"Esses números marcados na pele dos prisioneiros palestinos são um tapa na cara da memória da Shoa". Entrevista com Anna Foa

Foto: Anadolu Agency

Mais Lidos

  • Mineradoras estrangeiras detêm 4 a cada 10 projetos de terras raras no país

    LER MAIS
  • Uma análise psicológica do colapso ambiental. Entrevista com Josep Maria Panés

    LER MAIS
  • O "consumismo egocêntrico" nos separa de todos, até de nós mesmos. Artigo de Franco Arminio

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

21 Agosto 2026

Entrevista de Fulvia Degl'Innocenti com a historiadora judia Anna Foa, que condena as imagens em que aparecem palestinos detidos na Cisjordânia sendo marcados com números pelo exército israelense: "Para mim, é uma grande dor ver essas fotografias. A referência à prática nazista nos campos de extermínio é evidente. Como se quisessem dizer: 'agora somos nós que estamos do lado que controla a marca'".

A entrevista é de Fulvia Degl'Innocenti, publicada pela Revista Famiglia Cristiana, 19-08-2026.

As imagens de alguns palestinos detidos na Cisjordânia com um número escrito na testa com uma caneta hidrográfica trouxeram à memória o horror dos campos de extermínio, quando, antes mesmo de serem enviados para a morte, os judeus eram despidos de sua identidade e reduzidos a números tatuados no braço. Números que permaneceram na pele dos sobreviventes como testemunho de um horror ao qual toda a humanidade não gostaria de voltar a assistir. E, no entanto, algo semelhante volta a acontecer, pelas mãos justamente daqueles que, mais do que ninguém, deveriam manter viva essa memória, e não certamente transformá-la em uma vingança da história.

Eis a entrevista.

Conversamos sobre isso com Anna Foa, historiadora do judaísmo, que, em seu recente ensaio O suicídio de Israel, tomou uma posição inequivocamente crítica em relação às ações do governo israelense.

É uma grande dor assistir a cenas como essas, sobretudo para judeus como eu, cuja história também inclui a Shoah. É claro que não é a mesma coisa que a tatuagem no braço, porque aqui está escrito com uma caneta hidrográfica, mas a desumanização permanece, e a referência à prática nazista nos campos de extermínio é evidente. É como se nascesse da vontade de inverter justamente aquilo que aconteceu e dizer: agora somos nós que temos a marca do lado do inimigo. E é ainda mais grave porque isso não foi feito pelos colonos, mas pelo exército, portanto por uma instituição oficial do governo.

E não é nem sequer a primeira vez. Em abril passado, algo semelhante havia sido feito com algumas mulheres palestinas que receberam autorização para retornar a Jenin após uma evacuação, a fim de recuperar alguns pertences pessoais.

Um episódio que havia sido negado, por ser considerado incompatível com os padrões do exército israelense, mas agora acontece novamente e não pode ser um caso isolado, ou simplesmente uma situação circunstancial. Até porque foi documentado por fotografias. Portanto, de certo modo, foi exibido, reivindicado como algo de que se orgulhar, e isso, na minha opinião, é assustador. Por trás desse simples gesto está tudo aquilo a que estamos assistindo há algum tempo: a vontade abertamente declarada de matar os palestinos, expulsar os palestinos, desumanizar os palestinos, matar também os recém-nascidos. Isso vai contra a própria ética judaica ao longo da história e, naturalmente, também contra o direito internacional e a justiça. Todos os limites foram ultrapassados.

Além disso, o próprio ministro da Segurança Nacional de Israel, Ben Gvir, em uma de suas últimas declarações públicas, disse: “Considero que em Gaza devem ser realizados assassinatos seletivos, eliminando 30 a 40 pessoas todas as noites. Não apenas aqueles que representam uma ameaça imediata: há pessoas ali que não merecem viver, que não deveriam viver, que nem sequer são pessoas...”.

O que me impressiona nesse tipo de declaração é que talvez muitas outras pessoas pensem como ele, mas ninguém jamais havia ousado dizê-lo por medo do isolamento, das reações do mundo. Agora, porém, ousa-se dizer coisas desse tipo; ousa-se dizer: “Eu sou um assassino e quero matar 40 pessoas todos os dias, sejam elas inocentes ou não, não me importa, todos os dias”. Ben Gvir, porém, não é simplesmente um louco; ele é fruto de uma ideologia construída ao longo do tempo, é fruto também da incapacidade do mundo judaico de aceitar ser minoria e de querer ser absolutamente maioria. E isso nos leva de volta no tempo: quando os judeus da diáspora começaram a se afastar da percepção de serem uma minoria para quererem tornar-se maioria? Como desenvolveram a incapacidade de pensar que existe um mundo ao redor deles? O que aconteceu? Houve momentos em que a história de Israel poderia ter seguido um caminho diferente, e espero que, no futuro, surja uma nova possibilidade de sair dessa terrível deriva.

Ainda assim, aqueles que condenam as ações do governo Netanyahu são acusados de antissemitismo.

Eu digo: ainda bem que o mundo julga; se não julgasse, seria ainda pior, significaria total indiferença. Depois, infelizmente, existem também derivações antissemitas. Fiquei impressionada com um comentário nas redes sociais: “O bigodinho tinha razão”, mas, sem chegar a esses extremos, muitas pessoas não conseguem compreender, porque confesso que isso é realmente difícil até para mim. Eu, há dois anos e meio, quando falo e escrevo, luto justamente contra esse fechamento em si mesmo e contra o hábito de rotular toda crítica como antissemitismo. Eu mesma sou acusada de ser uma renegada.

Também entre muitos judeus laicos, ou pelo menos moderados, a reação é cada vez mais negar o extermínio que está acontecendo.

Sim, existe uma vontade de negar, a típica reação que as pessoas têm diante de algo que as supera, que as domina, que não conseguem compreender, que não conseguem aceitar, que lhes causa medo. Para mim, porém, é inconcebível que o mundo judaico da diáspora, especialmente o italiano, não perceba que, ao negar as evidências, alimenta os surtos que, esses sim, acabam sendo verdadeiramente antissemitas. Com o risco de que, em determinado momento, nos encontremos em um mundo no qual aquele senhor que escreveu “O bigodinho tinha razão” já não seja apenas um fenômeno isolado. Quando, ao contrário, chegarmos a compreender que aquilo que está acontecendo nos territórios ultrapassa todos os limites da razoabilidade e renega a própria história da Memória, então talvez esse surto antissemita também mude, e o mundo comece a refletir e a atribuir a culpa a quem realmente a tem, e não a todos os judeus indistintamente, assim como Netanyahu atribui a culpa do Hamas a todos os palestinos.

Em outubro haverá novas eleições. Essa escalada de violência fortalecerá a extrema-direita?

Pelas análises que aparecem nos jornais israelenses, não parece que a extrema-direita possa sair fortalecida. Salvo novas provocações muito fortes, espero sinceramente que se chegue, com uma campanha eleitoral acirrada, mas ainda dentro dos limites da normalidade, a eleições que derrubem Netanyahu. Depois disso, restará saber quem realmente vencerá as eleições e quais serão suas possibilidades. Com a queda de Netanyahu, cairão também essas manifestações de extremismo e fanatismo judaico que vemos em ação inclusive no exército, condicionado pela forte presença de religiosos extremistas em suas fileiras e por uma orientação que leva a aberrações como marcar as pessoas com números.

Leia mais