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12 Janeiro 2026

"De fato, a democracia eleitoral liberal sempre foi refém do sistema capitalista e, portanto, da expressão de um Estado de Direito marcado por exceções e exclusões sociais, econômicas, políticas, patriarcais e supremacistas, que frustram a realização de autênticas relações democráticas", escreve Flávio Lazzarin, padre italiano fidei donum que atua na Diocese de Coroatá, no Maranhão, e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT). 

Eis o artigo.

O fragmento da história inaugurado pela Revolução Francesa não nos permite, após o fracasso de inúmeras tentativas políticas, repetir o postulado da diferença ética e política entre direita e esquerda. Na verdade, a violência se dá numa rivalidade especular. O espelhamento recíproco, a imitação quase simétrica, no confronto entre senhores e escravos, ricos e pobres, brancos e negros, civilizados e colonizados, é revelada quando até mesmo os oprimidos recorrem à violência para fundar uma sociedade na qual Liberté, Égalité e Fraternité possam reinar.

Obviamente, a forma de se relacionar com a violência é diferente: a direita a considera inevitável, constitutiva da convivência humana e do processo histórico, enquanto a esquerda, apesar da herança dialética hegeliano-marxista, gosta de afirmar seu repúdio radical da violência perpetrada pelo sistema capitalista, reconhece-a como inaceitável e desumana, e se opõe à desigualdade, à injustiça e à opressão perpetrada pelos mais ricos, mais fortes e mais armados, contra os pobres e os despossuídos.

Mas as contas não fecham. Quando o conflito entre classes sociais amadurece em uma guerra civil, a esquerda também se vê prisioneira da violência que exige a eliminação, o extermínio do inimigo. E nessa guerra que as diferenças entre direita e esquerda desaparecem.

Como podemos nos salvar dessa tensão não resolvida entre o cinismo realista dos opressores e as boas intenções anti-violentas, desmentidas pela prática, que marcam as ideologias que pretendem defender os oprimidos?

É evidente que essas considerações não devem nos levar à convicção de que não existem opressores e oprimidos.

Pelo contrário, trata-se de encontrar caminhos políticos, que respondam a certas coordenadas. Antes de tudo, não podemos repetir os erros jacobinos, mas, ao mesmo tempo, embora seja necessário, não será suficiente defender a democracia liberal em momentos em que os ataques, muitas vezes letais, da nova direita ao Estado de Direito possam nos reduzir à proteção de uma ordem fragilizada e de futuro incerto.

Esse desafio envolve cultivar atitudes, denúncias e práticas radicalmente antisistêmicas. De fato, a democracia eleitoral liberal sempre foi refém do sistema capitalista e, portanto, da expressão de um Estado de Direito marcado por exceções e exclusões sociais, econômicas, políticas, patriarcais e supremacistas, que frustram a realização de autênticas relações democráticas.

Poderemos trilhar esse caminho, é claro, se não sucumbirmos novamente às teorias campistas, um triste legado stalinista deixado à esquerda. E, portanto, sob nenhuma circunstância defenderemos governos ou movimentos autoritários com a justificativa de que pertencem ao "campo anti-imperialista". Não ignoraremos a violação dos direitos humanos, a repressão interna, a negação da liberdade, e não iremos relativizar o "estado de exceção", em nome da luta contra o colonialismo imperialista.

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