O Natal não é uma história ocidental, é uma história palestina. Artigo de Munther Isaac

presépio acima é uma iniciativa do pastor Munther Isaac, que juntamente com colegas quis expressar o que o Natal significa para eles agora. Ele é pastor da Igreja Luterana de Belém na Cisjordânia. |Foto: Anadolu Agency

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07 Janeiro 2026

O Natal é uma história de império, injustiça e da vulnerabilidade das pessoas comuns apanhadas no seu caminho.

O artigo é do Rev. Dr. Munther Isaac publicado por Al Jazeera, 24-12-2025. 

Munther Isaac é pastor e teólogo palestino. Ele pastoreia a Igreja Evangélica Luterana Hope em Ramallah e é diretor do Instituto de Belém para a Paz e a Justiça.

Eis o artigo. 

Todo mês de dezembro, grande parte do mundo cristão entra em um ciclo familiar de celebrações: canções natalinas, luzes, árvores decoradas, frenesi consumista e a imagem acolhedora de uma noite nevada. Nos Estados Unidos e na Europa, o discurso público frequentemente fala em “valores cristãos ocidentais”, ou mesmo na vaga noção de “civilização judaico-cristã”. Essas expressões tornaram-se tão comuns que muitos presumem, quase automaticamente, que o cristianismo é inerentemente uma religião ocidental — uma expressão da cultura, história e identidade europeias.

Não é.

O cristianismo é, e sempre foi, uma religião do Oriente Médio/Ásia Ocidental. Sua geografia, cultura, visão de mundo e histórias de fundação estão enraizadas nesta terra — entre povos, línguas e estruturas sociais que se assemelham muito mais às da Palestina, Síria, Líbano, Iraque e Jordânia de hoje do que a qualquer coisa imaginada na Europa. Mesmo o judaísmo, invocado no termo “valores judaico-cristãos”, é em si um fenômeno genuinamente do Oriente Médio. O Ocidente recebeu o cristianismo — certamente não o criou.

E talvez nada revele a distância entre as origens do cristianismo e sua expressão ocidental contemporânea de forma mais nítida do que o Natal — a história do nascimento de um judeu palestino, um filho desta terra que nasceu muito antes do surgimento das fronteiras e identidades modernas.

O que o Ocidente achou do Natal

No Ocidente, o Natal é um mercado cultural. É comercializado, romantizado e envolto em camadas de sentimentalismo. A ostentação na troca de presentes ofusca qualquer preocupação com os mais pobres. A época tornou-se um espetáculo de abundância, nostalgia e consumismo — um feriado desprovido de sua essência teológica e moral.

Até mesmo os versos conhecidos da canção natalina Noite Silenciosa obscurecem a verdadeira natureza da história: Jesus não nasceu em meio à serenidade, mas sim à turbulência.

Ele nasceu sob ocupação militar, em uma família deslocada por um decreto imperial, em uma região que vivia sob a sombra da violência. A Sagrada Família foi forçada a fugir como refugiada porque os meninos de Belém, segundo a narrativa do Evangelho, foram massacrados por um tirano temível determinado a preservar seu reinado. Soa familiar?

Na verdade, o Natal é uma história de império, injustiça e da vulnerabilidade das pessoas comuns apanhadas no seu caminho.

Belém: Imaginação versus realidade

Para muitos no Ocidente, Belém – o local de nascimento de Jesus – é um lugar de imaginação, um cartão-postal da antiguidade, congelado no tempo. A "pequena cidade" é lembrada como uma vila pitoresca das escrituras, em vez de uma cidade viva e pulsante, com pessoas reais, com uma história e cultura próprias.

Belém hoje está cercada por muros e postos de controle construídos por um ocupante. Seus moradores vivem sob um sistema de apartheid e fragmentação. Muitos se sentem isolados, não apenas de Jerusalém – que o ocupante não permite que visitem – mas também do imaginário cristão global que venera o passado de Belém enquanto frequentemente ignora seu presente.

Esse sentimento também explica por que tantos no Ocidente, embora celebrem o Natal, se importam pouco com os cristãos de Belém. Pior ainda, muitos adotam teologias e posicionamentos políticos que apagam ou descartam completamente a nossa presença para apoiar Israel, o império de hoje.

