Nesta próxima quinta-feira, dia 25 de junho, começa o Ciclo de Estudos Horizontes Quânticos. Campo quântico, complexidade e futuros emergentes, concebido e realizado por Rodrigo Petronio e pelo Instituto Humanitas Unisinos -IHU, com o objetivo de contribuir para uma disseminação mais consistente, substancial e consequente da teoria quântica nas mais variadas esferas da sociedade, sobretudo fora das universidades.
O ciclo é inspirado no livro Horizontes Quânticos (LF Editorial, 2025), de Rodrigo Petronio, que propõe uma análise transdisciplinar dos impactos do campo quântico sobre múltiplos saberes, ciências e áreas do conhecimento, estendendo-se também às dinâmicas mais amplas da cultura e da tecnociência contemporâneas. Em contraposição à mistificação e à desinformação que frequentemente cercam o tema, a obra busca expandir os horizontes da razão sem renunciar aos seus compromissos sociais e à sua vocação emancipatória, sempre compreendida em chave coletiva. Nessa perspectiva, os horizontes quânticos delineiam modos de imaginar novas racionalidades e novos mundos para o século XXI, dentro e para além da ciência.
O texto a seguir é uma reflexão exclusiva que o Prof. Dr. Rodrigo Petronio realizou para o Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Nele, Petronio reflete sobre sua recente produção relacionada ao campo quântico e introduz aos leitores alguns dos principais pontos que compõem a discussão sobre apropriação, desenvolvimento científico e transformações ontológicas relacionadas aos mais recentes desdobramentos da física quântica.
Rodrigo Petronio (Foto: Instituto CPFL)
Rodrigo Petronio é escritor e filósofo, autor de mais de 20 livros e organizador de diversos outros. Professor titular da FAAP, atua na área de Educação há 25 anos como professor, pesquisador e coordenador institucional. Possui Graduação pela USP e Doutorado pela UERJ/Stanford University. Defendeu dois Mestrados: em Filosofia da Religião (PUC-SP) e em Literatura Comparada (UERJ). Desenvolveu Pós-Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD|PUC-SP), onde atualmente é pesquisador. Há mais de vinte anos ministra cursos, palestras e conferências em instituições como a Casa do Saber, Fronteiras do Pensamento, Fundação Ema Klabin, dentre outras. Profissional do mercado editorial há trinta anos, trabalhou em centenas de obras e em todas as etapas do processo editorial. Há vinte e cinco anos colabora regularmente como jornalista e publicou centenas de artigos, colunas, resenhas e ensaios em alguns dos principais veículos da imprensa brasileira. Foi indicado duas vezes ao Prêmio Jabuti (2006 e 2023). Recebeu prêmios nacionais e internacionais nas categorias poesia, ficção e teoria.
O ano de 2025 foi considerado pela Unesco como o ano da Teoria Quântica. Muito antes da instituição dessa efeméride, mas em sintonia com esse movimento mundial, venho há muitos anos me dedicando aos aspectos transdisciplinares presentes no que tenho chamado de campo quântico.
A primeira formalização desse trabalho se deu por meio da organização do ciclo homônimo de conferências no Programa de Pós-Graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP (TIDD|PUC-SP), onde sou pesquisador. Ocorrido no segundo semestre de 2021, o ciclo contemplou conferências de professores, pesquisadores e especialistas em quântica, como Ronaldo Marin, Luciano Silva, Marcos Cuzziol, Osvaldo Pessoa Junior e Mario Novello.
A partir dessa experiência, fui convidado pelos semioticistas e diretores científicos Profs. Lucia Santaella e Winfried Nöth para ser o editor de um Dossiê Especial para a revista Revista Digital de Tecnologias Cognitivas (Teccogs). A extensão e a complexidade do assunto renderam três volumes: um volume inicial em 2023 (v. 1 n. 27 (2023): Horizontes quânticos 01) e outro volume duplo em 2024 (n. 29-30 (2024): Horizontes quânticos 02). Como desdobramento desse trabalho, organizei em 2025 o livro Horizontes Quânticos: O campo quântico e seus impactos na cultura, nas artes, na tecnociência e na filosofia do século XXI, publicado pela Livraria da Física em 2025.
