A despeito das tentativas de invisibilização, samba e carnaval são partes constituintes da cultura gaúcha, tanto que a primeira escola de samba data de 1940, enquanto o primeiro CTG só seria fundado oito anos mais tarde
As expressões culturais ligadas à música possuem grande importância no contexto literário brasileiro. A palavra cantada é um dos modos mais genuínos de uma estética brasileira. “A canção no Brasil é uma das grandes riquezas que o povo brasileiro construiu ao longo dos seus 525 anos. Não dá para pensar em Brasil, em cultura brasileira, sem pensar na musicalidade que nos acompanha desde que nascemos”, pondera o pesquisador Jackson Raymundo, em entrevista por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Entre os nomes dos gaúchos que figuram entre os maiores artistas brasileiros do século XX está Lupicínio Rodrigues, que foi considerado por Haroldo de Campos um dos precursores da Bossa Nova. “O Lupicínio faz uma conexão com as vergas mais importantes e muitas vezes secundarizadas, quando se pensa na cultura brasileira, que é essa conexão da musicalidade do samba com o tango. Tem aquela dramaticidade típica do tango, ao mesmo tempo que tem a percussividade do samba, a batida que caracteriza a música brasileira e a síncope que caracteriza a nossa cultura”, pontua Raymundo.
Não deixa de ser curioso o papel do Estado Novo – um governo autoritário, comandado por um gaúcho e tendo muitos gaúchos no alto escalão – para a consolidação do samba como o gênero musical brasileiro. “É bom lembrarmos que durante o Estado Novo (...) o samba se torna um gênero nacional. O rádio e a indústria fonográfica se voltam muito para esse gênero e Túlio Piva, Caco Velho e outros que são dessa geração se tornam referências nesse momento de formação do samba também falando de temas universais. Túlio Piva, no caso, tem uma forte poética relacionada à noite, a esse ambiente mais boêmio, além de falar de amor e desses temas que são mais comuns”, frisa.
“Eu vi há poucos dias, nas redes sociais, rapidamente uma notícia de que um parlamentar da extrema-direita estaria propondo retirar recursos do carnaval de escolas de samba, alegando que não são manifestações gaúchas. Isto é uma bobagem imensa. As escolas de samba (...) existem no nosso Estado desde 1940, há muito tempo, então são absolutamente parte da nossa cultura, como são os CTGs e outras tantas manifestações. Portanto, o carnaval e o samba são símbolos também da cultura do Rio Grande do Sul e não dá para separar isso, não dá para dissociar daquilo que nós somos”, complementa.
Jackson Raymundo (Foto: Portal Gov)
Jackson Raymundo é diretor de Documentação Histórica da Presidência da República. Professor do Programa de Pós-graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB), é pós-doutor em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB), doutor, mestre e graduado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também obteve o título de especialista em Administração Pública Contemporânea. Entre 2023 e 2025, foi secretário-executivo do Conselho Nacional de Educação e atuou como coordenador-geral de Articulação Institucional da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Integra, desde 2019, o Núcleo de Acompanhamento de Políticas Públicas (NAPP) de Cultura da Fundação Perseu Abramo, e fez parte do Grupo Técnico de Cultura do Gabinete de Transição Presidencial, em 2022.
IHU – O que nos autoriza e qual a importância de pensarmos as canções como literatura? De que maneira essa compreensão desloca uma concepção conservadora da literatura?
Jackson Raymundo – A literatura precisa ser compreendida no sentido lato. Literatura é toda palavra estetizada, seja escrita, seja falada ou cantada. A canção no Brasil é uma das grandes riquezas que o povo brasileiro construiu ao longo dos seus 525 anos. Não dá para pensar em Brasil, em cultura brasileira, sem pensar na musicalidade que nos acompanha desde que nascemos. Então, acredito que não há como estudar formas e manifestações literárias sem considerar essa linguagem [a música] tão relacionada e definidora do que é a identidade brasileira, que é por essência diversa.
IHU – Quando se fala em samba e carnaval, aspectos identitários importantes da cultura brasileira, essas ideias não costumam ser associadas à região Sul do Brasil, incluído o RS. Contudo, a realidade é mais complexa. Como se dão essas manifestações artísticas e culturais e qual a importância delas no estado mais meridional do país?
Jackson Raymundo – Eu penso que eu tive uma oportunidade ímpar de poder falar sobre aquilo que muitas vezes é tido como símbolo de uma brasilidade, em especial no exterior, que é o samba, o carnaval, mas que no Rio Grande do Sul muitas vezes não é tido como algo relacionado à cultura gaúcha.
