Significado da Quaresma. Artigo de Frei Betto

Foto: Quentin Jones / Vatican Media

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

23 Fevereiro 2023

"A penitência mais significativa, que agrada a Deus e ao próximo, é se empenhar no socorro aos mais pobres. E, se possível, de modo menos assistencialista possível e mais estruturante. É óbvio que dar um prato de comida a quem tem fome é importante, por suprir a mais elementar necessidade do ser humano: alimentar-se. Contudo, melhor que indicar o caminho é oferecer o transporte. Age de modo estruturante quem cede um lote em área de sua propriedade para uma família sem-terra; consegue um trabalho para um desempregado; matricula na escola a criança analfabeta; apoia uma política governamental que beneficia os excluídos etc", escreve Frei Betto, escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.

Eis o artigo.

Quaresma é um período de 40 dias. Na Bíblia, os números não são aleatórios. Guardam significado. O 7, por exemplo, equivale ao nosso 8 deitado (♾️), símbolo do infinito. Nossos pecados, disse Jesus, serão “perdoados, não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete” (Mateus 18,21-22). A misericórdia de Deus é infinita.

Nos textos bíblicos encontramos muitas aplicações do número 40, que simboliza o tempo de Deus. O dilúvio durou 40 dias e 40 noites (Gênesis 7,17). Moisés tinha 40 anos quando feriu um egípcio e se viu obrigado a fugir (Êxodo 2,12 e 15). Antes de receber as tábuas da lei, ele jejuou durante 40 dias e 40 noites (Deuteronômio 9,9). Quarenta anos mais tarde teria liderado a libertação dos hebreus da escravidão no Egito. A travessia dos hebreus pelo deserto – o êxodo –, rumo a Canaã, teria durado 40 anos (Êxodo 16,35). O profeta Elias “caminhou 40 dias e 40 noites até o Monte Horeb, a montanha de Deus” (1 Reis 19, 8).

Como informa Marcos, após a ressurreição Jesus permaneceu 40 dias em companhia dos discípulos.

A Igreja instituiu a Quaresma – que se inicia na Quarta-feira de Cinzas e culmina no Domingo de Ramos - como tempo litúrgico que precede a Semana Santa e nos prepara para a Páscoa, a celebração da ressurreição de Jesus, a mais importante festa cristã.

Assim como os hebreus demoraram 40 anos para cruzar o deserto após se libertarem da opressão no Egito, e Jesus jejuou durante 40 dias antes de iniciar a sua militância, a Igreja recomenda aos cristãos, nesses 40 dias de Quaresma, assumirem uma postura penitencial.

Penitência não significa reconhecer as culpas. É muito mais do que isso. É fazer a travessia para um compromisso maior com atitudes de solidariedade. Postura amorosa e engajamento de justiça. Por isso, todos os anos, desde 1964, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) lança na Quaresma a Campanha da Fraternidade. A cada ano adota uma motivação temática diferente. Este ano é a fome.

Dados do governo revelam que temos hoje no Brasil 33,1 milhões de pessoas desnutridas, e 125 milhões em insegurança alimentar, ou seja, comem hoje sem saber se poderão repetir amanhã.

A penitência mais significativa, que agrada a Deus e ao próximo, é se empenhar no socorro aos mais pobres. E, se possível, de modo menos assistencialista possível e mais estruturante. É óbvio que dar um prato de comida a quem tem fome é importante, por suprir a mais elementar necessidade do ser humano: alimentar-se. Contudo, melhor que indicar o caminho é oferecer o transporte. Age de modo estruturante quem cede um lote em área de sua propriedade para uma família sem-terra; consegue um trabalho para um desempregado; matricula na escola a criança analfabeta; apoia uma política governamental que beneficia os excluídos etc.

Quaresma é também tempo de reabastecimento espiritual: oração, meditação, reflexão da Palavra de Deus, leituras espirituais, participação litúrgica. Sem reforçar a espiritualidade corremos o risco de desanimar ou ficar indiferente diante das necessidades do próximo.

Engana-se quem julga que “sacrifício” na Quaresma é apenas deixar de comer carne bovina, suína ou avícola, embora se farte de peixes e outros quitutes. Isso é descarado farisaísmo. Se queremos realmente viver a Quaresma na dinâmica da espiritualidade de Jesus devemos dar um pouco de nós. Do nosso tempo, da nossa vida, das nossas posses.

A parte mais sensível do corpo humano é o bolso. Por isso, neste ano proponho, como ação quaresmal, associada à proposta da Campanha da Fraternidade, a solidariedade, em forma de recursos financeiros, ao povo Yanomami, que padece desnutrição e doenças em decorrência do fato de seu território, na Amazônia, ter sido invadido pelo garimpo ilegal. Quem quiser participar veja minha Carta de Quaresma no site, clique aqui.

E Deus lhe pague!

Leia mais