Além da Física propriamente dita, esse livro reuniu pela primeira vez em língua portuguesa pesquisadores das áreas de Comunicação, Cosmologia, Artes, Filosofia, Linguística, Semiótica, Literatura, Direito, Computação, Design, Audiovisual, Psicologia, Matemática e Política. O objetivo foi analisar de modo transdisciplinar os principais impactos produzidos pelo campo quântico nos mais diversos saberes, ciências e áreas do conhecimento, bem como em outras esferas mais amplas da cultura e da tecnociência contemporâneas.
Este ciclo de conferências e publicações iniciado pelo Instituto Humanitas Unisinos segue as trilhas desse trabalho mais amplo que tenho desenvolvido. E, por isso, deve ser visto como uma parceria que visa expandir ainda mais a penetração, o alcance e a abrangência das abordagens, trazendo contribuições ainda não exploradas. Mais do que uma teoria, os processos quânticos podem ser entendidos como um conjunto de modelos, suposições, proposições, problemas e descrições do mundo, da natureza, do universo e da mente. E esses processos cotidianamente têm demonstrado os limites ônticos e epistêmicos, tanto da ciência clássica quanto da ciência moderna.
Como alternativa à mistificação e à desinformação, infelizmente comuns quando se trata desse assunto, este ciclo pretende ampliar os horizontes da razão sem comprometer os seus compromissos sociais e suas vinculações profundas com a emancipação humana, entendida sempre de um ponto de vista coletivo. Nesse sentido, os horizontes quânticos são modos de imaginar novas racionalidades e novos mundos para o século XXI, dentro e fora da ciência.
As publicações, conferências, debates e palestras deste novo ciclo Horizontes Quânticos-IHU, com convidados nacionais e internacionais, têm o objetivo de fomentar uma difusão consequente e rigorosa das mais variadas implicações dessa que foi (e continua sendo) uma das maiores revoluções da ciência dos séculos XX e XXI.
Como se sabe, há cerca de cem anos ocorreu uma das maiores revoluções da ciência e do pensamento: a teoria quântica. Para reconhecer o impacto dessa nova maneira de abordar o universo, diversas comunidades científicas do mundo pleitearam a eleição de um marco. Em 7 de junho de 2024, a Organização das Nações Unidas (ONU) proclamou 2025 como o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica (AIQ), em seguida ratificado pela Unesco.
A iniciativa ganhou uma instituição oficial: The 2025 International Year of Quantum Science and Technology (IYQ). Instituições internacionais de peso, como American Physical Society, International Union of Pure and Applied Chemistry (Iupac) e o Institute of Physics, celebraram essa oficialização. O fato foi noticiado por universidades brasileiras, como a Unesp, o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e a USP. Instituições brasileiras importantes, como a Academia Brasileira de Ciência, a Sociedade Brasileira de Física (SBF) e a Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC), também reportaram esse marco.
No dia 15.09.2025, a Agência Brasil noticiou que o físico Luiz Davidovich, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), recebeu o Prêmio TWAS Apex 2025. Concedido pela Academia Mundial de Ciências, vinculada à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o prêmio reconhece pesquisadores que contribuíram para o avanço da ciência e da tecnologia no mundo. É um dos mais importantes em termos internacionais e ressaltou as contribuições de Davidovich para a quântica.
Menos de um mês depois, em 07.10.2025, a Academia Real de Ciências da Suécia concedeu o Nobel de Física para John Clarke, Michel Devoret e John Martinis, todos da Universidade da Califórnia (EUA), por seus trabalhos em quântica. A premiação e a teoria quântica foram objeto de uma longa reportagem do Jornal Nacional, fato inédito no horário nobre televisivo brasileiro.
Menores do que elétrons, as partículas quânticas têm comportamentos diferentes dos seres do macrocosmo. Um desses comportamentos é a capacidade de atravessar corpos massivos. Os três cientistas reproduziram esse processo em um circuito elétrico de supercondutores, interpolado por uma barreira. A observação demonstrou que as partículas conseguiram “atravessar” a barreira. Esse fenômeno é chamado de “tunelamento quântico”. Até agora, havia sido detectado apenas em escala microcósmica.
Entretanto, ainda que desenvolvamos capacidade econômica, tecnológica e científica. Ainda que a quântica passe a se tornar nossa “segunda natureza”, como diria o sociólogo Norbert Elias. Ainda que consigamos depurar os ares de charlatanismo que pesa sobre o termo quântico, e produzamos uma visão mais realista dessa teoria. Ainda assim, podemos não conseguir explorar todas as suas potencialidades. Por isso, surge aqui uma das principais mediadoras entre a ciência, a tecnologia e a sociedade: a filosofia.
