05 Setembro 2026
Neste dia 04 de setembro, Ivan Illich, crítico do tecnocapitalismo, teria feito 100 anos. Este pensador da ecologia política, que se opôs ao culto do crescimento, levantou questões essenciais que ressoam ainda mais fortemente hoje.
A reportagem é de Catherine Marin, publicada por Reporterre, 04-09-2026. A tradução é do Cepat.
Quando finalmente colocaremos a chamada sociedade da abundância em julgamento, como Ivan Illich nos incitou a fazer já na década de 1960 com suas críticas mordazes à sociedade do crescimento? Este homem jovial e amante da vida, historiador que se tornou padre em 1951 (ele afirmava nunca ter entendido o porquê), teria feito 100 anos em 4 de setembro se seu coração não tivesse parado de bater em 2 de dezembro de 2002.
Com suas publicações, este erudito batalhador austríaco adquiriu reputação internacional como um pensador radical da ecologia política, especialmente com cinco obras publicadas na década de 1970: Libérer l’avenir – Pour une révolution des consciences (1971); Sociedade sem escolas [Vozes, 2018] (1971); La Convivialité (1973); Énergie et Équité (1975); Némésis médicale (1975).
Mais de 50 anos se passaram desde a publicação dessas obras em francês, trazendo consigo uma profusão de invenções tecnológicas e desastres ecológicos. Contudo, cada “notícia” que surge neste outono parece ter sido prevista, quer se trate do aumento dos preços da energia, das falhas do sistema de saúde ou da escassez de moradias. Agora que estamos atônitos com a ilusão da transição ecológica – com eventos climáticos extremos aumentando proporcionalmente ao consumo de combustíveis fósseis –, esses livros permanecem cruciais para levantar questões essenciais.
Uma perversão do progresso
O título do primeiro opúsculo de Illich, Libérer l’avenir – Pour une révolution des consciences, revela suas convicções. Ele não fala de “utopia” ou da “libertação dos imaginários”, mas da necessidade de transformar as instituições (escolas, hospitais, o setor energético, etc.). Em sua visão, essas tecnologias se tornaram “ferramentas” formatadas pelos poderosos da sociedade industrial para servir à sua cultura comercial e desigual – considere, por exemplo, a invasão digital das escolas sem qualquer formação crítica dos professores.
Nesse sentido, Ivan Illich alinha-se à história da tecnocrítica (ou crítica da tecnologia), seguindo os passos de Jacques Ellul e de Lewis Mumford. Essa corrente de pensamento não rejeita a tecnologia em si, mas a transformação (e a visão) do mundo que ela impõe à medida que se dissemina.
Tomemos como exemplo a energia: o óleo de aquecimento e a gasolina sofrem atualmente um aumento vertiginoso dos preços – 50% num só ano para o primeiro e cerca de 35% para a gasolina sem chumbo 98. Os analistas culpam a guerra no Médio Oriente. Mas e se fôssemos à raiz do problema?, sugeriu Illich em Énergie et Équité.
Ao escrever este opúsculo, baseou-se na sua experiência como vigário de uma paróquia em Porto Rico, uma ilha pobre situada no Mar das Caraíbas onde a cultura tradicional (da alimentação à habitação) ainda era muito rica. Lá, pôde observar “como as chamadas políticas de desenvolvimento estadunidenses – hoje as chamaríamos de políticas de ‘crescimento’ – serviram como um cavalo de Troia para impor um mercado de bens e serviços às populações locais”, explica o ensaísta Thierry Paquot, autor de Ivan Illich et la société conviviale (publicado por Le Passager clandestin), à Reporterre. “Após o estabelecimento de novos padrões (de segurança e outros), que solaparam a cultura tradicional, ele também observou que os ricos ficaram cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Isso foi na década de 1970. Veja o resultado 50 anos depois”.
Illich cunharia nesse tempo o conceito de “pobreza moderna” para desmistificar essa “sociedade da abundância” e destacar o quão dura ela era para os pobres e a classe média, reféns do dinheiro e privados do apoio comunitário que as culturas locais outrora promoviam.
Na Europa, observou a mesma tendência: a sociedade abastada desenvolveu-se por meio da construção de infraestruturas (ou “planejamento regional”, no jargão tecnocrático) que tornou essencial a compra de bens com alto consumo energético, como carros, porque, ao mesmo tempo, as alternativas (transporte público, compartilhamento de carros etc.) tornaram-se cada vez mais escassas.