Nesses contextos, a Belém antiga é venerada como uma ideia sagrada, mas a Belém moderna — com seus cristãos palestinos sofrendo e lutando para sobreviver — é uma realidade incômoda que precisa ser ignorada.

Essa desconexão é importante. Quando os cristãos ocidentais se esquecem de que Belém é real, eles se desconectam de suas raízes espirituais. E quando se esquecem de que Belém é real, também se esquecem de que a história do Natal é real.

Eles se esquecem de que tudo aconteceu entre um povo que vivia sob o domínio de um império, que enfrentava deslocamentos, que ansiava por justiça e que acreditava que Deus não estava distante, mas sim entre eles.

O que o Natal significa para Belém

Então, como é o Natal quando contado da perspectiva das pessoas que ainda vivem onde tudo começou — os cristãos palestinos? Que significado ele tem para uma pequena comunidade que preservou sua fé por dois milênios?

Em sua essência, o Natal é a história da solidariedade de Deus.

É a história de um Deus que não governa de longe, mas está presente entre as pessoas e toma o partido dos marginalizados. A encarnação — a crença de que Deus se fez carne — não é uma abstração metafísica. É uma afirmação radical sobre onde Deus escolhe habitar: na vulnerabilidade, na pobreza, entre os oprimidos, entre aqueles que não têm poder algum, exceto o poder da esperança.

Na história de Belém, Deus não se identifica com os imperadores, mas com aqueles que sofrem sob o império — suas vítimas. Deus não vem como um guerreiro, mas como um bebê. Deus está presente não em um palácio, mas em uma manjedoura. Esta é a solidariedade divina em sua forma mais marcante: Deus se une à parte mais vulnerável da humanidade.

O Natal, portanto, é a proclamação de um Deus que confronta a lógica do império.

Para os palestinos de hoje, isso não é mera teologia — é experiência vivida. Quando lemos a história do Natal, reconhecemos o nosso próprio mundo: o censo que obrigou Maria e José a viajar assemelha-se às autorizações, aos postos de controle e aos controles burocráticos que moldam o nosso dia a dia. A fuga da Sagrada Família ressoa com os milhões de refugiados que fugiram das guerras em toda a nossa região. A violência de Herodes ecoa na violência que vemos à nossa volta.

O Natal é uma história palestina por excelência.

Uma mensagem para o mundo

Belém celebra o Natal pela primeira vez após dois anos sem festividades públicas. Foi doloroso, mas necessário, cancelar nossas comemorações; não tínhamos outra escolha.

Um genocídio estava em curso em Gaza, e como pessoas que ainda vivem na terra natal do Natal, não podíamos fingir que não. Não podíamos celebrar o nascimento de Jesus enquanto crianças da sua idade eram retiradas mortas dos escombros.

Celebrar esta época não significa que a guerra, o genocídio ou as estruturas do apartheid tenham terminado. Pessoas ainda estão sendo mortas. Ainda estamos sitiados.

Em vez disso, nossa celebração é um ato de resiliência — uma declaração de que ainda estamos aqui, de que Belém continua sendo a capital do Natal e de que a história que esta cidade conta deve continuar.

Numa época em que o discurso político ocidental instrumentaliza cada vez mais o cristianismo como marcador de identidade cultural — muitas vezes excluindo as próprias pessoas entre as quais o cristianismo nasceu — é vital retornar às raízes dessa história.

Neste Natal, o nosso convite à igreja global — e aos cristãos ocidentais em particular — é para que nos lembremos de onde a história começou. Para que nos lembremos de que Belém não é um mito, mas um lugar onde ainda vivem pessoas. Se o mundo cristão quiser honrar o significado do Natal, deve voltar o seu olhar para Belém — não a Belém imaginária, mas a Belém real, uma cidade cujo povo ainda hoje clama por justiça, dignidade e paz.

Lembrar de Belém é lembrar que Deus está ao lado dos oprimidos — e que os seguidores de Jesus são chamados a fazer o mesmo.

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