Na COP30, o diálogo socioambiental para a paz teve como tema: “Chega de dominação, mas sim uma relação de respeito com todos os seres”

Foto: Luis Miguel Modino/Religión Digital

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14 Novembro 2025

  • “Diálogo sem escuta não é diálogo, é a imposição de ideologias ou ideias”, algo que exige escuta, porque “é na escuta que a esperança está presente, é na escuta que a esperança emerge gradualmente no horizonte da nossa compreensão”.

  • Existem soluções técnicas, mas falta vontade política para abordar aquilo que nos desagrada.

  • “Não haverá justiça social enquanto todos não se sentarem à mesma mesa de tomada de decisões, não para relatar seus dramas, mas para decidir.”

A reportagem é de Luis Miguel Modino, publicada por Religión Digital, 13-11-2025.

O diálogo é o instrumento que nos permite avançar na construção social. Daí a importância do painel “Diálogo Socioambiental para a Paz: Adaptação e Transição Justa”, realizado na Zona Azul da COP30 na manhã de 13 de novembro de 2025.

Diálogo entre diversos atores sociais

Um diálogo entre a Igreja Católica, representada pelo Arcebispo de Manaus, Cardeal Leonardo Ultirch Steiner, o Diretor do Departamento de Ecologia Integral da Conferência Episcopal Espanhola, Padre Eduardo Agosta, e a Secretária da Comissão Pontifícia para a América Latina, Emilce Cuda, a universidade, com a presença de Juliano Assunção, do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e os empresários Ana Cabral, presidente da Sigma Lithium, e José Luis Manzano, presidente da Integral Capital.

É preciso reconhecer que a mudança climática é um sinal de que perdemos o contato com a verdadeira essência da humanidade, nas palavras de Patricio Lombardi, presidente da Fundação para a Equidade nos Mercados Ambientais e organizador do evento. Ele, que fez um apelo à escuta, à reflexão e à reconexão, destacou a importância do Acordo de Paris e sua relação com a Laudato si', enfatizando o Artigo 12 do acordo, que exige “a cooperação para a adoção de medidas, conforme apropriado, para ampliar a educação, a capacitação, a conscientização pública, a participação pública e o acesso público à informação sobre a mudança climática, reconhecendo a importância dessas medidas para a ampliação das ações planejadas”.

Um painel como o realizado facilita o diálogo social, pedra angular da Doutrina Social da Igreja, como destacou Emilce Cuda, secretária do PCAL. Ela lembrou as palavras do Papa Leão XIV, que disse que " para desarmar as palavras, para alcançar a paz, é preciso dialogar ". Daí a necessidade de desarmar as palavras como única forma de resolver conflitos, o que a teóloga argentina considera a base do diálogo social. Ela explicou que "não se trata de um diálogo entre amigos, mas de um diálogo entre representantes de setores organizados da sociedade para chegar a um acordo sempre aberto e negociado", uma necessidade dada a atual conjuntura social e ambiental, que "corre o risco de chegar a um ponto crítico".

Diálogo sem escuta é imposição

O Cardeal Steiner partiu da ideia de que “diálogo é sempre escuta”, convocando a todos a “serem ouvintes, para que possamos gradualmente perceber a razão subjacente que nos motiva e nos dá um horizonte de compreensão para nossas vidas, mas também para nossa fé”. Portanto, “ diálogo sem escuta não é diálogo; é a imposição de ideologias ou ideias ”, algo que exige escuta, porque “é na escuta que a esperança se torna presente; é na escuta que a esperança emerge gradualmente no horizonte de nossa compreensão”.

Inspirado por Romano Guardini, o cardeal refletiu sobre a dimensão relacional, a necessidade de servir e de superar a possessividade. Abordou também a nossa relação com o meio ambiente, defendendo “a obrigação de erguer a bandeira da esperança para que essas relações estejam mais em harmonia com o que a própria natureza exige ”. Nesse contexto, clamou por “outra forma de conhecimento, uma que não observa, mas analisa; uma que não se imerge mais no objeto, mas o apreende e o destrói”. O Cardeal Steiner exigiu uma ética “não mais de dominação, mas de uma relação coerente e respeitosa com todos os seres”.

