04 Setembro 2026
Uma criança que perde alimentação, saúde ou meses de escolarização carrega consequências muito além da emergência em um evento climático extremo.
O artigo é de Reinaldo Dias, publicado por EcoDebate, publicado por 03-09-2026.
Reinaldo Dias é articulista do EcoDebate. Doutor em Ciências Sociais (Unicamp), especialista em Ciências Ambientais (USF), pesquisador associado do CPDI do IBRACHINA/IBRAWORK.
Eis o artigo.
O segundo boletim do Painel El Niño 2026–2027, divulgado em agosto, confirmou que o fenômeno deverá permanecer ativo pelo menos até o início de 2027, com alta probabilidade de atingir intensidade muito forte entre a primavera e o verão. As projeções indicam temperaturas acima da média em praticamente todo o Brasil, redução das chuvas em grande parte das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e precipitações mais elevadas no Sul. Esse cenário amplia os riscos de ondas de calor, secas, incêndios florestais, enchentes e deslizamentos, atingindo um país no qual milhões de crianças já vivem em territórios marcados pela pobreza, pela precariedade habitacional e pela insuficiência dos serviços públicos.
O El Niño é um fenômeno natural e recorrente, mas sua atuação ocorre agora sobre um planeta aquecido pelas mudanças climáticas. A combinação entre os dois processos aumenta a possibilidade de eventos extremos e expõe uma desigualdade que os indicadores nacionais agregados nem sempre revelam. Uma tempestade, uma seca ou uma onda de calor não encontra todas as crianças nas mesmas condições. Algumas vivem em casas protegidas, estudam em escolas preparadas e contam com atendimento médico próximo. Outras dependem de moradias frágeis, escolas sem água adequada, postos de saúde sobrecarregados e redes familiares cuja renda pode desaparecer diante da primeira emergência. A crise climática, por isso, também é uma crise dos direitos da infância.
Uma geração cercada por ameaças climáticas
O Relatório de Risco Climático das Crianças 2026, divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), dimensionou essa exposição. No Brasil, 16 milhões de crianças e adolescentes vivem em áreas submetidas simultaneamente a três ou mais ameaças climáticas, como secas, calor extremo, ondas de calor, queimadas, enchentes e tempestades. São aproximadamente três em cada dez meninas e meninos do país. Quando considerados dois ou mais riscos, o número ultrapassa 30 milhões, o equivalente a seis em cada dez.
A multiplicidade das ameaças é importante porque os impactos não costumam ocorrer isoladamente. Uma seca prolongada reduz a disponibilidade de água, compromete a produção de alimentos, favorece incêndios e aumenta a concentração de poluentes no ar. Uma enchente pode destruir moradias, interromper aulas, contaminar fontes de abastecimento e impedir o funcionamento de unidades de saúde. Depois que as águas baixam ou a chuva retorna, os prejuízos continuam presentes na perda de renda familiar, no endividamento, na insegurança alimentar e na dificuldade de reconstruir a vida cotidiana.
Crianças e adolescentes são especialmente dependentes da continuidade dos serviços públicos e dos cuidados familiares. Quando um desastre interrompe o transporte, fecha uma escola ou dificulta o acesso aos centros de saúde, eles não dispõem de autonomia para procurar alternativas. Essa dependência não significa passividade, mas revela que sua proteção exige decisões anteriores ao desastre. Ainda assim, políticas climáticas e planos municipais frequentemente tratam a população como um conjunto homogêneo, sem reconhecer as necessidades específicas da infância.
O calor que adoece e amplia desigualdades
Um estudo publicado em agosto de 2026 na revista científica Science Advances e divulgado em 31 de agosto pelo portal EcoDebate mostrou que 9,2 milhões de crianças brasileiras de até nove anos, correspondentes a 32% dessa faixa etária, enfrentam pelo menos trinta dias adicionais de estresse térmico por ano em consequência das mudanças climáticas. A pesquisa Age-specific exposure to human-induced increases in humid heat, coordenada pela Vrije Universiteit Brussel, combinou dados demográficos e modelos climáticos para identificar a parcela da exposição ao calor úmido atribuível ao aquecimento provocado pelas atividades humanas. O número de crianças brasileiras submetidas a pelo menos cinco meses anuais de calor perigoso passou de aproximadamente 300 mil, em um cenário sem o aquecimento antropogênico, para 3,2 milhões nas condições atuais.
