Papa e CGIL fazem “barulho” sobre trabalho, meio ambiente e paz

Foto: Catholic Church England and Wales | Flickr CC

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21 Dezembro 2022

Há encontros que assumem valores simbólicos no tempo em que acontecem. O encontro de ontem entre o Papa Francisco e os cinco mil delegados da associação sindical CGIL, liderados pelo secretário Maurizio Landini, dá voz não só a "aqueles que não têm voz", como disse o pontífice, mas também àqueles que se preocupam com o destino do mundo do trabalho e dos últimos em geral.

A reportagem é de Stefano Cannavò, publicada por Il Fatto Quotidiano, 20-12-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

As notícias de malversação e corrupção que chegam de Bruxelas oferecem um triste vislumbre dos herdeiros do que já foi o movimento dos trabalhadores. Subornos de Estados estrangeiros, manobras parlamentares, solidariedade humanitária como mercadoria de troca. A CGIL e o Papa são obviamente sujeitos bem distintos um do outro, mas, no entanto, seu encontro oferece uma linguagem saudável e cheia de indicações para quem realmente quer discutir como reanimar a esquerda. "Somos um sindicato de rua", começou muito emocionado Landini, que no final de seu discurso recebeu um elogio bastante significativo de Francisco: "É bom este cara, não é?", brincou o Papa.

Landini delineou os temas centrais de sua CGIL, praticamente todos em consonância com a agenda do Pontífice, de quem citou as encíclicas, Laudato si' e Fratelli tutti, mas também os conceitos-chave: a "cultura do descarte" que permeia o mundo do trabalho, a "ecologia integral" como uma "nova visão econômica, social e ambiental". E também a necessidade de nos tornarmos “construtores da paz”. Aqui o secretário da CGIL citou a data que constitui a pedra angular deste encontro, aquele 5 de novembro, quando em Roma, na Piazza San Giovanni, "as bandeiras vermelhas da CGIL" tremularam junto com aquelas "de muitas associações católicas". A concordância sobre a guerra é total, ambos são a favor de um “cessar-fogo pelo menos durante o período do Natal”, para evitar aquela “terceira guerra nuclear em pedaços” da qual justamente Francisco falou.

Landini é interrompido pelos aplausos quando fala das mortes no trabalho, daquelas "três pessoas que não voltam para casa todos os dias", mas os aplausos são muito maiores quando o Papa fala. Também quando se refere às “demasiadas mortes no trabalho", porque "cada morte é uma derrota para a sociedade". Depois Francisco pede atenção para dar sua mensagem mais incisiva: “Sejam vocês a voz dos que não têm voz, façam barulho, sejam sentinela do mundo do trabalho”.

Aqui está a consonância entre os dois mundos que Landini, citando Francisco, traduz como “nos constituirmos num ‘nós que habita a casa comum’ e que o Papa interpreta em uma série de batalhas. Aquele contra "as distorções do trabalho", contra aquela "cultura do descarte" que também ele volta a citar, contra a dignidade pisoteada, por exemplo, nas "discriminações de gênero" com as mulheres que recebem menos do que os homens ou "assim que engravidam, são despedidas para não pagar a licença-maternidade".

O Papa não esconde nenhuma das ideias que têm atraído sobre ele a acusação de ser filo-marxista, apesar do seu ser um simples recurso à doutrina social da Igreja com tempero latino-americano. E, portanto, se lança contra a "idolatria do dinheiro", que significa colocar o lucro acima de todos; contra a "exploração de pessoas" a partir dos trabalhos ilegais; até exaltar o sindicato sem o qual "os trabalhadores não são livres" sabendo, porém, que "sem os trabalhadores não existe o sindicato" (uma advertência que os sindicalistas muitas vezes esquecem).

O estímulo do Papa é sublinhado por Landini ao comentar o dia, em particular aquele convite a “fazer barulho” que realmente parece um convite à luta. E que o dia de ontem tenha sido também um evento "histórico e muito importante", e ressaltado ao Fatto pelo secretário da CGIL Piemonte, Giorgio Airaudo, que lembra como "depois do 5 de novembro existe uma continuidade contra a guerra e agora um pressuposto de novos terrenos no social e no trabalho”. Airaudo também concorda que, pelo que pode ser visto na esquerda, um dia como este é uma tendência completamente diferente. Um pequeno evento simbólico, que dá algum respiro a quem olha para a esquerda, para o mundo dos trabalhadores e das trabalhadoras.

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