O Arcebispo de Manaus enfatizou a necessidade de considerar os pobres, aqueles que mais sofrem com as mudanças climáticas, que no Brasil são os povos indígenas. Em resposta, o presidente do Conselho Missionário Indígena disse: “Queremos ser um sinal de esperança para eles”, visto que eles próprios são um sinal de esperança em virtude de sua convivência harmoniosa com o meio ambiente. Portanto, é necessário lembrar que “Jesus nos oferece outro tipo de relacionamento, um relacionamento samaritano, fraterno, consolador e baseado na fraternidade universal”.

Necessidade de conversão

Segundo Eduardo Agosta, o problema climático está comprovado cientificamente desde 1987. Ele destacou a demora na tomada de decisões políticas, considerando uma das causas do fracasso atual o desrespeito aos princípios morais e éticos delineados na Laudato si'. Reconhece a existência de soluções técnicas, mas denuncia a falta de vontade política para enfrentar o que nos incomoda , dada a necessidade de conversão para que haja mudança. Aponta também para a falta de consciência de pertencermos a uma fraternidade humana, habitando uma casa comum, com uma dívida climática a pagar.

Para alcançar esse objetivo, é necessário abraçar uma ecologia integral e imanente, superando o pensamento fragmentado; enxergar o clima como a base de tudo que põe em risco a dignidade humana e a vida de muitas pessoas ; ver a terra como lar e não como recurso; promover uma transição justa; e adotar uma opção preferencial pelos pobres, que sofrem o impacto mais severo das consequências das mudanças climáticas. Por essa razão, Agosta exige um compromisso mais profundo com a adesão efetiva ao Acordo de Paris.

A universidade é um espaço para o avanço científico, inclusive em tudo o que se relaciona às mudanças climáticas, um problema que deve ser enfrentado coletivamente , segundo Juliano Assunção, já que afeta a todos e exige ajuda para aqueles que mais sofrem. Daí a necessidade de justiça climática, especialmente para os países mais pobres, aos quais o planeta deve a maior dívida ecológica. Por isso, é necessário criar oportunidades para que as pessoas vivam melhor, argumentou o professor brasileiro.

Todos sentados à mesa de diálogo

O grande desafio é estabelecer um diálogo com os envolvidos na tomada de decisões, com os líderes empresariais. Isso porque, como nos lembrou Emilce Cuda, citando o Papa Francisco, “ não haverá justiça social enquanto todos não se sentarem à mesma mesa de decisões, não para relatar seus sofrimentos, mas para decidir ”, pois esse é o único caminho para a paz, que é consequência do diálogo social.

Daí a importância da presença do mundo empresarial no evento. José Luis Manzano lembrou o apelo do Papa Francisco aos líderes empresariais para que assumam sua responsabilidade e ouçam os trabalhadores. Ele refletiu sobre a nova realidade global, marcada pela inteligência artificial, que exige alto consumo de energia, levando à constatação de que os esforços atuais são insuficientes. Essa realidade requer uma abordagem abrangente, com a participação de todos, que inclua essa reflexão sobre as agendas políticas como algo que demanda capital. Para isso, o diálogo é essencial, a obrigação de ouvir o outro. Ao lado do empresário argentino, a empresária brasileira Ana Cabral também enfatizou o diálogo, uma postura abraçada pela Igreja Católica, dada sua liderança moral e sua compreensão da realidade e da vida das pessoas.

Falar sobre a vida das pessoas

Um debate que levou Eduardo Agosta a enfatizar que “ o fundamento do diálogo social deve ser sempre a vida de todas as pessoas”. Isso em uma região amazônica que Juliano Assunção considera um símbolo, que “nos dá um caminho para a convivência, um caminho para o diálogo”, algo que faz parte da vida universitária. Partindo da premissa de que o diálogo se baseia no conflito, José Luis Manzano defendeu a busca por caminhos para a unidade, a descoberta da importância da terra. É na terra que acontecem as ações que trazem mudanças e oferecem esperança à vida das pessoas, segundo Ana Cabral.

Tudo isso se insere numa hermenêutica da totalidade, apresentada pelo Papa Francisco na Querida Amazônia. De uma perspectiva climática, essa hermenêutica deveria nos levar a considerar tudo, a ter uma visão holística, segundo o Cardeal Steiner. Ele chamou a atenção para “alguns elementos que não transformam o todo e não nos permitem cuidar do todo”, e afirmou ver na Querida Amazônia um instrumento que pode nos ajudar muito a enfrentar as mudanças climáticas. Daí seu apelo: “ Tirem as mãos da Amazônia. Vocês estão saqueando a Amazônia. E não são os amazônicos. Não são os povos indígenas, não são eles .”

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