Schönborn discorda de declaração da Doutrina da Fé sobre ordenação de mulheres

Christoph Schönborn | Foto: Figlhaus Wien Akademie für Dialog und Evangelisation/ Flickr

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04 Junho 2018

A questão da ordenação de mulheres só pode ser esclarecida em um Concílio Ecumênico, diz Schönborn.

A reportagem é de Christa Pongratz-Lippitt e Christopher Lamb, publicada em The Tablet, 01-06-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Depois que o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Luis Ladaria Ferrer SJ, reafirmou nesta semana a impossibilidade de ordenar mulheres na Igreja Católica, ficou claro que as declarações do cardeal eleito Ladaria vão em sentido contrário a uma posição recentemente enunciada pelo cardeal Christoph Schönborn.

Em um artigo publicado no L’Osservatore Romano de 30 de maio, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé afirmou que expressar dúvidas sobre a impossibilidade de ordenar mulheres ao sacerdócio “cria uma grave confusão entre os fiéis”.

Seu artigo recebeu a manchete “O caráter definitivo da doutrina da Ordinatio sacerdotalis”, referindo-se à carta apostólica do Papa João Paulo II, de 1994, que delineava o raciocínio por trás da proibição da ordenação sacerdotal das mulheres.

O arcebispo disse ter decidido escrever “em resposta a uma dúvida” sobre o ensinamento do Papa São João Paulo II. “Desperta séria preocupação ainda ver surgir em alguns países vozes que põem em dúvida a definitividade dessa doutrina”, escreveu Ladaria.

“Para defender que ela não é definitiva, argumenta-se que ela não foi definida ex cathedra e que, então, uma decisão posterior de um futuro papa ou concílio poderia derrubá-la”, afirmou. “Semeando essas dúvidas, cria-se uma grave confusão entre os fiéis, não só sobre o sacramento da ordem como parte da constituição divina da Igreja, mas também sobre o magistério ordinário que pode ensinar de modo infalível a doutrina católica.”

Entrevistado sobre o assunto em sua entrevista na Páscoa para o jornal Salzburger Nachrichten de 1º de abril de 2018, o arcebispo de Viena, cardeal Schönborn, referiu-se especificamente à possibilidade de mudança através de um concílio. Ele afirmou que a questão da ordenação de mulheres era uma questão que “certamente só pode ser esclarecida em um concílio [ecumênico]. Não pode ser resolvida por um papa sozinho. É uma questão importante demais para ser resolvida a partir da escrivaninha de um papa”.

Perguntado se estava falando apenas sobre a ordenação de mulheres ao sacerdócio, ele disse que se referia à ordenação ao diaconato, ao sacerdócio e ao episcopado. Depois, ele foi questionado se era possível que o Papa Francisco desse o sinal verde ao diaconato feminino.

“Eu não consideraria isso uma coisa boa”, respondeu o cardeal Schönborn. “A Igreja é uma comunidade. Decisões importantes devem ser tomadas de forma colaborativa.”

Perguntado se ele era a favor de um concílio para que essas questões pudessem ser discutidas, o cardeal respondeu: “Eu quero que continuemos o caminho sinodal, um caminho que o Papa Francisco está promovendo fortemente. Sou a favor de um concílio sempre que isso acontecer. O Papa João XXIII reconheceu o momento certo para um concílio quando ninguém mais esperava. Eu confio no Espírito Santo”.

No entanto, o cardeal designado Ladaria afirma que a crença da Igreja em um presbiterado exclusivamente masculino é um ensinamento infalível que deve ser considerado como uma parte imutável e “definitiva” da fé católica. Na declaração doutrinal mais direta até agora contra a ordenação de mulheres no papado de Francisco, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé diz que a masculinidade é “um elemento indispensável” do sacerdócio, e a Igreja está “vinculada” à decisão de Cristo de escolher apóstolos masculinos.