Outro estudo anterior publicado em 2025 na revista científica Environmental Research analisou mais de um milhão de mortes de crianças menores de cinco anos ocorridas no país ao longo de duas décadas e encontrou evidências científicas que mostram que as temperaturas extremas já produzem efeitos mensuráveis sobre a saúde infantil no Brasil. A pesquisa foi desenvolvida pela Fundação Oswaldo Cruz da Bahia (Cidacs/Fiocruz Bahia) e pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em colaboração com instituições internacionais. Os resultados mostraram que, em comparação com as temperaturas associadas ao menor risco de mortalidade, o risco de morte infantil aumentou 95% nos dias de frio extremo e 29% nos dias de calor extremo, com diferenças relacionadas à idade, à região do país e às condições sociais.
Os organismos de bebês e crianças pequenas ainda estão desenvolvendo seus mecanismos de regulação da temperatura. Por essa razão, perdem líquidos com maior facilidade e possuem menor capacidade de responder ao calor intenso. Temperaturas elevadas aumentam os riscos de desidratação, problemas renais, agravamento de doenças respiratórias e disseminação de algumas enfermidades infecciosas. O frio extremo também pode provocar complicações respiratórias e metabólicas, especialmente em moradias com infiltrações, umidade e proteção térmica insuficiente.
Os riscos não decorrem apenas da temperatura registrada pelos termômetros. A qualidade das habitações, a presença de árvores, o acesso à água e a disponibilidade de espaços ventilados definem a intensidade da exposição. Nas periferias urbanas, a concentração de construções, as superfícies asfaltadas, a falta de vegetação e os telhados inadequados produzem ambientes muito mais quentes. Em áreas rurais e comunidades tradicionais, longas distâncias até os serviços de saúde podem transformar um problema inicialmente simples em uma situação grave.
As recomendações habituais para os dias muito quentes, como beber água, permanecer em lugares frescos e evitar exposição ao sol, pressupõem condições que não estão disponíveis para todas as famílias. Milhões de pessoas não possuem climatização, moram em casas mal ventiladas ou enfrentam abastecimento irregular. Muitos responsáveis trabalham fora durante todo o dia e não podem alterar suas jornadas quando as temperaturas sobem. Sem políticas públicas, a orientação individual transfere às famílias a responsabilidade por enfrentar riscos produzidos também pela desigualdade urbana e pela ausência de adaptação climática.
A crise climática começa antes do nascimento
Um estudo publicado em 2026 na revista científica The Lancet Regional Health – Americas acrescentou outra dimensão ao problema. A pesquisa analisou 29,8 milhões de nascimentos ocorridos no Brasil entre 2001 e 2020 e identificou associação entre a exposição à seca durante a gestação e o aumento do risco de nascimento prematuro e de bebês pequenos para a idade gestacional. Os efeitos foram mais pronunciados em biomas como Amazônia, Caatinga, Cerrado e Pampa e nas populações socialmente mais vulneráveis.
As secas influenciam a gestação por diferentes caminhos. Elas podem reduzir o acesso à água potável, diminuir a quantidade e a diversidade dos alimentos, aumentar a exposição ao calor e dificultar o acompanhamento pré-natal. Nas comunidades isoladas, a redução do nível dos rios impede deslocamentos até as unidades de saúde. Nas áreas rurais, a perda da produção agrícola compromete simultaneamente a renda e a alimentação da família. Em territórios sem saneamento adequado, a escassez de água também aumenta os riscos de contaminação e doenças.
Esses resultados mostram que a proteção da infância não pode começar somente após o nascimento. A atenção primária à saúde precisa incorporar informações climáticas, identificar gestantes expostas a secas e ondas de calor e organizar antecipadamente o acompanhamento das comunidades mais vulneráveis. Garantir água segura, alimentação adequada e acesso ao pré-natal durante uma emergência climática deve fazer parte das políticas de adaptação, e não ser tratado como medida improvisada quando os efeitos já estão instalados.
Quando o calor chega ao prato
A relação entre temperatura e alimentação infantil foi demonstrada por outro estudo publicado em 2026, desta vez na revista The Lancet Planetary Health. A pesquisa acompanhou informações de mais de seis milhões de crianças brasileiras entre um e cinco anos. Acima de 26°C, cada aumento de 1°C na temperatura local foi associado a uma elevação de aproximadamente 10% na possibilidade de baixo peso e de 8% nas possibilidades de desnutrição aguda e de comprometimento persistente do crescimento.
Os resultados foram mais graves nas regiões Norte e Nordeste, nas áreas rurais e entre crianças indígenas e negras. A desigualdade encontrada não é um detalhe secundário. Ela mostra que a elevação da temperatura atua sobre estruturas sociais já existentes. Famílias com maior renda podem substituir alimentos, preservar estoques, climatizar ambientes e buscar atendimento médico. Famílias pobres dependem mais dos preços locais, da produção de pequena escala, da alimentação escolar e da continuidade dos programas públicos.