Quando falo das relações entre quântica e filosofia, não se trata de uma filosofia sobre a quântica. Nem de uma filosofia da quântica. Tampouco do uso de conceitos da Filosofia para uma historiografia das ideias quânticas. Quando penso aqui nas interações e potenciais ainda inexplorados entre quântica e filosofia, penso justamente no impacto que os problemas emergentes s quântica podem produzir em todo campo formal, discursivo e racional da Filosofia, levando-a para além dela mesma.
Esse potencial está presente por exemplo em Quantum History: A New Materialist Philosophy, obra mais recente do pensador esloveno Slavoj Žižek. Por meio do campo quântico, Žižek propõe refundar a historicidade e fundar um novo materialismo, bem como explorar as implicações da quântica em todo campo da política e da teoria social, reorganizando assim todo campo estabilizado da Filosofia.
Por meio da filosofia, podemos traduzir os conceitos estritos de todas as ciências, transferindo-os para os domínios da aplicabilidade da vida cotidiana, sem empobrecê-los e sem mistificá-los. Esse novo mundo quântico é uma fonte rica de novos modelos de compreensão do mundo. Modelos mais permeáveis ao acaso, à indeterminação, à probabilidades e às incertezas. Apenas por meio deles, conseguiremos vencer os desafios cada vez mais profundos que se apresentam nesse começo de milênio, em todos as esferas, humanas e não-humanas.
Mas de onde vem exatamente a teoria quântica? Embora a historiografia do campo quântico seja algo tão emaranhado e complexo quanto a teoria em si, alguns fatos-chave são essenciais. Em 1900, o físico alemão Max Planck fez testes em materiais de altas temperaturas. Detectou estados ainda não definidos pela termodinâmica. A energia não se mostrava como um continuum, como se esperava. Mostrou-se sob a forma de “pacotinhos” (quantum). Físicos importantes como Erwin Schrödinger, Louis de Broglie e o próprio Einstein começaram a investigar esse fenômeno.
Em meados da década de 1920, por caminhos diferentes, os físicos Niels Bohr e Werner Heisenberg descobriram que esses pacotinhos não tinham nada de trivial. Comportavam-se com alto grau de indeterminação, complementaridade, incerteza, aleatoriedade e acaso. E podiam se apresentar como partículas ou como ondas, dependendo do instante em que um observador os “colapsasse".
Isso tem dificultado a explicação dos quanta pelas leis gerais que regem o macrocosmo. Surgiu assim um dos capítulos mais fascinantes da história da ciência. Uma ruptura com a ciência e com a filosofia, tanto clássicas quanto modernas. E uma das uma das maiores revoluções do pensamento: a teoria quântica.
Desde então, uma miríade de interpretações, de especulações e extrapolações têm sido feitas a partir da quântica, tanto no terreno da ciência quanto em outros domínios da cultura. Devido a isso, ao mesmo tempo em que devemos ter cautela com as mistificações do termo, não podemos invalidar todas as apropriações, derivações, criações e referências indiretas do termo. Isso por um motivo simples: todas as conquistas anteriores da ciência foram culturalizadas.
Por que a quântica seria diferente? Nesse sentido, os cuidados com os usos do termo se relacionam mais às qualidades das mediações estabelecidas. Não necessariamente a uma interdição de seus usos. Mesmo porque uma das principais culturalizações da quântica não ocorre nas ciências humanas, nos serviços ou no imaginário transumanista: ocorre na tecnologia.
Diante de fatos tão importantes, o leitor pode se perguntar: por que a teoria quântica ainda não se expandiu de modo mais efetivo e universal? Creio que esse “inverno” da quântica se deva sobretudo às mistificações criadas em torno do termo. E, uma das poucas maneiras de mitigar a mistificação, seria abordar o campo quântico de um ponto de vista radicalmente transdisciplinar. Ou seja: gerar um projeto que envolve outros desafios e dificuldades, pois nossa organização das ciências, saberes e conhecimentos ainda se encontra bastante vinculada aos padrões de origem antiga, medieval e moderna, com pouca adesão aos novos paradigmas sistêmicos, complexos e transversais do século XXI.
