. Temos um acordo para desmatamento ilegal zero e, apesar de não ser o desmatamento zero, é um avanço aos países. Temos, até agora [manhã quinta-feira no Brasil, 11/11], no texto final, a menção para que os países deixem de usar combustíveis fósseis. Tivemos, ainda, um acordo para reduzir as emissões de metano, entre outras.

O problema é que o está vindo - muitas das promessas, por exemplo, para que os países parem de emitir carbono neutro em 2050 - vem por trás de muita falsa solução. É o caso do mercado de carbono, que na verdade é uma compensação de emissões ao invés de uma mudança sistêmica. Efetivamente, é isso que precisamos para diminuir as emissões de gases de efeito estufa.

O que é essa mudança sistêmica? É investir em energias renováveis, ter uma promessa de desmatamento zero, manter a floresta em pé e não só zerar o desmatamento ilegal, mas ter ainda investimentos em agroecologia, ter o fim dos combustíveis fósseis. É possível que tudo isso seja feito, mas é preciso que os países tenham vontade política para que isso aconteça. E as empresas precisam acompanhar o que já está vindo por parte dos governos.

 

 

IHU – Glasgow poderá dar origem ao acordo climático global que precisamos? E quais as possibilidades de ser cumprido esse acordo?

 

Fabiana Alves – Glasgow ainda tem chances de dar o acordo que nós precisamos, assim estamos esperando e por isso estamos fazendo pressão para que isso aconteça. E esse acordo precisa ter e ser claro quanto a que os países revisem suas contribuições ao Acordo de Paris anualmente, que eles tenham essas contribuições cada vez mais ambiciosas de um ano para outro. É preciso também que haja a promessa do abandono total de combustíveis fósseis e de deixar a floresta em pé, e fazer com que o desmatamento zero seja uma realidade global.

Além disso, é muito importante mencionar que essa COP precisa fechar o Livro de Regras para que a gente consiga começar a implementar o Acordo de Paris a partir do próximo ano.

 

 

Financiamento

 

Outra parte importante que precisa sair em Glasgow é o financiamento para os países em situação de vulnerabilidade, os que são mais impactados pela crise do clima. Precisamos de financiamento para esses países e também para os países de industrialização recente, que são aqueles que não têm dinheiro para ações que possam conter essa crise do clima. Os que têm dinheiro têm uma responsabilidade maior porque se industrializaram antigamente e são os maiores emissores.

Esse nível de responsabilidade precisa ser levado em conta e precisa sim haver financiamento de países desenvolvidos para outros em desenvolvimento. No passado, foram prometidos 100 bilhões de dólares por ano e essa promessa não aconteceu. O máximo que se chegou foi a 80 bilhões por ano, mas que ainda não aconteceu efetivamente em todos os anos.

O financiamento, cada vez mais, precisa receber um olhar importante pelas implicações nas adaptações necessárias para atender as questões climáticas. Antes, a maior parte do dinheiro era voltada para mitigação do clima pois, agora que a crise climática nos impacta diariamente, ele precisa também ser voltado para a adaptação.

 

 

IHU – Nesse ano, na COP, parece ter havido uma sensibilização maior dos líderes mundiais com relação ao problema climático, visto as manifestações. Como você analisa esse cenário? De fato, a emergência climática entrou na pauta global?

 

Fabiana Alves – O Climate Action Tracker fez um relatório que diz que as promessas atuais, feitas hoje pelos países signatários do Acordo de Paris, nos levam ainda a uma aumento de mais de 2 graus célsius até o fim do século. Glasgow está trazendo muito blá-blá-blá e pouca ação real. Essas ações e promessas que saem em Glasgow precisam ser implementadas nacionalmente em cada país para que a gente consiga reduzir a temperatura global em 1.5 graus célsius até o fim do século.

 

 

IHU – O que você observa da participação população nessa edição da COP?

 

Fabiana Alves – Glasgow viu a maior delegação de povos indígenas do mundo. Temos, também, a juventude cada vez mais tomando conta dos espaços de negociações internacionais; os povos indígenas e as comunidades tradicionais tomando conta desses espaços. A Organização das Nações Unidas – ONU precisa entender que ela tem que abrir esse espaço para a sociedade.

 

 

Não é só por meio do voto que a população vai dizer o que quer de seu governante. Ela precisa estar sempre envolvida em negociações de seus países e, se seus países estão negociando internacionalmente, eles têm que estar lá.

Em Glasgow, vimos em peso a sociedade civil. Penso e espero que a ONU aumente ainda mais esse espaço porque, mesmo com a pandemia e a não distribuição da vacina, essas pessoas conseguiram ir para lá. Mas o sistema ONU não está garantindo que haja uma efetiva participação da sociedade civil. Então, isso é preciso acontecer cada vez mais, pois os povos indígenas, as comunidades tradicionais e as juventudes estão mostrando a vontade de estar nesses lugares.

 

 

IHU – O que mais lhe tem chamado atenção nessa COP?

 

Fabiana Alves – A COP é mais um acordo internacional. Um acordo internacional de clima. Ela não acontece somente no fim do ano, faz parte de negociações que vêm ao longo do tempo entre os países. E, sim, negociações de mercado e outros tipos de negociações interferem para dentro da COP. Devido à pandemia, nós vimos uma desigualdade de distribuição da vacina muito grande e isso vem forte nessa COP, quando os países em desenvolvimento pedem o financiamento para os países desenvolvidos e pedem por equidade internacional.

 

 

IHU – Apesar de toda mobilização que essa COP tem trazido, como evitar algumas armadilhas e ciladas dessa onda de ‘economia verde’?

 

Fabiana Alves – Sim, existem algumas ciladas na onda de economia verde, mercado de carbono. O problema é que se usam muitos mecanismos de mercado para fazer isso e esses mecanismos foram justamente o que fez com que nós, como sociedade civil, chegássemos aonde estamos na crise do clima. Precisamos sim ter muito cuidado com essas promessas que usam mecanismos de mercado para resolver a crise do clima. É preciso nos darmos conta de que são compensações e não são emissões reais de gases de efeito estufa.

 

 

 

IHU – O que está por trás da proposta de países que, como a Índia, querem adiar para 2070 o cumprimento da meta de emissão de gases causadores do efeito estufa?

 

Fabiana Alves – Realmente há países como a Índia, que querem adiar carbono neutro para 2070 ou 2060, mas acontece que estão em desenvolvimento e pendem para países desenvolvidos para que haja financiamento para que possam conter a crise do clima. Isso porque, do contrário, eles não vão conseguir fazer com que a promessa que eles fazem dentro do Acordo de Paris aconteça. É esse o tipo de moeda de troca que é usada para que se tenha metas mais ambiciosas. De certa maneira, eles precisam sim de financiamento para conter a crise do clima.

 

 

IHU – O que essas novas gerações, como os ativistas do Fridays for Future, têm a nos ensinar sobre as mudanças de paradigmas na relação com o planeta?

 

Fabiana Alves – A nova geração tem muito a nos ensinar, pois esses jovens já começam preocupadas com o futuro do mundo, com o futuro das pessoas e isso é muito importante. Eles têm uma consciência ambiental que outras gerações não tiveram. Por isso, temos esperança de que o mundo possa ter um futuro melhor com essas gerações que não só estão protestando, pedindo por um mundo melhor, mas também estão ensinado seus pais sobre esse mundo melhor.

 

 

 

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