Ele assinalou que esse ensinamento infalível não é simplesmente proclamado por um concílio ou por um papa que fala “ex cathedra”, mas também é proclamado por bispos em todo o mundo que, em comunhão com o papa, propõem doutrinas que devem ser “mantidas definitivamente”.

Ele revelou que o Papa São João Paulo II havia consultado lideranças das conferências episcopais antes de publicar a Ordinatio sacerdotalis e que todos eles declararam seu apoio e obediência ao ensinamento.

O papa polonês, explicou Ladaria, não quis “trabalhar sozinho”, mas buscou garantir que estivesse ouvindo uma “tradição ininterrupta e vivida”. Em 2015, Francisco disse que foi apenas depois de “longas e longas discussões intensas” que João Paulo II emitiu sua decisão sobre a ordenação de mulheres.

“Ele não declarou um novo dogma, mas, com a autoridade que lhe foi conferida como sucessor de Pedro, confirmou formalmente e explicitou, a fim de eliminar qualquer dúvida, aquilo que o magistério ordinário e universal considerou ao longo de toda a história da Igreja como pertencente ao depósito da fé”, escreveu o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

O cardeal designado de 74 anos salientou que a recusa a ordenar mulheres não significa uma “subordinação, mas sim um enriquecimento mútuo” de homens e mulheres, já que o papel elevado de Maria mostra a importância tanto dos aspectos femininos quanto masculinos da Igreja.

Isso é ainda mais importante em uma cultura contemporânea, que o arcebispo Ladaria diz que “custa a compreender o significado e a bondade da diferença entre o homem e a mulher”, cujos papéis devem ser complementares, embora distintos.

Por sua parte, o Papa Francisco fez tentativas para dar às mulheres papéis maiores dentro da Igreja e, em agosto de 2016, estabeleceu uma comissão para examinar a questão das diaconisas.

Esse órgão é liderado pelo cardeal designado Ladaria, e há especulações em Roma de que sua intervenção poderia ser um reforço do ensinamento sobre o sacerdócio antes de uma medida que permita que as mulheres entrem no diaconato.

Em 2009, Bento XVI emitiu uma decisão legal delineando claramente o papel dos diáconos – tecnicamente membros do clero – em relação ao sacerdócio ordenado. Enquanto os diáconos servem à Igreja, definiu Bento, são os padres e os bispos que participam da “liderança de Cristo”, seguindo o ensinamento católico de que o padre atua na “pessoa de Cristo”.

Essa distinção entre o diaconato e o sacerdócio pode abrir para a possibilidade de permitir um diaconato que inclua as mulheres, mas definitivamente exclui o sacerdócio.

O arcebispo Ladaria escreveu: “Cristo quis conferir esse sacramento aos 12 apóstolos, todos homens, que, por sua vez, comunicaram-no a outros homens. A Igreja sempre se reconheceu vinculada a essa decisão do Senhor, que exclui que o sacerdócio ministerial possa ser validamente conferido às mulheres”.

Foi Paulo VI, em uma carta de 1975 ao então arcebispo de Canterbury, Donald Coggan, que emitiu a primeira decisão papal dos tempos atuais contra a ordenação de mulheres, dizendo que “não é admissível ordenar mulheres ao presbiterado por razões muito fundamentais”. O arcebispo Coggan escrevera a Paulo VI para explicar um crescente consenso na Comunhão Anglicana em favor da ordenação de mulheres. A Comunhão Anglicana agora tem mulheres que atuam nos mais altos níveis da liderança eclesiástica.

O grupo de oposição radical We Are Church International (WACI) rejeitou fortemente nesta semana a alegação do arcebispo Ladaria de que a proibição de ordenar mulheres ao sacerdócio católico tem um “caráter definitivo” e “é uma verdade que pertence ao depósito da fé”.

O arcebispo Ladaria será criado cardeal pelo Papa Francisco no próximo dia 28 de junho.

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