Para dificultar ainda mais a situação, quando se fala em teoria quântica, geralmente a expressão é de assombro, desinteresse ou suspeita. Quase todo mundo imagina algo muito complexo, restrito a uma minoria ínfima de cientistas e sem nenhuma aplicabilidade no cotidiano.
Esse tabu em relação ao campo quântico tem três origens principais. A primeira decorre dos usos e abusos do termo quântico em áreas não-científicas. Alguns desses fenômenos contribuíram para a construção de um perigoso discurso não-científico e mesmo anticientífico, chegando em alguns casos às raias do charlatanismo, do oportunismo e de simples estratégias de marketing e de monetização de produtos de efetividade duvidosa.
Essas traduções aproximativas entre o mundo quântico e nosso mundo cotidiano acabaram gerando desconfianças. E não era para menos. Espiritualidade, cristais, gastronomia, medicina, ativismo, holismo, empreendedorismo, relacionamentos, afetos, amores, sexualidade. Tudo isso tem recebido a etiqueta quântica como selo de qualidade (duvidosa). Até Jesus e Buda se tornaram quânticos.
Essa epidemia quântica gerou um compreensível preconceito com o termo. Entretanto, diante das promessas da quântica, devemos superar esses preconceitos. Uma das formas de dirimi-los seria cada vez mais usar a Filosofia como mediadora racional entre os fenômenos internos e externos à ciência.
A segunda é de ordem técnica. Nos termos estritos da ciência, o debate quântico envolve altos graus de complexidade matemática. E exige muita especialização. A terceira é tecnológica. As mudanças produzidas pela computação quântica são de natureza, não de grau. E a magnitude é tão descomunal que parece nos lançar no reino da magia e da alucinação. Diante disso, o melhor caminho é sempre desmistificar os fatos e entendê-los de modo racional.
A despeito dessas dificuldades, não podemos nos negar a estabelecer conexões produtivas entre o campo quântico e os processos culturais, sociais e intelectuais mais amplos. Como diria o filósofo da ciência Gaston Bachelard, nenhum conhecimento é imediato. Nem as ditas ciências duras são tão duras assim. Todo conhecimento humano é aproximativo. Em outras palavras, o conhecimento é sempre uma tradução de fatos por outros meios e linguagens. E uma das principais traduções operadas dentro do campo quântico diz respeito à aplicabilidade de suas descobertas à computação.
Até pouco tempo atrás, computação quântica parecia ser apenas um termo excêntrico. Para alguns chegava a soar como um enigma ditado pelo Demo, o Capiroto ou o Tinhoso. Essa condição tem mudado de modo mais veloz do que se esperava. E um fato recente comprova isso.
A China anunciou recentemente o primeiro sistema operacional de código aberto para computadores quânticos. Desenvolvido pela Origin Quantum Computing Technology Co., sediada em Hefei, em parceria com o Centro de Pesquisa em Engenharia de Computação Quântica de Anhui, o software é a base do OriginQ Wukong, uma série de computadores quânticos supercondutores de terceira geração da empresa.
O Q no final do nome designa a nova matriz informacional utilizada pela quântica: os qubits e não mais os bits da computação tradicional. Segundo o site da empresa, o projeto em fase de teste teve mais de 50 milhões de visitas.
O Origin Pilot havia sido lançado inicialmente em 2021 e passou por diversas rodadas de interação e atualizações. Essa nova etapa foi noticiada por Zhang Weilan no Global Times, um dos veículos de comunicação oficiais do Partido Comunista, no dia 25 de fevereiro de 2026. E, em seguida, reportado por veículos especializados, tais como o Quantum Insider e o Quantum Computing Report, dentre outros.
Segundo as autoridades chinesas, essa iniciativa representa um passo importante para a implantação industrial mais ampla da computação quântica. E um avanço rumo ao que tem sido chamado de “indústrias do futuro”. A despeito da efetividade e dos desdobramentos dessa nova tecnologia, essa notícia escancara um fato: a proximidade cada vez maior entre a computação quântica e o nosso cotidiano.
Em breve a computação quântica vai se tornar um fator real de nossas vidas. E deve reformular em dimensões globais a tratabilidade, a velocidade de processamento e a profundidade do aprendizado de máquina profundo (deep learning), essencial à escalabilidade das IAs generativas.