A mesma tendência pode ser vista no setor da construção civil, um dos maiores emissores de gases de efeito estufa: o aquecimento a óleo ou gás foi imposto em habitações mal isoladas (principalmente as habitações sociais), embora as técnicas tradicionais de isolamento com materiais de base biológica ou geológica, muito mais econômicas, já tivessem comprovado sua eficácia.
Para se opor a essa demanda crescente por energia, uma estratégia de classe perversamente assimilada ao progresso, esse humanista radical clamou por uma onda de conscientização, em vez de medidas consensuais como as adotadas pelo Clube de Roma. Ele convidou as pessoas a debaterem uma autolimitação coletiva do consumo de energia e a reconstruírem uma sociedade de comuns, onde a vida seria vivida “em termos de ser, e não mais em termos de ter”.
“As relações sociais produtivas movem-se ao ritmo de uma bicicleta, não mais rápido”, enfatizou ele, com humor, em 1973, em sua obra seminal, La Convivialité, para nos lembrar que a vida não se desenvolve na pressa. Em uma das entrevistas reunidas no fascinante volume La Corruption du meilleur engendre le pire, publicado este ano pela L’Échappée, ele desenvolve brilhantemente essa ideia da lentidão política.
Por uma revolução cultural
Os cinco livros mencionados acima são frequentemente considerados o núcleo da obra de Illich. Mas “eles representam apenas um terço de toda a sua produção escrita”, explica Thierry Paquot, que publicará em outubro uma biografia desse pensador e amigo, Ivan Illich – Une vie d’amitiés (Éditions de l’Atelier).
Após a experiência altamente fecunda na Universidade Livre de Cuernavaca, no México, Ivan Illich tornou-se, na década de 1980, um professor nômade. Ao mesmo tempo, nunca deixou de explorar a cultura ocidental e sua influência sobre o cristianismo. Será que ela tem alguma responsabilidade pela ascensão do “regime da técnica”?, perguntava-se este judeu por parte da sua mãe, que jamais esquecerá que a barbárie nazista não teria prevalecido sem o apoio dos empresários.
Ao mesmo tempo, “ele desenvolve um questionamento ético”, enfatiza Benoît Sibille, coeditor, com Émilie Hache e Pierre-Louis Choquet, da coletânea La Corruption du meilleur engendre le pire. “Na ‘era dos sistemas’, em que nossas vidas são quantificadas, conduzidas por algoritmos e vigiadas, como podemos manter espaços de manobra para viver nossa liberdade?”
Ao viajar para o passado – No espelho do passado: Palestras e discursos 1978-1990 [N-1 Edições, 2024] foi publicado em 1994 –, seja no que diz respeito à arte de olhar, de ler, do silêncio, da colhida do estrangeiro ou à “arte de habitar” (textos publicados nos dois volumes de Obras completas, da Fayard), ele desvenda etimologias, compara e destaca o movimento de desencarnação ao qual devemos resistir para nos conectar com a vida e defendê-la. Assim, ele reabre outro caminho para o progresso, um novo humanismo, cuja necessidade explica em La Perte des sens, uma bela coletânea de textos póstumos publicada em 2004 pela Fayard.
Abrir o debate fundamental sobre a energia à população
Desde a década de 1970, e o relatório de Dennis e Donella Meadows, que afirmava ser impossível o crescimento ilimitado em um planeta com recursos finitos, o debate público tem oscilado entre dois caminhos para lidar com as mudanças climáticas: a geoengenharia e suas fantasias marcianas à la Musk, e a energia nuclear e as energias renováveis, apesar do perigo imensurável da primeira e do problemático consumo de recursos naturais da segunda.
Ivan Illich foi um dos poucos a defender uma terceira via: convicto, já na década de 1980, de que “os poderosos jamais pensariam senão através das lentes da vulgata econômica”, ele propôs a organização de debates públicos para permitir que as pessoas “determinassem o limite a partir do qual a energia corrompe e se unissem em um processo político que alcançasse esse conhecimento e o fundamentasse na autolimitação”. Uma proposta que a esquerda, infelizmente, negligenciou, como Jean-Michel Djian relata com precisão em sua instigante biografia, Ivan Illich, l’homme qui a libéré l’avenir (Éditions Points).
No entanto, “é a abundância de energia que leva à exploração”, escreveu Illich, um descobridor de ideias. “Para que as relações sociais se baseiem na equidade, uma sociedade deve limitar o consumo de energia dos seus cidadãos mais poderosos” – e hoje, mais do que nunca. Não representam a busca do lucro e o egocentrismo dos ricos uma ameaça à coesão social, especialmente quando apoiados por governos que lhes são subservientes?
Não nos esqueçamos de que o iluminado Illich segue nos apontando o caminho para um novo horizonte nos seus livros.
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