O calor e a irregularidade das chuvas afetam lavouras, reduzem a produtividade, alteram a disponibilidade de frutas e hortaliças e podem elevar os preços. Também interferem no armazenamento e no transporte de produtos perecíveis. Quando a renda é limitada, o encarecimento não provoca apenas redução da quantidade ingerida. Ele diminui a diversidade das refeições e favorece a substituição de alimentos frescos por produtos mais baratos e de menor qualidade nutricional.
O El Niño de 2026 torna essa relação especialmente preocupante. A previsão de chuvas abaixo da média no centro-norte do país pode afetar a agricultura familiar, o abastecimento de comunidades indígenas e ribeirinhas e a produção destinada aos mercados locais. Na Região Sul, o excesso de precipitação também pode danificar plantações e estradas. A alimentação escolar, as compras públicas da agricultura familiar, os estoques governamentais e os programas de transferência de renda tornam-se, nesse contexto, instrumentos de adaptação climática e proteção da infância.
A escola interrompida pelos desastres
A educação constitui outra dimensão frequentemente tratada como consequência lateral dos eventos extremos. Em 2024, pelo menos 1,17 milhão de estudantes brasileiros tiveram as aulas interrompidas por emergências climáticas. As enchentes no Rio Grande do Sul afetaram mais de 2 mil escolas estaduais e impediram que aproximadamente 741 mil estudantes frequentassem as aulas. Na Amazônia, a seca paralisou por períodos prolongados cerca de 1.700 escolas, incluindo mais de cem unidades situadas em áreas indígenas, atingindo aproximadamente 436 mil estudantes.
A interrupção não representa apenas perda de conteúdo escolar. Para muitas crianças, a escola oferece alimentação, proteção, convivência e acesso a serviços públicos. Seu fechamento desorganiza a rotina familiar e pode obrigar responsáveis a deixar o trabalho para cuidar dos filhos. Quando o afastamento se prolonga, aumentam as dificuldades de aprendizagem e os riscos de abandono, sobretudo entre estudantes que já enfrentavam trajetórias escolares irregulares.
As próprias instalações escolares também revelam a desigualdade ambiental. Segundo dados do Censo Escolar 2024, sistematizados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), mais de 500 mil estudantes frequentam cerca de 8 mil escolas públicas municipais sem acesso à água por fontes consideradas adequadas. Desse total, aproximadamente 138 mil estão matriculados em pouco mais de 2 mil unidades nas quais não existe acesso à água. Quase 94% dessas escolas estão localizadas em áreas rurais.
Em períodos de calor extremo, salas lotadas, telhados que concentram calor e ausência de ventilação prejudicam a concentração e tornam a permanência na escola desgastante. Durante enchentes e deslizamentos, unidades escolares são frequentemente utilizadas como abrigos, mesmo quando não foram planejadas para essa função. A adaptação da educação exige estruturas resistentes, água segura, conforto térmico, planos de contingência, alternativas de transporte e estratégias que permitam a continuidade das aulas sem excluir quem não possui acesso regular à internet.
A geografia social da infância climática
Os impactos do clima acompanham as desigualdades territoriais e raciais do país. Crianças indígenas podem enfrentar seca, contaminação da água, escassez de pescado e interrupção do atendimento realizado por equipes de saúde. Crianças quilombolas e rurais convivem com distâncias maiores até escolas e unidades médicas. Nas periferias urbanas, famílias negras estão mais presentes em encostas, margens de rios e bairros com pouca arborização, drenagem insuficiente e saneamento precário.
O desastre não é produzido somente pela chuva, pela seca ou pelo calor. Ele surge quando esses eventos encontram populações submetidas à precariedade e territórios historicamente privados de investimentos. A mesma quantidade de chuva pode ser absorvida por um bairro arborizado e dotado de drenagem, enquanto provoca alagamentos em uma comunidade construída junto a um curso d'água degradado. A mesma temperatura produz efeitos diferentes em uma casa ventilada e em uma moradia pequena, coberta por materiais que acumulam calor.
A desigualdade também aparece na recuperação. Famílias com poupança, seguro e acesso ao crédito conseguem substituir móveis, mudar temporariamente de residência e retomar mais rapidamente a rotina. As famílias pobres dependem de doações, benefícios emergenciais e respostas governamentais que nem sempre chegam no tempo necessário. Para as crianças, a demora significa permanência prolongada em abrigos, perda de materiais escolares, afastamento da comunidade e fragilização das redes de proteção.