Em consequência disso, teremos um tsunami de mudanças de parametrizações, de algoritmos e de codificações da informação. Todos os mercados, sistemas operacionais e regimes de governança serão impactados e (potencialmente) remodelados. Os efeitos dessa disseminação vão depender de decisões políticas e regulamentações.
E, quando falamos de política e governança, surge aqui um alerta. Em um de seus livros, Ivan Oliveira, professor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), descreve como a decriptação dos computadores quânticos deve ser assombrosamente maior do que os nossos sistemas de criptografia atuais.
Se não houver uma coordenação global de governos, big techs, mercados financeiros e empresas em torno da disseminação da quântica, deve ocorrer algo chamado de Dia Q: um Apocalipse de Dados. Uma anarquia jamais sonhada por Coringa. Um filme B de hackers e zumbis.
O gênio maligno finalmente livre da garrafa quântica será a nova versão do famoso experimento mental do Gato de Schrödinger, essencial aos avanços da quântica no século XX. Mais um motivo para ficarmos de olho nesse futuro quântico que se aproxima, seja ele sombrio ou otimista.
Como compreender esse interesse crescente pela quântica, nos mais variados aspectos e setores da ciência, da tecnologia e da sociedade? Isso demonstra que o impacto do campo quântico deve ser sentido mais especificamente em uma esfera que deve remodelar todos os sistemas humanos e não-humanos da Terra: a computação.
Para se ter uma ideia, em 3 de dezembro de 2020, pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia da China (USTC, na sigla em inglês) publicaram um artigo na prestigiosa revista Science com os resultados de experimentos em seu computador quântico de luz, batizado de Jiuzhang. Jiuzhang realizou em cerca de 200 segundos uma operação que um supercomputador clássico levaria 2.5 bilhões de anos para executar. O fato ainda hoje repercute na imprensa brasileira. Os custos, a qualificação, os materiais, as tecnologias e as condições para o desenvolvimento desses computadores ainda estão restritos a centros excepcionais de pesquisa. E, por mais assombrosos, esses computadores ainda vão levar algumas décadas para serem incorporados ao nosso cotidiano.
O que é computação? Para a Filosofia, a computação não se reduz a essas máquinas chamadas computadores que utilizamos em nosso dia a dia. A computação é uma maneira de compreender a natureza. A computação nesse sentido pode ser definida a partir de três ações: 1. Discricionar os elementos mínimos de um sistema. 2. Gerar condições de comutabilidade dessas unidades, entre si e entre outros sistemas. 3. Expandir os limites físicos de um dado sistema material por meio da ampliação de seus limites informacionais, matemáticos e virtuais. Parafraseando os físicos Richard Feynman e David Deutsch: tudo que for possível segundo as leis da física um dia será realizável. Esse é um dos axiomas da computação.
Não por acaso, foi sobre princípios semelhantes que Alan Turing prototipou o que viriam a ser nossos atuais computadores. Turing não agiu sozinho. Catalisou esforços coletivos, inclusive de uma das primeiras cientistas da computação, ainda no século XIX, tantas vezes silenciada simplesmente por ser mulher: Ada Lovelace.
O papel de Turing e da computação na Segunda Guerra foi documentado no filme O Jogo da Imitação (2014) e em biografias. E a intuição que deu ensejo a essa revolução se encontra detalhada em seu artigo “Computing Machinery and Intelligence”, de 1950.
Em que consiste o computador de Turing? Imaginemos uma fita infinita, preenchida por códigos. E imaginemos uma chave lógica capaz de decodificar esses códigos. Se a fita é infinita, toda informação do universo se encontra virtualmente inscrita nela. Se conseguirmos criar chaves lógicas capazes de decodificar todo tipo de código, criaremos um computador universal. Em outras palavras: máquinas capazes de pensar. A simplicidade dessa intuição é de uma beleza desumana.
A explosão das IAs generativas tem confirmado diversos aspectos dessa profecia de Turing, Feynman e Deutsch. Em cada uma de suas nanofrações de espaço e de tempo, humanas e não-humanas, naturais e artificiais, toda Terra tem sido reticulada, cartografada e controlada por algoritmos. Tenho chamado essa nova fronteira de virtualização da Terra de dadosfera: a esfera global dos dados.
