A misericórdia que salva o mundo. Artigo de Guillermo Jesús Kowalski

Foto: Jacob Bentzinger/Unsplash

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20 Agosto 2026

"A misericórdia não é um luxo espiritual; é a condição que torna possível a salvação do mundo e o sentido de felicidade que o nosso coração anseia", escreve Guillermo Jesús Kowalski, em artigo publicado por Religión Digital, 14-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Guillermo Jesús Kowalski é teólogo e cientista social, mestre em Doutrina Social da Igreja pela Universidade de Salamanca. 

Eis o artigo.

Uma felicidade que ignora a maioria da humanidade é uma ilusão artificial. A qualidade do nosso humanismo e do nosso cristianismo mede-se pela nossa capacidade de enxergar a miséria do mundo e de responder a ela. Não basta reconhecer intelectualmente a existência de pobres, excluídos e feridos; a fé cristã exige uma sensibilidade misericordiosa que impele a agir. O Evangelho apresenta isso com crueza e ternura: o samaritano para diante do homem ferido (Lc 10,25–37); o Juízo Final identifica Deus com os famintos, os sedentos, os estrangeiros e os prisioneiros (Mt 25,31–46). Ver e não simplesmente seguir adiante é a prova de uma fé encarnada. Não importa se são de nossa mesma nacionalidade, raça, condição econômica, religião ou ideologia; pelo contrário, quanto mais "diferentes", mais próximo são. Afinal, a transcendência não é o absolutamente diferente... que se tornou um de nós?

Ver a ferida: antropologia e sociologia da compaixão

Ver a miséria não é apenas um ato moral isolado; é um ato antropológico: reconhecer a fragilidade humana, tanto a própria quanto a do outro. A modernidade produziu formas de anestesia social: consumismo, autoajuda narcísica, xenofobia nacionalista e grandes manifestações de massa que criam a ilusão de comunidade. Essas respostas não curam a ferida; a mascaram. De uma perspectiva sociológica, a injustiça se reproduz quando a sociedade normaliza a indiferença: constroem-se instituições, discursos e hábitos que perpetuam a exclusão e tornam o "outro" invisível.

Uma sensibilidade misericordiosa, ao contrário, transforma a perspectiva. Não se trata de um sentimentalismo em busca de autoconsolo, mas de uma conversão do coração que modifica prioridades, hábitos e estruturas. É a conversão que Jesus exige em seus encontros: a samaritana, o cobrador de impostos, a mulher cananeia - todos são chamados a uma nova relação com Deus e com os outros (Jo 4; Lc 18). A misericórdia cristã possui, assim, uma dimensão pessoal e uma dimensão estrutural: toca a consciência e clama por reforma.

Misericórdia e doutrina social: não há fé sem justiça

A tradição teológica e a doutrina social da Igreja insistem sobre a inseparabilidade da caridade e da justiça. Ações isoladas são insuficientes se as estruturas que geram a pobreza permanecerem intactas. Pensadores e teólogos contemporâneos têm enfatizado que a opção preferencial pelos pobres não é uma ideologia partidária, mas um imperativo evangélico: priorizar aqueles que não alcançam níveis de subsistência e de crescimento deve nortear as políticas, a economia e a vida comunitária. A caridade sem justiça corre o risco de ser meramente paliativa; a justiça sem caridade pode tornar-se fria e legalista. Em seu magistério social, a Igreja convida a transformar relações econômicas, políticas e culturais, para que a dignidade humana se torne real e efetiva. Jesus, caminho e método: meios evangélicos e limites éticos

Ser cristão não significa "sentir-se bem" ou "ser bom" enquanto o mundo vai mal. Jesus veio precisamente porque o mundo sofre; sua entrega de si é a medida da ação cristã. Contudo, seu caminho também nos ensina os limites: os meios são importantes. No deserto, Jesus rejeita atalhos e seduções (Mt 4,1-11); diante da Paixão, rejeita a violência e a manipulação do poder (Jo 18-19). A indignação de Pedro diante da perspectiva da Cruz (Mt 16,21-23) revela a tentação de impor o bem pela força; Jesus o corrige. O clericalismo, que reduz a fé a privilégios e poder, trai esse método evangélico. A misericórdia não justifica qualquer caminho; exige coerência com a verdade e a dignidade humana.

Crítica cultural: consumo, espetáculo e a ilusão de comunidade

Vivemos em uma cultura na qual o "consumo" domina a linguagem e a imaginação. O consumo promete identidade e pertencimento, mas frequentemente gera competição, humilhação e solidão. Os grandes encontros - esportivas, musicais ou midiáticos - oferecem momentos fugazes de euforia que não transformam a vida ou as estruturas. Orwell descreveu a manipulação emotiva (os "dois minutos de ódio") como instrumento de controle; hoje, a ansiedade social é aplacada por espetáculos que não alteram as condições materiais ou a consciência moral. A alternativa cristã não é uma rejeição ingênua da cultura, mas a conversão dos desejos: consumir apenas o necessário para o bem comum, cultivar a sobriedade e a fraternidade, e construir espaços de encontro que não sejam mercadorias.

Uma ética da proximidade: práxis e política

Uma sensibilidade misericordiosa tem consequências políticas. Não se trata de abraçar uma ideologia como panaceia, mas de orientar as políticas públicas e as práticas comunitárias para a dignidade humana. As ideologias são construções humanas, sempre passíveis de aperfeiçoamento e sujeitas a distorções. A fé cristã oferece um critério: a prioridade pelos últimos. Isso implica políticas que garantam saúde, educação, um trabalho digno e participação; implica também uma economia que imponha limites ao lucro quando este destrói pessoas e ecossistemas. A autêntica política cristã não busca o poder pelo poder, mas sim o bem comum, e mede-se pela sua capacidade de reerguer os caídos.

Conclusão: a misericórdia que inflama a vida

A salvação oferecida por Jesus não é uma fuga para a espiritualidade ou um discurso moral. É um chamado à conversão do coração que se traduz em obras concretas: ver o ferido, aproximar-se, cuidar, acompanhar e transformar. Uma sensibilidade misericordiosa salva porque desarma a indiferença que está na raiz de muitas injustiças. Não estamos no mundo para "ser bons" segundo o moralismo distorcido do mundo, mas para fazer o bem como Jesus fez: prontos para nos doar, prudentes nos meios e radicais no amor.

Possa a nossa vida comunitária e política ser um reflexo dessa misericórdia; possam as nossas decisões econômicas, as nossas leis, os nossos costumes e as nossas liturgias nos ensinar a ver, a parar e a agir. Só então a ferida do mundo poderá começar a cicatrizar, e a promessa evangélica de um Reino onde a dignidade de todos seja realidade poderá tornar-se presente entre nós. A misericórdia não é um luxo espiritual; é a condição que torna possível a salvação do mundo e o sentido de felicidade que o nosso coração anseia.

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