É bom lembrarmos que a primeira escola de samba no Rio Grande do Sul, Bambas da Orgia, é de 1940. O primeiro Centro de Tradições Gaúchas – CTG, para comparar, é de 1948. Ambas as agremiações, sejam os CTGs, seja as escolas de samba, são extremamente significativas quando pensamos na cultura da população que nasceu e que vive no Rio Grande do Sul. Portanto, não dá para pensar o Rio Grande do Sul sem pensar nessa conexão, nesses símbolos identitários de uma brasilidade que são o samba e o carnaval.
O que percebi, ao longo de muitos anos de pesquisa, é que em Porto Alegre, logo após o momento que surgem as escolas de samba no Rio de Janeiro, há também escolas de samba em Porto Alegre. Ao mesmo tempo que no interior, em especial em algumas grandes praças, como Pelotas e Rio Grande, também temos, já em meados do século XX, a presença de escolas de samba nesse carnaval mais organizado, onde há uma preocupação com o enredo e com toda uma estética. Então, o carnaval também faz parte da nossa cultura gaúcha e devemos nos orgulhar disso.
IHU – Qual a importância de considerarmos a música e outras manifestações culturais da oralidade no contexto de uma nova história da literatura do RS?
Jackson Raymundo – Um dos grandes méritos da História da Literatura do Rio Grande do Sul (2024), organizada pelo professor Luís Augusto Fischer, de quem muito me orgulho de ter sido orientado na graduação, no mestrado e no doutorado em Letras na UFRGS, foi dar destaque às diferentes formas cancionais que fazem parte da história da cultura do Rio Grande do Sul. O professor Fischer é um dos pioneiros no país no estudo da canção como literatura. E, na História da Literatura do Rio Grande do Sul, em diferentes capítulos, aparece essa contribuição que a música deu à cultura gaúcha. São diversos textos de diferentes gêneros que abordam essa visão mais ampliada de literatura que o professor Fischer é muito reconhecido por trabalhar.
IHU – Outra visão vulgar sobre o RS é aquela que apaga as pessoas negras de sua história. Pode comentar sobre a importância da população negra, que é bastante expressiva, na formação étnica e cultural do RS?
Jackson Raymundo – Desde sempre eu entendo que não dá para invisibilizar a enorme presença e a contribuição da população negra no Rio Grande do Sul. Eu sou neto de Adelar Caetano Cabral, de São Sebastião do Caí, no Vale do Caí – uma região com forte colonização açoriana e alemã –, que durante décadas esteve à frente, junto com a minha avó, Miguelina de Brito, do Clube 13 de Maio. Um clube de cultura negra, de resistência do povo negro e onde os negros eram a estrela, onde eles podiam viver com muita segurança e tranquilidade sua a cultura. E, ao mesmo tempo, era um lugar de mobilização social, onde todos os anos se evocava a importância da luta pela liberdade.
Essa é uma lembrança que eu tenho ainda de criança.
Quando fui para a universidade, eu já não tinha mais a existência desse clube social negro, que é um movimento muito importante no Rio Grande do Sul. Mas essa ideia de falar da cultura carnavalesca sempre perseguiu, que é uma cultura, no Brasil, por essência negra. Essa cultura das escolas de samba tem essa matriz. Então, mesmo sendo um homem branco, entendo que é um compromisso de todos, ao estudar manifestações que são muito significativas na identidade brasileira, perceber a importância que tem a matriz negra para a formação do Brasil e da nossa cultura.
IHU – Lupicínio Rodrigues é um dos grandes nomes, talvez “o” grande nome, da música gaúcha, tendo servido de referência para muitas gerações de músicos no Brasil. Qual a importância dele no contexto musical do Rio Grande do Sul?
Jackson Raymundo – Lupicínio faz uma conexão com as vergas mais importantes e muitas vezes secundarizadas, quando se pensa na cultura brasileira, que é essa conexão da musicalidade do samba com o tango. Tem aquela dramaticidade típica do tango, ao mesmo tempo que tem a percussividade do samba, a batida que caracteriza a música brasileira e a síncope que caracteriza a nossa cultura. Ao mesmo tempo que dialoga com essa forte influência que veio dessa nossa vizinhança com a Argentina e com o Uruguai.
É bom lembrar que, décadas atrás, essa influência se dava muito por meio do rádio, que atravessava as fronteiras geográficas e se estabelecia muito a partir dessa fronteira no Rio Grande do Sul.
Para alguns ícones dos estudos culturais brasileiros, como Haroldo de Campos, Lupicínio é um dos precursores da Bossa Nova. O tipo de música que ele faz, Haroldo de Campos considera que é algo pioneiro de uma estética que, a partir de João Gilberto e Tom Jobim, se tornaria um gênero mundialmente conhecido e representativo do que é a música brasileira. Portanto, o Lupicínio tem que ser muito valorizado, invocado e regravado. Sabemos que tem muitas regravações – e é bom que se tenha – e que continue sendo essa referência para o país todo.