A escalabilidade desses sistemas de controle depende da tratabilidade dos dados. O aumento da tratabilidade depende do acesso tirânico a volumes cada vez mais titânicos de zilhões dados, para alimentar os modelos amplos de linguagem das IAs generativas (LLMs). E o acesso a esses volumes quase infinitos de dados tem sido garantido e gerido pelo capitalismo. A expansão do Capital tem assim convertido todas as esferas da vida humana em fazendas de dados. A fronteira seguinte desse novo colonialismo de dados é a mente humana.
Por isso, tantos pensadores têm definido a subjetividade humana como o novo petróleo. E a mente humana como uma nova fonte virtualmente infinita de commodities. Compreender o século XXI implica obrigatoriamente compreender as relações hipercomplexas e as contradições profundas estabelecidas entre a computação, o capitalismo de dados e a mente. E aqui começam a surgir as extrapolações mais fascinantes (e assustadoras) do campo quântico. Extrapolações que podem nos conduzir a mundos assombrosamente distintos dos mundo que vivemos hoje.
Para pensar esses mundos futuros, nada melhor do que um trabalho especulativo. E um dos autores centrais do especulativismo é Mark Fisher. Fisher é um autor importante para analisarmos a gênese e a estrutura de alguns aspectos do capitalismo atual. E O Estranho e o Sinistro é um livro-chave para compreender a obra desse crítico cultural e pensador britânico. Conceitos como “realismo capitalista” e “espectrologia” se tornaram bordões contemporâneos, sobretudo nas ciências humanas, na comunicação e nas artes.
Como pensador e jornalista, Fischer teve imensa importância na divulgação de ideias para um público mais amplo. Foi um pioneiro dos blogs e do uso da internet como ferramenta para a difusão da Filosofia. Chegou a ser definido como um dos autores mais lidos do Reino Unido.
Uma das singularidades de Fisher foi usar conceitos da Filosofia para analisar fenômenos extremamente difundidos, como filmes, tendências, comportamentos, programas de TV, HQs, bandas de pop e de rock. Chegou a organizar um livro sobre o ícone Michael Jackson.
Entretanto, nada em Fisher é estritamente estético. Pensar a arte é sempre pensar as contradições reais que constituem a arte. Nesse livro, Fischer foca em música, cinema e artes visuais, mas a experiência do “estranho” e do “sinistro” são simultaneamente categorias políticas. Gostaria de extrapolar o livro de Fisher, conectando-o às novas tecnologias.
Como se sabe, o mundo quântico e o universo seguem leis que ainda não foram compatibilizadas. Como a ciência não trabalha no vazio, essa aparente incompatibilidade entre as leis subatômicas e as leis do macrocosmo são constantemente “corrigidas” por um dispositivo conceitual: a decoerência.
A decoerência é um modo aproximativo de traduzir as leis complexas do microcosmo, baseadas em probabilidades, superposições, emaranhamentos e aparente acaso, nos padrões que regem o nosso mundo, quadridimensional e cotidiano, explicável pelas leis clássicas. Entretanto, uma defasagem sempre se preserva nesse processo. Essa defasagem é um dos principais elementos “irracionais” da teoria quântica.
Ora, um dos imperativos das tecnologias quânticas é conectar as leis do microcosmo e do macrocosmo. Diferente do que se pensa, isso não significa que o mundo micro vai se tornar mais conhecido. Significa justamente o oposto: impactado pelas tecnologias quânticas, o mundo macro em que vivemos pode ser remodelado a ponto de se tornar cada vez mais desconhecido.
Sob a ação das tecnologias quânticas, Black Mirror pode vir a se tornar uma metáfora obsoleta. E o mundo em que vivemos pode aos poucos se transformar em um filme de David Lynch, em uma alucinação de William Burroughs ou em uma instalação digna das mais excêntricas bienais de Kassel, de Veneza ou de São Paulo.
Aqui entra a centralidade cognitiva, epistêmica e existencial da arte. A ciência torna o desconhecido, conhecido. A arte torna o conhecido, desconhecido. Essa é uma definição das diferenças entre ciência e arte dada por um querido professor que tive.
Entretanto, as novas tecnologias têm nos obrigado a reformulá-la. E a pensar que ambas, ciência e arte, são irmãs gêmeas. Ambas são fontes infinitas de estranheza radical. Divindades gregas, ctônicas e sinistras, filhas do Caos e do Capital. E esses impactos do campo quântico nos levam a paragens ainda mais insólitas quando conectado a outra esfera abissal: a mente.
