12 Janeiro 2026
"Em um mundo pós-multilateral, onde a força bruta retorna ao centro do palco, a última trincheira da ética jornalística pode ser a capacidade de chamar as coisas pelos seus verdadeiros nomes. Sem isso, a nova desordem não será apenas a nossa realidade, mas a única história que nos será permitido contar."
O artigo é de Frei Betto, escritor, autor do romance sobre a exploração da Amazônia intitulado Tom Vermelho do Verde (Rocco).
Eis o artigo.
Neste mundo já marcado por crises interligadas – climática, pandêmica, geopolítica – assistimos não a um ajuste, mas a um desmonte acelerado da arquitetura internacional pós-Guerra Fria. A volta de Donald Trump à presidência dos EUA não é um mero evento eleitoral; é a materialização de um projeto político que exalta como virtude a ruptura com o multilateralismo. Este fenômeno, porém, não surge no vácuo; é amplificado e, em certa medida, normalizado por um discurso midiático que, ao adotar eufemismos e enquadramentos parciais, acaba por justificar ações imperialistas sob novos rótulos.
O multilateralismo, com todas as suas imperfeições e hipocrisias, era a coluna vertebral de uma ordem baseada em regras, ainda que muitas só figurassem em documentos protocolares. Organizações como a ONU, o FMI e a OMC serviam como arenas de negociação e freios (tênues) ao exercício bruto do poder. A doutrina America First de Trump atacou esse sistema de frente: retirada da UNESCO, do Conselho de Direitos Humanos, ameaças à OTAN, guerra comercial unilateral, desprezo por acordos climáticos. A mensagem de Trump é clara: os compromissos coletivos são obstáculos ao poderio mundial dos EUA.
Se em um primeiro momento isso foi visto como um transtorno de personalidade do presidente estadunidense, hoje se revela como uma estratégia consciente, que encontrou eco em líderes de outros países e redefiniu o tabuleiro global. A “nova desordem mundial” é uma arena de todos contra todos, onde a força bruta, a coerção econômica e a diplomacia do ultimato substituem a negociação.
No vácuo provocado por essa ruptura, o que emerge não é um mundo multipolar equilibrado, mas um caos de competição predatória, onde grandes potências e corporações agem com total impunidade renovada. A anexação de territórios, as intervenções militares “cirúrgicas”, os bloqueios econômicos asfixiantes e o apoio a governos autoritários continuam. Mas a linguagem para descrevê-los sofreu uma sofisticação perversa. É aqui que a cumplicidade involuntária ou intencional de parte da grande imprensa se torna crucial.
A cobertura de conflitos e intervenções está repleta de eufemismos que encobrem a realidade e desresponsabilizam os agentes do poder. Uma “invasão” torna-se uma “operação especial” ou uma “intervenção para assegurar estabilidade”. Bloqueios, como o imposto a Cuba, ou sanções econômicas, que devastam economias e causam fome em populações civis, são descritas como “embargos”, “medidas de pressão” ou “ferramentas diplomáticas”. Apoio a milícias que derrubam governos eleitos vira “parceria com forças locais”. O termo “guerra” é evitado a todo custo, substituído por um léxico de gestão de crises. O colonialismo do século XXI não se veste mais de “missão civilizatória”, como nos séculos anteriores, mas de “responsabilidade de proteger”, “lutar contra o terrorismo” ou “defender a democracia” – conceitos válidos em si, mas esvaziados e instrumentalizados.
Essa linguagem não é inocente. Serve a um propósito claro: tornar aceitável o inaceitável. Ao transformar atos de agressão em questões técnicas ou de segurança, a narrativa dominante isola os eventos de seu contexto histórico, ignora as causas profundas e oculta os interesses materiais em jogo. Cria-se uma assimetria narrativa, já que as ações de potências ocidentais ou seus aliados são enquadradas como reativas, defensivas ou necessárias, enquanto as de seus adversários são imediatamente classificadas como ofensivas, expansionistas e malignas.
Um dos casos mais gritante é a cobertura do genocídio em Gaza. A imprensa hegemônica, em muitos casos, tratou o bombardeio indiscriminado e a morte de milhares de civis como “respostas” a ataques terroristas, “danos colaterais” ou “autodefesa complexa”. A palavra “genocídio”, utilizada por juristas e historiadores sérios, é descartada como retórica excessiva, enquanto os eufemismos oficiais são reproduzidos acriticamente. A mesma lógica se aplica às sanções ao Irã, à Síria ou ao Iêmen, retratadas muitas vezes como problemas de gestão interna de regimes “problemáticos”, e não como instrumentos de guerra econômica que atingem os mais vulneráveis.
O caso da Venezuela é clamoroso. Os EUA decidem violar o Direito Internacional, ocupam o mar do Caribe com suas armas marinhas, assassinam pescadores considerados supostos narcotraficantes e, como o pirata Black Bart, apreende navios petroleiros. Onde está a mídia investigativa para comprovar as acusações de que os barcos serviam ao narcotráfico? Por que a versão da Casa Branca predomina?
Vejam o noticiário das grandes mídias: todas qualificam de “captura” o sequestro de Nicolas Maduro. Por que captura? Por ter o governo dos EUA posto a cabeça dele a prêmio? E agora que os EUA retiraram a acusação de “narcotraficante”, o que justifica o sequestro? E Cilia Flores, por que foi sequestrada junto com o marido?
O fenômeno Trump é, assim, tanto a causa quanto o sintoma dessa nova desordem. Sua retórica brutalmente transacional expõe o que antes era velado: que a ordem internacional é, em última análise, um jogo de poder. Trump ao menos demonstra uma sinceridade que a grande mídia procura camuflar: a Venezuela foi invadida, não para que se recupere a democracia, e sim para os EUA se apropriar do petróleo. E a Groenlândia é ameaçada porque a Casa Branca está interessada em suas terras raras e na posição geopolítica que ocupa frente à Eurásia.
Ao agir assim, ele normaliza a linguagem do nacionalismo agressivo. A imprensa, por sua vez, ao adotar uma postura de “objetividade” que frequentemente repete os termos do poderoso, torna-se um mecanismo de soft power. Não precisa mentir; basta selecionar, enquadrar e suavizar.
O resultado é um público dessensibilizado, que consome violência estrutural e imperialismo como se fossem notícias meteorológicas de eventos inevitáveis, complicados, sem causas objetivas. A crítica ao sistema é esvaziada, pois falta o léxico preciso para nomear seus mecanismos. A “nova desordem mundial” não é apenas a dos tanques e das tarifas; é a desordem semântica, onde as palavras perdem seu sentido para servir ao poder.
A saída para este labirinto exige mais do que denúncias. Exige um jornalismo que rejeite o eufemismo como protocolo, que restaure a linguagem direta – invasão é invasão, sequestro é sequestro, bloqueio é bloqueio, genocídio é genocídio – e investigue o poder em vez de apenas traduzi-lo.
Em um mundo pós-multilateral, onde a força bruta retorna ao centro do palco, a última trincheira da ética jornalística pode ser a capacidade de chamar as coisas pelos seus verdadeiros nomes. Sem isso, a nova desordem não será apenas a nossa realidade, mas a única história que nos será permitido contar.
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