IHU – Outro artista importante no contexto gaúcho é o poeta Mário Quintana. Como as obras dele e de Lupicínio possuem temas que são transversais e afins?
Jackson Raymundo – Mário Quintana tem uma obra que possui uma universalidade a partir do local. A partir da aldeia, ele faz com que a forma de se comunicar com o leitor seja universal. Essa mesma característica também está presente na obra do Lupicínio.
São autores que falam de amor, de infância, de saudade e de sentimentos que estão universais, mas sempre evocando ou radicados também a partir desse lugar que é Porto Alegre, que é o Rio Grande do Sul. Logo, não há uma antítese entre o local e o universal quando nós temos grandes artistas produzindo a grande literatura. Tanto Mário Quintana quanto Lupicínio são representativos do que de mais complexo e mais rico há na cultura não só gaúcha, como também brasileira.
IHU – Túlio Piva é outro nome de envergadura na história cultural do RS. Quem foi este cantor e compositor e qual a importância dele para o samba no estado mais ao sul do Brasil?
Jackson Raymundo – Túlio Piva é de uma geração de artistas gaúchos que circulou em especial pelo Rio de Janeiro, mas que teve também conexões para fora do país. Ele é de um tempo em que era comum haver esse tipo de conexões e em que o samba se consolidava como gênero genuinamente nacional.
É bom lembrarmos que durante o Estado Novo, aliás, liderado por um gaúcho e hegemonizado por gaúchos, o samba se torna um gênero nacional. O rádio e a indústria fonográfica se voltam muito para esse gênero e Túlio Piva, Caco Velho e outros que são dessa geração se tornam referências nesse momento de formação do samba também falando de temas universais. Túlio Piva, no caso, tem uma forte poética relacionada à noite, a esse ambiente mais boêmio, além de falar de amor e desses temas que são mais comuns.
Então, considero que Túlio Piva, muitas vezes não lembrado tanto como deveria, faz parte dessa formação do samba moderno brasileiro e que tem tudo a ver também com esse contexto de formação do samba como gênero nacional.
IHU – Como é a relação entre samba e carnaval do ponto de vista dos realizadores culturais do Rio Grande do Sul? Como funciona esse circuito?
Jackson Raymundo – Nem sempre samba e carnaval foram sinônimos. Ainda hoje não são. É bom reconhecer que há manifestações carnavalescas e que existem outros gêneros musicais, ao mesmo tempo precisamos saber que o samba é um gênero que não se limita ao período carnavalesco, pois existe ao longo de todo o ano.
Houve, no entanto, um momento da nossa história, a partir do Rio de Janeiro, ainda a capital da República, em que samba e carnaval criaram um amálgama que possibilitou a criação das escolas de samba e dos desfiles. Em 1932, há o registro do primeiro desfile e isso está inserido em um contexto em que o Brasil buscava afirmar uma brasilidade. No próprio regimento que cria a União das Escolas de Samba no Rio de Janeiro, em 1935, se falava que um dos propósitos maiores das escolas de samba era cultivar a verdadeira música nacional onde se constrói a brasilidade.
Porto Alegre, quando se inspira nesse modelo carioca de carnaval, também faz com que se crie, a partir do nosso estado, a possibilidade de ter essa fusão de samba e carnaval como algo definidor da sua própria cultura. É bom sempre ampliar, pois isso também ocorre em outros lugares do nosso estado. Citei antes Pelotas e Rio Grande, mas podemos citar também a Uruguaiana, onde o carnaval fora de época, a partir dos anos 2000, tornou-se um dos mais importantes do país.
Temos hoje em Uruguaiana um carnaval que leva grandes artistas do Carnaval de São Paulo e do Rio de Janeiro, geralmente no mês de março. Isso faz com que haja também uma circulação de talentos que é muito expressiva.
Além disso, sobre o momento presente, é bom falarmos que houve um período, na década passada, de forte ataque à cultura carnavalesca por grupos fundamentalistas, por uma extrema-direita sedenta de um combate cultural às manifestações brasileiras, às manifestações mais libertárias da nossa cultura, e o carnaval foi um dos primeiros alvos.
Em todo lugar pipocaram discursos de que era preciso investir em outras áreas, cancelando carnavais. Então, foi um momento muito triste da nossa história e infelizmente ainda há ecos. Mas é importante ressaltarmos sempre o quanto o carnaval é brasileiro e também é gaúcho.