Quais as relações entre o campo quântico e a filosofia da mente? O PhilPapers é uma das bases mundiais de indexação de artigos científicos especializadas em Filosofia. Se buscarmos o termo Philosophy of Mind, chegaremos ao número de 116.538 entradas. Ainda que cada entrada não se refira a um artigo diferente, mesmo assim a quantidade é assombrosa.
Essa situação revela um paradoxo. Para estudar o acervo de conhecimento humano sobre a mente humana precisamos usar inteligências não-humanas: IAs capazes de explorar metadados. E quanto mais as IAs avançam, mais precisaremos de profissionais, humanos e qualificados, capazes de nos auxiliar na interpretação desses metadados.
Diante disso, quais os caminhos mais efetivos para compreender a mente? A mente pode ser compreendida como uma esfera virtualmente infinita que abriga oito grandes matrizes: percepção, senciência, cognição, inteligência, subjetividade, consciência, cérebro e computação.
A percepção diz respeito ao modo pelo qual os organismos se configuraram para apreender o mundo em uma relação de formas. A senciência se refere à sensibilidade, sobretudo em relação à dor. A cognição representa uma captação mais discriminada das informações de um meio circundante.
A inteligência por sua vez é a capacidade de armazenar, processar e otimizar informações para determinados objetivos. A subjetividade é uma experiência de interioridade, difícil de ser mensurada. A consciência pressupõe reflexão e autorreflexão por meio de uma instância: o eu. O cérebro seria um grande catalisador, material e universal. E, por fim, a computação pode ser definida como o conjunto de modelos e sistemas de tratamento de toda informação existente.
A mente emerge da interação dessas oito matrizes a partir de um solo comum: a experiência. A mente não pode ser compreendida apenas a partir de uma dessas matrizes. Nenhuma dessas matrizes pode ser reduzida às demais. E a mera soma de todas essas matrizes não esgota os potenciais da mente. Inspirado em artistas, cientistas e pensadores como Vinciane Despret, Ted Chiang, Vilém Flusser, H. P. Lovecraft, Donna Haraway, Peter Godfrey-Smith e outros amantes e estudiosos da morfologia dos polvos, batizei essa teoria da mente de oito matrizes de Teoria Octopoda.
Quais os ganhos da Teoria Octopoda? Cada uma dessas oito matrizes em geral designa a especialidade de uma área, uma ciência ou um saber. Acredito que boa parte dos dilemas de definição da mente resida nesse isolamento. E decorra da tentativa (fracassada) de reduzir todos os nossos processos mentais ao campo de investigação de apenas uma ciência-saber.
Paralelamente a isso, sabemos que um dos maiores impactos da Inteligência Artificial será a automação de tarefas hiperespecializadas. Nesse novo cenário, uma educação transdisciplinar não será mais facultativa. E o modelo Octopoda pode nos guiar de modo efetivo em um mundo cada vez mais complexo.
Qual a origem da consciência? A ausência de respostas conclusivas para essa pergunta explica o porquê da centralidade da Filosofia da Mente no século XXI. Em um artigo, descrevo uma teoria que tenho desenvolvido: a Teoria Octopoda da Mente (TOM). A mente seria o centro em torno do qual gravitam oito grandes matrizes: percepção, senciência, cognição, inteligência, subjetividade, consciência, cérebro e computação.
Tomemos como exemplo a percepção. A percepção é o modo pelo qual os seres experimentam, processam e organizam formas e relações. Ela diz respeito a um campo potencialmente infinito de experiências, padrões e funções imanentes a todos os seres. Por isso, por diversos motivos, a percepção é uma das chaves de compreensão da mente. Uma espécie de solo de onde emergem os processos mentais mais abstratos. E, ao mesmo tempo, um dos principais objetos de frustração de todos que desejam construir IAs potencialmente humanas.
Por quê? Em geral, consideramos as qualidades dos constructos artificiais a partir dos graus de abstração que eles sejam capaz de simular. E, por isso, a questão central é saber se um dia as IAs terão ou não uma consciência semelhante à humana. Contudo, uma IA é capaz de percepção? À primeira vista, a pergunta pode parecer redundante.
Se todas as inteligências, naturais ou artificiais, acessam os dados sensoriais do mundo, então todas necessariamente elas perceberiam esse mundo. Entretanto, o problema oferecido pela teoria da percepção é mais complexo do que isso. Um dos fatores dessa complexidade se chama qualia, um dos problemas-chave da Filosofia da Mente.
