"O silêncio também é cumplicidade". Entrevista com Munther Isaac

Foto: Anadolu Ajansi

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28 Agosto 2026

Munther Isaac, pastor luterano e teólogo de Belém, é uma das vozes mais contundentes e conhecidas que pedem ao mundo para salvar a população palestina.

A convite de vários grupos e associações inter-religiosos (Dalla parte di Abele; os Embaixadores da Paz da União Cristã Evangélica Batista da Itália; a Comissão sobre Globalização e Meio Ambiente da Federação das Igrejas Evangélicas da Itália; e o Cipax, Centro Interconfessional pela Paz), ele passou alguns dias na Itália para compartilhar com nossas comunidades o testemunho do drama em curso. Marcamos um encontro com ele em Torre Pellice (Turim), poucas horas antes de sua palestra na igreja valdense.

A entrevista é de Claudio Geymonat, publicada por Riforma, 28-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Pastor Isaac, qual é a situação atual na Cisjordânia e em Gaza?

O que está acontecendo hoje é realmente sem precedentes; é horrível. Vivemos em perigo; vivemos em constante medo. Na Cisjordânia, os colonos agem sem freios: matando, aterrorizando, cercando casas, envenenando fontes de água e roubando rebanhos. Eles querem tomar as terras e tentam expulsar a população local. Declaram isso abertamente, dizendo a todos que esse é o seu objetivo, e contam com o apoio do exército israelense nessa empreitada, que os protege, escolta e apoia. No entanto, isso não é nada diante do que está acontecendo em Gaza. Infelizmente, a guerra, as mortes, o cerco e a fome não terminaram; agora é aceito com o consenso unânime por muitas organizações internacionais de direitos humanos, pelas Nações Unidas e até mesmo por numerosos estudiosos israelenses de que um genocídio está em curso em Gaza. Nós, palestinos, não fomos os primeiros a classificá-lo dessa forma.

O grupo cristão palestino “Kairos” elaborou um documento intitulado “Um Momento de Verdade: a Fé em Tempos de Genocídio”, que denuncia a timidez da voz das igrejas ocidentais em relação às ações empreendidas pelo Estado de Israel nos últimos anos. Como chegamos a esse ponto?

O documento ‘Kairos Palestine’ foi escrito por pastores, teólogos e ativistas cristãos palestinos oriundos de um amplo espectro de igrejas. Entre os vários temas abordados, destaca-se efetivamente a timidez das igrejas, especialmente no Ocidente, bem como sua postura excessivamente permissiva e até mesmo de cumplicidade; pois algo que aprendemos nos últimos dois anos e meio é que o silêncio também é cumplicidade. As igrejas pediram sanções contra Israel da mesma forma que o mundo cristão se uniu para dizer não ao apartheid na África do Sul? Infelizmente, não. Poder-se-ia dizer que essa escolha está ligada ao sentimento de culpa pelo que aconteceu na Europa, o genocídio contra o povo judeu, ou que poderia ser uma escolha teológica. Mas os palestinos se perguntam: ‘Por que nós temos de pagar o preço?’ É por isso que o documento Kairos utilizou aquelas palavras, convocando as igrejas ao arrependimento.”

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O que vocês pedem às igrejas do resto do mundo?

Os cristãos palestinos pedem às igrejas, antes de tudo, que chamem a realidade pelo que ela é. Quando as igrejas se recusam a nomear o genocídio ou o apartheid, vemos isso como um ataque à nossa humanidade, como se as regras do direito não se aplicassem a nós. Não falo apenas de racismo e de dois pesos e duas medidas; falo também do falso conceito de pacificação. Pedimos também ações. Pedimos que as igrejas falem com seus governos, clamem por justiça e exijam responsabilidade. Por fim, pedimos que as igrejas apoiem a nossa resiliência.

O documento convida a população a se engajar em uma resistência criativa. O que isso significa?

Queríamos dizer ao nosso povo que é nosso direito e nosso dever resistir ao ocupante. A resistência criativa baseia-se no conceito de não violência, o que não significa passividade. Sob uma perspectiva cristã, é nosso direito e dever resistir ao mal, mas resistimos ao mal com o bem. Não resistimos ao mal com o mal; é por isso que o documento se compromete com a não violência, mesmo diante do genocídio. Sei que o nosso próprio povo às vezes nos questiona sobre isso, mas acreditamos realmente que essa é a teologia e a ética de Jesus. O que estamos dizendo é que existem muitas formas de resistir, e pedimos para ser criativos. Isso não significa que não haja nenhuma responsabilidade. Não significa que não busquemos justiça ou reparações; pelo contrário, acreditamos que o caminho a seguir passa por boicotes, por sanções e por desinvestimento em qualquer um que lucre com o atual sistema de ocupação em nossa terra. A resistência criativa no campo também significa solidarizar-nos uns com os outros como comunidade e encontrar formas de permanecer enraizados na terra.

O documento, enviado às igrejas, está gerando debate e suscitando diversas reações. Algumas vozes criticam a ausência de um apelo ao diálogo entre Israel e a Palestina em suas páginas.

O documento denuncia a normalização do genocídio. É por isso que, quando o diálogo se torna uma ferramenta para normalizar o colonialismo, o apartheid e o genocídio, segundo o Kairos Palestine, devemos trabalhar na questão. Defendemos que se traga para a mesa de discussão as vozes judaicas que falam em favor da justiça. A nossa experiência mostra que muitos grupos de diálogo judaico-cristão, especialmente na Europa, estiveram entre os defensores mais fervorosos do sionismo e das ações empreendidas pelo Estado de Israel nas últimas décadas. A inter-religiosidade deve reunir pessoas de todas os credos, cristãos, judeus, muçulmanos, budistas e não crentes, para lutar juntas pela humanidade e pela justiça. É por isso que dizemos que, se o diálogo inter-religioso não denunciar os crimes do sionismo e não exigir responsabilização, efetivamente normaliza esses crimes. E, sendo assim, devemos boicotar esses diálogos e, em vez disso, dar escuta ao número crescente de vozes judaicas em todo o mundo que dizem: ‘Não em nosso nome; não ao genocídio e não ao apartheid’.

O que, então, podem fazer as pessoas aqui no Ocidente e na Europa para contribuir para a causa da paz no Oriente Médio?

As páginas iniciais da Bíblia trazem uma pergunta importante: ‘Sou eu o guardião do meu irmão?’ Acredito que hoje vivemos em uma época em que, como humanidade, devemos responder ‘sim’. Precisamos proteger uns aos outros. Crimes de guerra e violações de direitos humanos, seja na Palestina, no Sudão, na Ucrânia ou em qualquer outro lugar, são violações dos direitos humanos em qualquer lugar. Leiam os estudos. Leiam os numerosos relatórios. Não podemos continuar negando a realidade. E somente quando tivermos compreendido e falado com verdade sobre a situação na Palestina, acredito que somente então, poderemos avançar e discutir soluções. Pedimos aos cristãos de todo o mundo a demonstrarem uma solidariedade difícil, pois quando nos opomos aos poderes mundiais, somos perseguidos. Mas, se crimes de guerra forem normalizados em Gaza, serão normalizados em toda parte. Boicotem. Exijam justiça. Unam-se. Deem voz a todas as crenças nos movimentos de base, pois a mudança deve vir de baixo. Solidarizem-se conosco. E continuem a sensibilização global sobre o que está acontecendo.

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