A distância entre o protocolo e a proteção efetiva
O Brasil atualizou, em 2025, o Protocolo Nacional para a Proteção Integral de Crianças e Adolescentes em Situação de Riscos e Desastres. Elaborado pelo governo federal em parceria com o Unicef e outras instituições, o documento distribui responsabilidades entre os sistemas de defesa civil, saúde, educação, assistência social, justiça, direitos humanos e conselhos tutelares. Sua concepção reconhece que a proteção deve ocorrer antes, durante e depois das emergências.
O protocolo recomenda a identificação prévia das crianças residentes nas áreas de risco, a manutenção dos serviços essenciais, a existência de abrigos adequados e a preparação das equipes públicas. Também prevê cuidados para evitar separações familiares, garantir alimentação e continuidade escolar e atender crianças com deficiência ou necessidades específicas. Sua efetividade, entretanto, dependerá da incorporação dessas orientações aos planos estaduais e municipais, da capacitação das equipes e da destinação de recursos permanentes.
O Ministério da Saúde reconheceu, em julho de 2026, que as mudanças climáticas já desafiam a organização do Sistema Único de Saúde (SUS). A resposta passa pelo fortalecimento da atenção primária, cuja presença nos territórios permite identificar vulnerabilidades, acompanhar famílias e organizar ações antes que a emergência se transforme em crise sanitária. Na educação, uma coleção lançada pelo Unicef em maio oferece orientações para que redes de ensino se preparem para as emergências climáticas, com atenção especial à Amazônia Legal e possibilidade de aplicação em todo o país.
Essas iniciativas mostram avanços, mas a intensificação do El Niño cobrará capacidade de execução. Não basta possuir alertas meteorológicos se escolas, unidades de saúde e serviços de assistência social não souberem como agir. Também não basta orientar famílias a abandonar áreas perigosas quando não existem moradias seguras para recebê-las. A proteção da infância depende de políticas coordenadas de habitação, saneamento, saúde, alimentação, educação e defesa civil.
As previsões disponíveis oferecem tempo para agir antes dos períodos mais críticos. Municípios podem mapear crianças em áreas vulneráveis, preparar escolas e unidades de saúde, garantir estoques de água e alimentos, revisar abrigos e organizar rotas de atendimento. A antecipação não elimina os eventos climáticos, mas pode impedir que eles interrompam direitos e aprofundem desigualdades.
Ao colocar a infância no centro da adaptação climática, o país reconhece que os danos não se limitam ao momento do desastre. Uma criança que perde alimentação, saúde ou meses de escolarização carrega consequências muito além da emergência. O El Niño passará, como outros episódios anteriores, mas seus efeitos poderão permanecer na vida de uma geração inteira se a resposta pública chegar somente depois que o calor, a seca ou a enchente já tiverem ocupado o território.
Fontes consultadas
BRASIL. Painel El Niño 2026–2027. Boletim Mensal nº 2. Agosto de 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Mudanças climáticas desafiam organização do SUS e reforçam adaptação dos serviços de saúde. 14 jul. 2026.
ECODEBATE. Mudanças climáticas já expõem 9 milhões de crianças no Brasil a um mês a mais de calor perigoso. 31 ago. 2026.
FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA (UNICEF). Água, saneamento e higiene. Dados do Censo Escolar 2024 e do estudo Pobreza multidimensional na infância e adolescência no Brasil 2025; Educação e emergências climáticas. 19 maio 2026; Quase metade das crianças do mundo está exposta a pelo menos três ameaças climáticas. 15 jun. 2026; Quase 250 milhões de crianças e adolescentes tiveram os estudos interrompidos por crises climáticas em 2024. 23 jan. 2025; Protocolo Nacional para a Proteção Integral de Crianças e Adolescentes em Riscos e Desastres. 2025.
ORGANIZAÇÃO METEOROLÓGICA MUNDIAL. Strong El Niño expected to intensify. 31 jul. 2026.
PIETROIUSTI, Rosa et al. Age-specific exposure to human-induced increases in humid heat. Science Advances, v. 12, n. 35, 2026.
RIBEIRO-SILVA, Rita de Cássia et al. Ambient temperature and child nutritional status of more than 6 million children in Brazil: a cohort study. The Lancet Planetary Health, v. 10, 2026.
ROCHA, Aline dos Santos et al. Association between drought and adverse birth outcomes: a nationwide cohort study with 29.8 million live births in Brazil. The Lancet Regional Health – Americas, v. 62, 2026.
SILVEIRA, Ismael Henrique et al. Effects of ambient temperature on under-five mortality: a nationwide space-time-stratified case-crossover study in Brazil. Environmental Research, v. 285, 2025.
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