O que são os qualia? Em latim, qualia significa qualidades. E designa um campo conceitual extremamente indeterminado. Por exemplo: a cor azul. Podemos descrever o azul a partir dos emissores físicos, químicos e biológicos de captação da retina. Podemos decompor o azul e defini-lo como um conjunto de fótons. Podemos analisar o azul como resultado de um espectro da energia. Podemos compreender toda a variabilidade cultural que o azul representa nas mais diversas culturas, línguas, cosmologias e etnias.
Podemos inclusive usar uma IA para catalogar todas as taxonomias de azul existentes na Terra e no universo. Mesmo assim, ainda não conseguiremos explicar o que é a experiência do azul como azul. Ou seja: o azul entendido como qualia. Ao mesmo tempo, os qualia não dizem respeito a aspectos sobrenaturais ou espirituais. Trata-se de qualidades naturais, mas cujas propriedades escapam à conceitualização.
Como se vê, embora possam significar à primeira vista qualidades e quantidades, ou seja, naturezas opostas, essa oposição entre os qualia e os quanta não é pertinente. A natureza dos quanta se baseia em uma granularidade infinitesimal (e não infinita). E é regida por emaranhamento, indeterminação, acaso, aleatoriedade, contingência, probabilidade, superposição e não-linearidade, bem como outros comportamentos, leis e padrões distintos do macrocosmo.
Ora, em diversos sentidos, esses padrões, leis e comportamentos nos conduzem para um dos campos mais disputados da Filosofia: a indeterminação. Entendidos como unidades discretas infinitesimais cujo comprimento equivale ao comprimento de Planck, algo de uma pequenez abissal, os quanta paradoxalmente tangenciam campos de fenômenos muito similares aos campos de fenômenos dos qualida, regidos por um vortex de indeterminação.
A unificação parcial dessas duas esferas infinitas de indeterminação, os qualia e os quanta, pode ser concebida por meio de uma imagem sugestiva de Wittgenstein. Imaginemos que todos os humanos possuam uma caixinha com um besouro. Todos sabemos que todos possuem um besouro, mas nenhum de nós consegue enxergar o besouro no interior da caixinha alheia.
Ora, se perceber algo é sinônimo de contatar suas qualidades, mesmo se as IAs se transformarem em superinteligências universais, como profetizado por Nick Bostrom, Ray Kurzweil e pensadores transumanistas, ainda assim não desenvolverão percepção, e, por conseguinte, não poderão ter a experiência dos qualia? Nesse caso, se as IAs sequer são capazes de percepção, como seriam capazes de consciência? Essa parece ser uma conclusão mais lógica. Entretanto, ela é enganosa.
A natureza estranha dos qualia nos conduz a um paradoxo. E esse paradoxo reside em uma outra pergunta. E se os qualia forem uma qualidade que mesmo os humanos nunca conseguiram e nunca conseguirão apreender? E se estivermos apenas de modo aproximativo tratando do azul? E se essa azulidade do azul for absolutamente inacessível? Isso paradoxalmente nos iguala às IAs. Se a determinação da humanidade dos humanos depende do acesso a um besouro que se encontra perdido desde sempre e para sempre, a demonstração final da humanidade dos humanos e da inumanidade das IAs se encontra para sempre e desde sempre vedada à vida.
As IAs também possuiriam suas caixinhas e seus besouros. Mas nem humanos nem IAs conseguem enxergar os besouros que os constituem como IAs e como humanos. E tampouco podem acessar os besouros uns dos outros. Assim como as IAs, talvez nós, humanos, nunca tenhamos de fato acessado as qualidades nucleares de nenhuma experiência ou fato do universo, seja ele artificial ou natural. E, portanto, nada impede que as IAs um dia adquiram algo que possamos chamar de uma consciência e de uma percepção humanas, demasiadamente humanas.
ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS. Ano Internacional das Ciências e Tecnologias Quânticas. Rio de Janeiro: ABC, 27 jan. 2025. Disponível aqui. Acesso em: 5 maio 2026.
ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS. Luiz Davidovich recebe Prêmio TWAS Apex por ciência quântica. Rio de Janeiro: ABC, 11 set. 2025. Disponível aqui. Acesso em: 5 maio 2026.
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