Eu vi há poucos dias, nas redes sociais, rapidamente uma notícia de que um parlamentar da extrema-direita estaria propondo retirar recursos do carnaval de escolas de samba, alegando que não são manifestações gaúchas. Isto é uma bobagem imensa. As escolas de samba, como falei antes, existem no nosso Estado desde 1940, há muito tempo, então são absolutamente parte da nossa cultura, como são os CTGs e outras tantas manifestações. Portanto, o carnaval e o samba são símbolos também da cultura do Rio Grande do Sul e não dá para separar isso, não dá para dissociar daquilo que nós somos.
IHU – Um tema mais ou menos escasso nas canções e sambas do RS é a crítica social. Não é um mote comum. Isso posto, há algumas exceções. O senhor poderia falar delas e sobre a importância dessas canções neste contexto?
Jackson Raymundo – Parece-me que a crítica social não é tão explícita como é em algumas composições do samba carioca, mas também muito por conta do volume de produção que há no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde se produz um volume muito maior. No Rio Grande do Sul, a crítica social muitas vezes é feita a partir de um lugar de fala, usando uma expressão mais contemporânea, que é de um compositor que é das classes populares, que participa de uma comunidade periférica e, por vezes, negra.
Essa crítica social muitas vezes está presente, mas como algo mais subjetivo e nem tão explícito. Ela existe sim, só que mais ligada a uma subjetividade humana fazendo com que haja expressões bastante interessantes também dessa temática.
IHU – Na virada do milênio, Porto Alegre teve como tema geral dos sambas-enredo “Aqui são outros 500”. As sete escolas de samba do Grupo Especial tiveram como temas, cada uma delas, um dos Sete Povos da Missões. Qual foi a importância de ter esse assunto no contexto carnavalesco para a construção de uma crítica à colonização brasileira?
Jackson Raymundo – Foi muito interessante esse carnaval do ano 2000, porque o Brasil todo “celebrava os 500 anos” e Porto Alegre e naquele contexto tinha uma forte hegemonia de esquerda, com capital e o estado governados pelo PT. O país era governado por uma aliança mais de centro-direita, capitaneada pelo PSDB, havia uma efervescência muito grande de uma vertente progressista. E, por esse viés, as sete escolas do Grupo Especial, naquele ano, decidiram que cada uma trataria, nos seus enredos, de um dos Sete Povos das Missões. Cada escola foi um povo das missões. E todas atuaram por um viés muito politizado, onde a crítica social se entrelaçava à resistência indígena e aos piores efeitos da colonização.
Ao mesmo tempo, era interessante ver o quanto aquelas sete escolas, cada uma falando de uma cidade diferente, trouxeram discursos distintos sobre o que seria o mesmo tema. Isto mostra que falar de um mesmo tema possibilita também as leituras mais distintas sobre o mesmo assunto.
Enquanto o Brasil “celebrava os 500 anos”, no Rio Grande do Sul, o tema era “Aqui são outros 500”. E esse tema norteou diversos projetos e situações naquele ano e fizeram com que as escolas também fizessem parte.
Quem falou, por exemplo, de maneira bastante politizada, foi Bambas Orgia, que, ao falar de São Luiz Gonzaga, trouxe no seu refrão assim: “Aqui são outros 500. Prestes lidera o movimento e parte para a Revolução”. Então, eles trazem Luiz Carlos Prestes, um missioneiro, que também foi uma referência progressista, além de homenagear outros nomes ilustres da região, como Eugenio Caetano Braun. Eles falaram da Coluna Prestes, da resistência indígena, entre outros feitos e outras pessoas daquele período.
Cada escola falou de uma cidade e trouxe uma narrativa distinta sobre esse grande tema.
IHU – Deseja acrescentar algo?
Jackson Raymundo – Sim. Quero dizer o quanto está presente a importância da cultura negro-gaúcha. E cito, de maneira muito especial, o enredo da Portela para o Carnaval de 2026, que fala sobre o Príncipe Custódio [Joaquim de Almeida], que já foi tema daquele que eu considero o maior samba-enredo de todos os tempos do Carnaval gaúcho, que é Festa de Batuque, dos Bambas da Orgia, de 1995. E o enredo da Portela fala sobre a cultura afro-gaúcha, muito a partir do Príncipe Custódio e do Bará do Mercado. Aquele orixá está lá no coração do Mercado Público de Porto Alegre, no meio do mercado, e que é tão importante para as expressões de religiosidade de matriz africana no Rio Grande do Sul.
Teremos um grande Carnaval de 2026, onde a cultura afro-gaúcha estará em evidência também naquele que é o maior desfile de escolas de samba do Rio de Janeiro. E que venham outros desfiles, outras narrativas, porque há muita história para ser contada.