As páginas do Evangelho escritas como um romance

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06 Junho 2016

Antecipamos aqui alguns trechos do livro de José Tolentino Mendonça, com o título: Jesus. A surpresa de um retrato, traduzido para o italiano. Sobre os temas enfrentados pelo teólogo português nesse volume, que se desenvolvem em torno de algumas considerações sobre a arte narrativa do evangelista Lucas, se desenvolverá em Vicenza, no âmbito do Festival Bíblico promovido em colaboração com “Avvenire”, um encontro público com o autor, com o título “A misericórdia desconcertante de Jesus”. A conversação será introduzida pelo escritor e jornalista Alessandro Zaccuri. “Quem é aquele que come e bebe com os pecadores?”, “Quem é aquele que se deixa tocar pelos impuros?”, “Quem é aquele que perdoa os pecados?”: são algumas das questões que o texto evangélico sugere, a mais desconcertante das quais se refere, precisamente, à radical misericórdia que Jesus manifesta.

Eis um trecho do livro José Tolentino Mendonça, publicao por Avvenire, 28-05-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o texto.

Aristóteles sustentava que a alma do conto é a trama, e que os personagens vêm em segundo lugar. Em Lucas, todavia, observamos contrário: o protagonista é a verdadeira alma do conto, e a trama, como de resto a fórmula de abertura declara (1,1-4), tem a função de revelar o personagem. São as peculiares características da figura de Jesus que determinam o tipo de conto que o Evangelho constitui. Na vastidão da literatura antiga, o evangelista tinha à disposição variados modelos para narrar a vida de um personagem histórico. Mas, a verdade é que, embora tendo recebido uma ampla gama de influências, o Evangelho continua sendo um texto original. Em confronto com a elaborada produção literária do mundo greco-romano, o Evangelho é um escrito conciso, particular e popular, porque o paradoxal destino de Jesus não se podia reconduzir às tipologias retóricas da fascinação heroica e aos seus paradigmas.

A identidade de Jesus não entra em competição com aquela dos grandes personagens, nem a finalidade do Evangelho é aquela de exaltá-lo como arquétipo de virtudes a imitar. Quando o conto foi redigido, somente um grupo de discípulos se interessava verdadeiramente em Jesus, o qual permanecia um desconhecido para o mundo pagão da época e um proscrito para o mundo judaico. A finalidade do conto é aquela de revelar como Ele, tendo sido refutado e conduzido à morte, seja aquele, o único, através do qual podemos cruzar o limiar da salvação. [...]

Como recorda John Darr, “o processo de construção de um personagem não é neutro, nem unidirecional”. A identidade de Jesus é uma identidade narrativa que se capta através dos diversos momentos e da lógica do conto. Mas a trama não cessa jamais de ser uma consequência de Jesus. Se as vivências se desencadeiam é porque Jesus está presente: toca, fala, ordena, age. O esquema “falta + capacidade + ação performativa + confirmação, que é próprio de muitos episódios, evidencia a função decisiva que ele desenvolve na transformação narrativa, mas também o papel revelador que tal intervenção tem na sua construção como personagem.

Lucas transforma aquilo que parecia uma inevitável falência na decisiva confirmação do messianismo de Jesus. A chave da trama evangélica é o reconhecimento que Jesus é Messias e Filho de Deus. [...] O tipo de caracterização que o Evangelho adota, com as suas informações esparsas e progressivas, as suas ambiguidades e os silêncios, o subseguir-se das vivências, convida o leitor a vencer a indeterminação do conto, a preencher os vazios, a deduzir dos traços que lhe são oferecidos um significado completo. Ante o leitor Jesus aparece gradualmente, de um modo sempre inesperado, mas plausível. E a coerência narrativa de quem é protagonista é sustentada pelo leitor na medida em que vem ao conhecimento da ação e dos nexos que o texto apresenta. 

Mas a construção do conto pressupõe também a construção do leitor da parte do texto. O leitor, na realidade, é também um produto do texto. As técnicas narrativas são um modo de solicitar ao leitor que colabore na construção do texto e é uma maneira de construir o leitor. Instaura-se assim um jogo circular. A leitura é uma correspondência secreta e vital, uma prática de correlação.

No livro que temos diante de nós, lemos a nós mesmos. Porque o leitor não enfrenta somente o dilema da identidade de Jesus, mas é como se à luz daquela identidade fosse levado a interrogar-se sobre si mesmo. E o Evangelho não está interessado em mostrar quem seja Jesus num conceito ou num discurso objetivo e completo, mas em encontrar a resposta mostrando o que Jesus se torna na vida de quantos cruzem o seu caminho. O confronto com a pessoa de Jesus leva a uma escolha com respeito ao que Ele representa. Lucas não nos põe diante de doutrinas ou virtudes morais: ele nos apresenta uma pessoa como único ponto de referência.

Trata-se aqui de reconhecer uma pessoa ou não, de escolher segui-la ou não. Neste sentido, a técnica narrativa tem uma finalidade cristológica evidente: a busca da identidade de Jesus não é um problema que diz respeito somente aos autores do conto, ela se estende também aos leitores que, por sua vez, devem escolher se vão seguir ou não o itinerário dos discípulos, aquele da fé. A arte narrativa de Lucas é muito mais do que a habilidade de ordenar bem um conto, criando uma sólida sequência que tende progressivamente a resolver-se.

O segredo da arte narrativa de Lucas é o centro narrativo por ele escolhido: a revelação da identidade messiânica de Jesus. O Evangelho, todavia, não insiste na apresentação de conclusões definitivas a propósito de Jesus: sugere, ao invés, um caminho aberto, silencioso e paciente das perguntas. Com insistência, e no claro propósito de envolver o leitor, repete que o enigma de Jesus é não é resolvido, precisamente a fim de revelar este interstício como possibilidade de delinear uma nova busca. O conto evangélico apresenta-se então como o limiar de uma história aberta, infinita, na qual a Cristologia nos remete à eclesiologia. O seu presente já é o inventário do nosso futuro. 

O episódio que escolhemos para aprofundá-lo mostra o encontro de Jesus com o mundo dos pecadores. Um encontro que supera as barreiras da legalidade social e religiosa e que, por isso, divide o senso comum, acende o lume da interrogação, se torna audacioso. Um encontro que, na sua inerme sinceridade, desmonta os falsos cálculos que a religiosidade, por vezes, esconde: o silêncio e as lágrimas são a expressão da indizibilidade mais recôndita, daquela verdade que cada um de nós tem no sangue. E é assim que neste encontro, mais do que em outros, alguém indica, reconhece, toca, inunda de lágrimas e unge o mistério de Jesus.

Tudo o que se andava dizendo de Jesus é aqui como que relativizado, e cala ante a pergunta que agora se coloca: “Quem é aquele que perdoa também os pecados?” (7,49). Ninguém será mais como antes e uma janela se abre para aquele que virá. Chegados ao fim, vem a vontade de se perguntar: por que existem as histórias? Por que elas resistem ao inelutável manto do esquecimento? Qual é o seu poder? Por que elas nos atraem? Por que retornamos a elas, também quando aos séculos se acrescentaram outros séculos e o mundo que os gerou nos parece enigmático, secreto, distante? Qual é o movimento que nos faz hesitar tanto? Somente um jogo de artifícios, ou o decurso impalpável mas presente da própria verdade? Por que Jesus contou histórias? Por que nós as contamos para dizer Jesus? De uma coisa estamos certos: há histórias que são contadas para que um encontro se realize.

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